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REVISTA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS
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REVISTA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Poncia Universidade
Católica de Minas Gerais
Programa de Pós-Graduação
em Relações Internacionais
Belo Horizonte
ISSN: 2317-773X
v. 9 n. 4
dezembro 2021
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REVISTA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS
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Relações Internacionais e futebol: limites e possibilidades
para que China se converta em uma potência global de
futebol em 2050 ...................................................................................................7
International Relations and football: limits and possibilities for China to become a global
football power by 2050
Relaciones Internacionales y fútbol: Límites y posibilidades para que China se convierta en
una potencia global del fútbol en 2050
Carlos Pulleiro Méndez
A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang ...............................................25
The New Silk Road and the Xinjiang dilemma
La Nueva Ruta de la Seda y el dilema de Xinjiang
Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria
Competição entre China e Estados Unidos na América
Latina: evolução, perspectivas e implicações no contexto do
COVID-19 ..............................................................................................................43
China-United States competition in Latin America: evolution, perspectives, and implications in
the COVID-19 context
La competencia entre China y Estados Unidos en América Latina: evolución, perspectivas e
implicancias en el contexto del COVID-19
M. Florencia Rubiolo, Diego Telias
Perspectivas teóricas predominantes na abordagem da
China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e
integração ...........................................................................................................63
Predominant theoretical perspectives on China’s approach to IR as a discipline: between
autonomy and integration.
Perspectivas teóricas predominantes en la aproximación de China a las RI como disciplina:
entre la autonomía y la integración
Carlos Monge Arístegui
Da nova economia do projetamento à globalização instituída
pela China ............................................................................................................90
From new projectment economy to Chinese embedded globalization
De la nueva economia del proyectamiento e la globalizacion instituída por China
Elias Jabbour, Alexis Dantas, Javier Vadell
Novo momento geopolítico mundial: a pandemia e a
aceleração das tendências da transição histórico-espacial
contemporânea .................................................................................................. 106
New world geopolitical moment: The Pandemic and the acceleration of the tendencies of the
contemporary historical-spatial transition
Nuevo momento geopolítico mundial: La Pandemia y la aceleración de las tendencias de la
transición histórica-espacial contemporánea
Gabriel Esteban Merino
Barack Obama e Donald Trump: a China na grande
estratégia dos Estados Unidos (2009-2020) ..................................................131
Barack Obama and Donald Trump: China in US grand strategy (2009-2020)
Barack Obama y Donald Trump: China en la grande estrategia estadounidense (2009-2020)
Rúbia Marcussi Pontes
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Carlos Pulleiro Méndez Relações Internacionais e futebol: limites e possibilidades para que China
se converta em uma potência global de futebol em 2050
Relações Internacionais e futebol: limites e
possibilidades para que China se converta
em uma potência global de futebol em 2050
International Relations and football: limits and
possibilities for China to become a global football power
by 2050
Relaciones Internacionales y fútbol: Límites y
posibilidades para que China se convierta en una potencia
global del fútbol en 2050
Carlos Pulleiro Méndez1
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2021v9.n3.p7
Recebido em: 04 de agosto de 2020
Aprovado em: 16 de dezembro de 2020
R
Com a liderança do presidente Xi Jinping, a revitalização do futebol se converteu
em um objetivo estratégico essencial para China. Seus três desejos são se classi-
car regularmente, organizar e ganhar a Copa do Mundo FIFA para 2050. Con-
siderando o estadismo do sistema esportivo internacional e a motivação política
da China para alcançar objetivos tão ambiciosos, este artigo aplicará uma análise
do futebol sob a perspectiva das Relações Internacionais. Nesse sentido, são iden-
ticadas três premissas básicas para a análise do futebol: 1. O interesse nacional
no esporte é conquistar títulos. 2. O interesse nacional não é tão relevante quanto
a habilidade e capacidade do Estado de vencer. 3. Mais recursos e investimentos
podem garantir melhor desempenho, mas não necessariamente ganhar títulos.
Concluindo, embora o futebol na China tenha tido um desenvolvimento conside-
rável ao longo desta década, se considerarmos que a conversão de recursos em
títulos não é a mesma para todos os países, a China pode enfrentar um paradoxo
de poder, sendo incapaz de tirar proveito de suas habilidades extraordinárias. para
obter títulos e se tornar uma potência mundial do futebol.
Palavras-chave: China. Futebol. política esportiva. Relações Internacionais.
Copa do Mundo FIFA.
A
Under the leadership of president Xi Jinping, the revitalisation of football has
become a key strategic goal for China. His three wishes are to qualify regularly,
host and win the FIFA World Cup by 2050. Considering the statehood of the
international sports system and the Chinese political motivation to achieve
1. Research fellow at the European Re-
search Centre of the School of Interna-
tional Studies (Sun Yat-sen University)
email: pulleiro@mail.sysu.edu.cn Orcid
ID: 0000-0001-5934-9862
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 7-24
such ambitious goals, this paper is going to apply an analysis of football from
an International Relations perspective. In this regard, three basic premises are
identied for the analysis of football: 1. The national interest in sport is winning
titles. 2. The national interest is not as relevant as the state’s ability and capacity
to win. 3. More resources and investments may guarantee a better performance,
but not necessarily winning titles. In conclusion, although football in China is
having a considerable development along this decade, if we consider that the
conversion of resources into titles is not the same for every country, China
might face a power paradox, being incapable to take advantage of its extraordi-
nary capacities to win titles and become a global football power.
Keywords: China. football. sports policy. International Relations. FIFA World Cup.
R
Bajo el liderazgo del presidente Xi Jinping, la revitalización del fútbol se ha
convertido en un objetivo estratégico clave para China. Sus tres deseos son clas-
icarse regularmente, organizar y ganar la Copa Mundial de la FIFA para 2050.
Considerando la estatalidad del sistema deportivo internacional y la motivación
política de China para lograr objetivos tan ambiciosos, este artículo aplicará un
análisis del fútbol desde una perspectiva de Relaciones Internacional. En este
sentido, se identican tres premisas básicas para el análisis del fútbol: 1. El interés
nacional en el deporte es ganar títulos. 2. El interés nacional no es tan relevante
como la habilidad y capacidad del estado para ganar. 3. Más recursos e inver-
siones pueden garantizar un mejor rendimiento, pero no necesariamente ganar
títulos. En conclusión, aunque el fútbol en China está teniendo un desarrollo
considerable a lo largo de esta década, si tenemos en cuenta que la conversión de
recursos en títulos no es la misma para todos los países, China podría enfrentarse
a una paradoja de poder, siendo incapaz de aprovechar sus extraordinarias capaci-
dades. para conseguir títulos y convertirse en una potencia futbolística mundial.
Palabras clave: China. Fútbol. política deportiva. Relaciones Internacionales.
Copa Mundial FIFA.
Introduction
Since Xi Jinping took oce as General Secretary of the Chinese
Communist Party (CCP) in 2012, the revitalisation of football has become
a key strategic goal for China. In this regard, the Medium and Long-Term
Development Plan of Chinese Football (2016-2050) expects to place China
among the Asian top teams by 2030, qualifying regularly for the World
Cup; and in long-term, becoming a leading football power, hoping to win
the World Cup by 2050. It seems that football in China follows the po-
litical and economic purpose of the state, since it is a mean to develop
the sports industry and a strategic element of Chinese public diplomacy2
, being part of the Belt and Road Initiative in order to promote exchange
of knowledge and strengthen the Chinese leadership globally (LEITE JU-
NIOR; RODRIGUES, 2020, p. 77-79).
We can understand the political motivation of China considering
that football is a great cultural institution that ‘shapes and cements na-
tional identities throughout the world’ (GIULIANOTTI, 1999, p. 23), and
that ‘more than being merely reective of nationalism or place-based
identities, sports and stadiums are themselves drawn upon to construct
ideas about place and nation’ (SHOBE, 2008, p. 329).
2. According to Gregory (2011), public
diplomacy is ‘an instrument used by
states, associations of states, and
some sub-state and non-state actors
to understand cultures, attitudes
and behaviour; to build and manage
relationships; and to influence thoughts
and mobilise actions to advance their
interests and values’ (p. 343).
9
Carlos Pulleiro Méndez Relações Internacionais e futebol: limites e possibilidades para que China
se converta em uma potência global de futebol em 2050
However, for Jedlicka (2017) there is still a need to develop a sys-
tematic, progressive approach to sport from International Relations (IR),
using concepts and theoretical perspectives from this discipline to under-
stand better the place of sport in the international political and economic
system. In this sense, IR theory involves several research programmes
–realism, constructivism, liberalism, etc.-, that conceive international is-
sues from radically dierent viewpoints. Following a realist perspective
of IR, one of the dominant schools of thought of this discipline, the state
is conceived as the main actor in international politics under an anar-
chic international system. As a result, states compete primarily for power
and security, implying that international regimes and institutions are just
means for achieving individual state goals.
From this perspective, governments conceive sports competitions
as a way to project their international status, making visible their polit-
ical and economic achievements to a global public or as a scenario for
high-level diplomacy (GRIX; BRANNAGAN, 2016; GRIX et al., 2015).
These political goals contribute to develop a sporting arms race or a sur-
rogate war (DE BOSSCHER et al., 2015; D’AGATI, 2018) between coun-
tries to win more titles and medals than their rivals.
However, to succeed we need to understand rst that football com-
petitiveness ‘is conditioned by the world system and reproduces its dy-
namics’ (MORALES RUVALCABA; ZHANG, 2018, p. 27). In the end, the
state location at the international system tells us not only the resources
that these countries have, but also their dierent approaches and inter-
ests on sport (PULLEIRO, 2020, p. 5-8). Moreover, the conversion of foot-
balls resources into titles is not the same for every country. For example,
the English Premier League is considered the best national league of the
world, but England does not reach a nal of the FIFA World Cup or UEFA
European Championship (also called UEFA Euro) since 1966; and along
this decade, Manchester City and PSG have failed in their attempt to win
the Champions League even with an investment of more than a billion of
euros in transfer fees.
Accordingly, the goal of this paper is to understand the state be-
haviour in football from IR theory, in order to know the limits and
possibilities for China to become a global football power by 2050. The
starting point are three premises adapted from the neoclassical realist
theory of IR, considering that both in international politics and sport
the State is conceived as a central actor, and unlike neorealism, where
the international power structure is the main element to determine
the state behaviour (WALTZ, 1979); neoclassical realism explains ‘for-
eign policy decisions and particular historical events by supplement-
ing “third image” insights about international structure and its con-
sequences with rst and second-image variables’ (SCHWELLER, 2014,
p. 7). Consequently, the three premises are: 1. The national interest of
every country in sport is winning titles. 2. The national interest is not as
relevant as the state’s ability and capacity to win. 3. More resources and
investments may guarantee a better performance, but not necessarily
winning titles. Consequently, the working hypothesis for the analysis
of football would be the following:
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 7-24
Premise 1 Premise 2 Premise 3
Political will + Financial, human and material resources + Good extractive capacity = Performance ≠ Winning Titles
Materials and method
Table 1 shows the theoretical-methodological approach to the anal-
ysis of football. The development and performance of Chinese football
is compared with the so-called big-5: England, Spain, Germany, Italy and
France; since these European countries are the main reference of inter-
national football at human –nº of players, coaches, clubs, teams and ref-
erees-, material –stadiums and training facilities-, nancial –revenues,
wages and transfer fees among clubs and leagues- and prestige resources
international titles and rankings-.
TABLE 1 – Theoretical-methodological approach to football from International Rela-
tions
IR approach to football Chinese football analysis Materials
1º Premise
Sports statehood:
The State is the main political actor in
sport due to national representation in
sports competitions.
National interest = winning international
titles.
Chinese national interest in sport and the
role of football:
One-China policy.
The Olympic Dream and Juguo tizhi.
Xi Jinping’s three wishes for Chinese
football. Literature review.
Chinese policy documents.
Data obtained from reports and websites
of:
Football federations and professional
leagues.
Deloitte, IFFHS, CIES Football Observatory,
EU SME Centre, Forbes, Transfermarkt.
2º Premise
Sports competitiveness determined by:
Distribution of power at international level.
National sports policy.
Extractive capacity.
Financial, human and material resources of
Chinese football.
Football governance model with Chinese
characteristics.
Collaboration agreements with foreign
football powers.
3º Premise
Better performance ≠ winning titles:
Continental organisation of international
football.
Limits to the conversion of potential power
into real power.
Unpredictability of winning.
Performance of Chinese clubs, CSL and
Chinese national teams in:
AFC and FIFA competitions.
IFFHS and FIFA rankings.
Note: Own elaboration table
Apart from the literature review, with more than 50 journal arti-
cles, books and book chapters collected about the Chinese football devel-
opment, we have reviewed policy documents of Chinese football, high-
lighting especially two of the four comprehensive reform programmes
released between 2014 and 2016: the Overall Chinese Football Reform
and Development Programme of 2015; and the 2016 Medium and Long-
Term Development Plan of Chinese Football (2016-2050) –hereafter, Na-
tional Football Plan-.
In terms of data, we have collected the latest information available
about the number players, coaches, clubs, teams, football pitches and ref-
erees, from ocial reports and websites of football federations and pro-
fessional leagues. This is complemented with several reports covering the
socio-economic aspects of international football –migration, attendance
to stadiums, audiences, total revenues of leagues, etc.-, made by Deloitte,
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Carlos Pulleiro Méndez Relações Internacionais e futebol: limites e possibilidades para que China
se converta em uma potência global de futebol em 2050
International Federation of Football History & Statistics (IFFHS), CIES
Football Observatory, Forbes, or Transfermarkt.
In terms of structure, this article has two main sections. The rst
one develops the theoretical-methodological approach to football from
IR, explaining how the international system and its dynamics congure
and helps to explain the state behaviour in football. The second section
studies the current situation of Chinese football and the diculties ob-
served to become a global football power by 2050, following the theoreti-
cal-methodological approach developed in the previous section.
International Relations and football: The state behaviour in sport from a
realist perspective of IR
Premise 1: The national interest of every country in sport is winning titles
The most basic and fundamental connection between football and
IR is the statehood of the international sports system, meaning that In-
ternational Federations (IFs) and the International Olympic Committee
(IOC) dene the concept of country or nation since the 90s as a State that
has an already accepted international recognition. This does not mean
that international organisations like European Union (EU), United Na-
tions (UN) or NGOs have their own sports agenda (MURRAY, 2018), but
as the state is the only one with direct representation in the sports system
through their National Federations (NFs) and National Olympic Com-
mittees (NOCs), it is conceived as the main political actor from an IR
perspective (PULLEIRO, 2020, p. 4-5).
Therefore, trying to delimit the national interest in sport, under-
stood here as an analytical tool to explain the state behaviour, the sport-
ing values and Olympism stress that winning is not as important as tak-
ing part in the competition and ghting well. However, since sports com-
petitions are zero-sum games and national symbolism is present through
ags, anthems or national crests, the international prestige, status and
competitiveness of countries is at stake (PULLEIRO, 2020, p. 5-8). In sim-
ple terms, winning in football and sport in general matters for the de-
velopment and strengthen of national identity, for the promotion of con-
cepts like solidarity or hard work among society and to the maintenance
of governmental legitimacy and status at national and international level
(HOULIHAN, 1991; RIORDAN, 1993).
Consequently, every country –from fans and players to clubs, feder-
ations and governments- wants to win at any cost, and although winning
was important since practically the beginning of the international sports
institutionalisation, this political vision of sport became the most relevant
element during the Cold War. In the end, winning sports competitions
under the bipolar order implied a display of superiority for the respective
capitalist or communist bloc. Therefore, the traditional conception of
sport as something that was exclusively part of the private sphere, reject-
ing public funding and state intervention, was progressively abandoned
(GREEN; OAKLEY, 2001).
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 7-24
Since then, sports statehood, winning titles and national pride are
so intertwined that for so many people winning in sport means either
local or national success (SHOBE, 2008, p. 331). The players also realise
the duty of responsibility that they have with their local communities
and their countries as ‘people expect you to win, and this hurts more than
the physical punishment’ (UNDERWOOD, 1964). Accordingly, the iden-
tication of players as representatives of their countries ghting for the
sporting glory, increases the public interest, being a key element of the
Tv sport system by which the sports organisations, television channels,
advertising companies and consumers enjoy from a benecial business
relationship (LOBMEYER; WEIDINGER, 1992, p. 313).
Besides, for Kissoudi ‘history shows that governments have used
international sports events, especially the Olympic Games, to pursue
their own interests rather than understanding, friendship, and peace
(2008, p. 1692); which would explain the political motivation of the sport-
ing arms race, even when the logic of public investments in elite sport has
been questioned by several studies along the last decade (GRIX; CARMI-
CHAEL, 2012; DE RYCKE; DE BOSSCHER, 2019).
Premise 2: The national interest is not as relevant as the state’s ability
and capacity to win
Daniel Morales and Alberto Rocha highlight a key element of the
state behaviour in international politics and in sport, explaining that
not only the national interest matters, since the ability of states to de-
fend their interests at any given moment is also relevant (2010, p. 254).
In other words, state power determines the limits and possibilities of a
given policy.
According to the Mexican scholars, power in IR is a three-dimen-
sional phenomenon, distinguishing among material, semi-material and
immaterial capacities, which feed one another; a dynamic phenomenon,
as states’ power is not static; and relative, as it depends on other states’
power (ROCHA; MORALES RUVALCABA, 2018).
In this regard, the hierarchy of the international system is deter-
mined by a state relation in terms of centre-periphery, with core-like pro-
duction processes and peripheral production processes (WALLERSTEIN,
2004). The G7 –United States, Germany, Japan, France, United Kingdom,
Italy and Canada- are the great powers3 that conforms a directory of the
international governance, since they have enough power to act autono-
mously, impose their policies on other countries and lead the global econ-
omy (MORALES RUVALCABA, 2019, p. 144-145).
On the other hand, the semi-peripheral states, conformed by re-
gional powers4, secondary regional states and subregional powers, would
be an intermediate category, being inuenced and determined by core
and peripheral processes. Their state apparatus is in a process of moderni-
sation, but they still contain deeply discordant forces and social dynamics
because their economies are still in a process of industrialisation, with
high socio-economic inequality and strong disparity in their internal re-
gions (MORALES RUVALCABA, 2020).
3. In addition to the great powers, core
states include also the category of
middle powers and semi-core states
(MORALES RUVALCABA, 2019).
4. According to Morales (2020), China,
India, Russia, Brazil, Saudi Arabia,
Mexico, Turkey, Indonesia, Poland,
Argentina and South Africa belong to
this state category.
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Carlos Pulleiro Méndez Relações Internacionais e futebol: limites e possibilidades para que China
se converta em uma potência global de futebol em 2050
However, to understand in a comprehensive manner the foreign
policy of countries we need to introduce in the analysis cognitive and
domestic variables: the ruling elites perceptions of systemic pressures or
threats, and bureaucratic structures or dierent types of governments
and governance (ROSE, 1998), because ‘complex domestic political pro-
cesses act as transmission belts that channel, mediate, and (re)direct pol-
icy outputs in response to external forces’ (SCHWELLER, 2004, p. 164).
Accordingly, since sport becomes one of the means to realise the
foreign policy of states (MURRAY, 2012, p. 581), ‘the distribution of power
and international hierarchy are conditioning factors to the governments,
who will decide the behaviour and goals of countries in both internation-
al politics and sports competitions’ (PULLEIRO, 2020, p. 7), which basi-
cally means that countries are not just automatons that react similarly
to the same systemic pressures, as can be seen in the case of small states.
In the end, material and semi-material capacities –population, in-
frastructures, territory and natural resources, healthcare and education
systems, etc.- would be the basis on which countries develop their sport-
ing competitiveness in order to win titles that would guarantee prestige,
fame, status and leadership –immaterial capacities-. However, the ex-
tractive capacity, namely, how the NFs, leagues and clubs manage and
organise the sports resources, would explain how countries with similar
number of players, managers, stadiums or investments may not be equal-
ly competitive (PULLEIRO, 2020, p. 6-7).
Applied to football, a good extractive capacity helps us to under-
stand how a country like Iceland can reach the quarter-nals of the 2016
UEFA Euro and the group stage of the 2018 FIFA World Cup with only
179 full size pitches in the country, 115 aliated clubs and 18.500 regis-
tered male players; and on the other hand, how Netherlands could not
entered the group stage of those competitions having more than 75 stadi-
ums with capacity for at least 3,000 people, more than 3,300 clubs, 1 mil-
lion of registered male players and the revenues of the Eredivisie reaching
almost €500 million (KSI, 2018; BARNARD et al., 2019).
Premise 3: More resources and investments guarantee a better perfor-
mance, but not necessarily winning titles
As we mentioned before, power in sport and IR is relational since
the gains of some countries means the losses of others. This means that
due to the number of matches and competitions, the sporting authorities
of each country can monitor and evaluate the performance of their teams
and clubs, meaning that a country can reverse a downward trend if it
has the appropriate resources, a good extractive capacity and the political
will to do it. In other words, the competitiveness, technication and de-
termination to win is such that changing the status quo of a consolidated
sport is not an easy task.
Here we need to consider rst the continental organisation of foot-
ball. Except for FIFA tournaments, which are a minority, for clubs and
national teams international football happens mainly among the tourna-
ments organised by continental confederations: UEFA (Europe), CONME-
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 7-24
BOL (South America), CONCACAF (North America), CAF (Africa), AFC
(Asia) and OFC (Oceania). This means that externally, the competitiveness
of a country is conditioned and limited mainly by its most immediate op-
ponents, making very stable the international power structure of football.
In this sense, acknowledging that since its origins, this sport has
been a matter of European and South American countries; if we trace a
centre-periphery logic in football, in the last decades, its centre of power
has displaced to a few Western European countries, instead of includ-
ing more contenders from other continents. The dierent rankings and
reports about national teams or the economic and competitive perfor-
mance of players, clubs and national leagues, reveal that UEFA coun-
tries, especially the big-5, have the best and most successful players, clubs
and national teams of the world (BARNARD et al., 2019; IFFHS, 2020;
TRANSFERMARKT, 2020; FIFA, 2020; OZANIAN, 2019).
The 71% –10 out of 14 countries- of the FIFA World Cup semi-nal-
ists in the XXI century are from Europe; with Brazil and Argentina being
nalists only once, in 2002 and 2014 respectively, being Brazil the only
non-European country that became champion.
In terms of clubs, the same process is happening. Historically, Eu-
rope and South America are not so far if we consider the Intercontinental
Cup and FIFA Club World Cup since 1960: 33 titles won by European clubs
(56%) and 26 by South Americans (44%). Nevertheless, in the XXI century 8
out of 12 clubs (66%) that have become world champions are from Europe.
Therefore, Western European domestic competitions are the most
prestigious ones, as it happens with the UEFA Champions League at in-
ternational level. Accordingly, although South American players are still
considered among the best, since they play mostly for European clubs,
especially after the Bosman ruling of 1995 (RAVENEL et al., 2017; CIES
FOOTBALL OBSERVATORY, 2020); South American domestic and in-
ternational tournaments like Copa Libertadores can no longer be com-
pared to the competitiveness and economic impact of European ones.
However, a unique characteristic of sport is that we cannot antic-
ipate a result until the match or the competition is nished. We already
mentioned the cases of England, PSG and Manchester City; and in ad-
dition, we have Maracanazo, Centenariazo, Greece winning the UEFA
Euro 2004 or Leicester FC becoming the champion of the 2015/16 Pre-
mier League, that are good examples of underdogs winning against all
odds. Accordingly, we should consider the unpredictability of winning
in football, no matter if we refer to long seasons or short tournaments,
national teams or clubs.
In summary, the conversion of the potential power into real power
in football is not the same for every country, which might lead to a para-
dox of power, explained generally in IR with the case of the Vietnam War
and how United States was incapable to take advantage of its extraordi-
nary military and economic capacities (SODUPE, 2002, p. 91). Therefore,
the last premise considers that making substantial economic investments
in order to have the best facilities or the biggest pool of talent will increase
the performance of a country; but this does not necessarily mean winning
international tournaments automatically, or even reaching tonals.
15
Carlos Pulleiro Méndez Relações Internacionais e futebol: limites e possibilidades para que China
se converta em uma potência global de futebol em 2050
Chinese football development: diculties for China to become a global
football power by 2050
Following the three premises of the previous section, the focus of
the analysis for Chinese football is, rstly, on the role of football within
the Chinese sports policy. Secondly, how China is increasing the nan-
cial, material and human resources of football, and is trying to improve
its extractive capacity. Finally, how the Chinese national teams and clubs
have performed internationally along this decade.
The Chinese political will: From the Olympic dream to the three wishes
for Chinese football
In competitive terms, for the CCP winning was important practi-
cally since the beginning, but the development of Chinese sport was ini-
tially determined mainly by China’s confrontation with Chinese Taipei,
and secondly, by its location in the international system. In this regard,
the rejection of the IOC and IFs to follow the One-China policy of Bei-
jing, implied the withdrawal of China from the Olympic Movement and
every IF that recognised the national federations of Chinese Taipei –FIFA
included- in 1958. Only after the correlation of power was favourable to
China in the 70s, Beijing was able to impose its political demands into the
international sports institutions (AUTHOR, 2020, p. 9-10).
Since the 80s, Chinese authorities followed the political logic
of the Cold War, and the Olympics became China’s primary target in
terms of giving back ‘pride, condence and hope to the nation’ (HONG;
ZHOUXIANG, 2012, p. 74-75). Consequently, thanks to the political and
socio-economic development of China and the establishment of Juguo
tizhi, a sports policy characterised by the governmental economic sup-
port to elite sport –especially prioritising Olympic sports- (HONG, 2008,
p. 36-44); in less than two decades China went from being a secondary
sports power, failing to reach the top ten countries in Seoul 88, to rank
rst in the 2008 Beijing Summer Olympics.
Accordingly, with China focused on obtaining gold medals instead
of scoring goals, it is not strange that football was underdeveloped in the
background. Nevertheless, this does not mean that there was not any
plan to raise the competitiveness of football. In the 50s, Chinese author-
ities considered that a strong performance in football ‘would announce
to the world that the march to modernity had begun, that Communist
China and its people could match the world in play, as well as power and
prosperity’ (JINXIA; MANGAN, 2001, p. 81). However, the eects of the
Great Leap Forward and the Cultural Revolution implied the disruption
of sports training, a shutdown of sports schools and a deterioration of
sports facilities, which meant severe limitations for the development of
football (JINXIA; MANGAN, 2001, p. 79-83).
After China came back to the AFC in 1974 and FIFA in 1979, the next
two decades displayed a frustration with football throughout the Chinese
society. In a situation where China was improving its sports performance
at practically all levels, the continuous failure of mens football, incapable
16
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 7-24
of reaching the group stage of the World Cup and the Olympics, implied
national despair, anger, criticism, and sometimes even public disorder, as
it happened after an embarrassing loss against Hong Kong in 1985. Sev-
en years later, it was published the rst of the Ten-Year Plan for China’s
Football (1993-2002) that established unrealistic goals: the national team
should not only had to qualify for all the editions of the World Cup and
the Summer Olympics, but also to reach the quarter-nals of the 2000
Olympic Games and being among the top four teams in the 2002 World
Cup (JINXIA; MANGAN, 2001, p. 88-91; PENG et al., 2019, p. 8-9).
In the XXI century, especially since the Beijing Olympics, sport has
been reinforced as a key element of Chinese public diplomacy, particularly
through the organisation of more sports mega-events. It is a way to show
that China ‘has earned its rightful place among the leading powers as a na-
tion of culture, sport and entertainment’ (MÜLLER; STEYAERT, 2013, p.
141), but ‘old, stereotypical perceptions of a red, antique and communist state
are proving hard to shift’ (MURRAY, 2018, p. 66-67, 115). In this sense, the
balance of the second Ten-Year Plan (2003-2012) made it clear that ‘there was
something wrong with the way football was governed, at all levels’, due to
the corruption, illegal gambling and match-xing (PENG et al., 2019, p. 9-11).
Besides, the constant failure of Chinese football to deliver results in
line with other sports and with the new international status of the coun-
try is inacceptable for Chinese authorities, and especially for Xi Jinping,
who explained that the resolution of China after the success of the Beijing
Olympics was to improve also the level of football. In 2011, Xi Jinping ex-
pressed for the rst time his three wishes for Chinese football: to qualify,
host and win the FIFA World Cup, which would lead in 2013 to announce
the new football development strategy for the next decades, implemented
through four comprehensive reform programmes released between 2014
and 2016 (NDOĞAN; SONNTAG, 2018; SULLIVAN et al., 2019).
The guidance and leadership of Xi Jinping and the CCP in this pol-
icy renewal is very clear when it is stated at the beginning of the Overall
Chinese Football Reform plan of 2015 that ‘comrade Xi Jinping [] has
placed the rejuvenation of football as an important task for the develop-
ment of sports and the construction of a powerful sports nation on the
agenda’ (STATE COUNCIL OF THE PRC, 2015), being the rst time that
football was at the core of the sports policy in China.
The National Football Plan is less ambitious in the short-term (2016-
2020) than previous plans, since its main goal is strengthened grassroots
football and building the foundation of Chinese football. The medium-term
goal (2021–2030) is to become one of the worlds powerful football nations,
ranking the mens national football team among the top teams in Asia and
womens national team among the top teams in the world. Finally, the Long-
term goal (2031–2050) aims to achieve a comprehensive development of Chi-
nese football, and therefore, being one of the worlds leading football powers
(NATIONAL DEVELOPMENT AND REFORM COMMISSION, 2016).
In conclusion, on a rst level of analysis, we have seen how China
has always had a political motivation to win in football, but this sport
was not the main priority of Chinese sports policy until the arrival of Xi
Jinping to the presidency.
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Carlos Pulleiro Méndez Relações Internacionais e futebol: limites e possibilidades para que China
se converta em uma potência global de futebol em 2050
The development of Chinese football: Investments, resources and knowl-
edge to improve the extractive capacity
As it is stated in the second premise, not only the national interest
matters, since the ability of states to defend their interests at any given
moment is also relevant. In a broad sense, as a regional power China
belongs to the high semi-periphery, hoping to rise its status ‘as a pro-
ducer, as an accumulator of capital, and as a military force’ (MORALES
RUVALCABA, 2020, p. 32-36; WALLERSTEIN, 2004, p. 56-57); but at the
same time, as we mentioned before, China wants to prove that is one of
the leading nations in terms of culture, sport and entertainment. That
is why, in the context of football, the basis of the Chinese strategy is to
to meet the new expectations of the people, to improve the image of
Chinese sports and to realise the dream of becoming a powerful sports
nation’ (STATE COUNCIL OF THE PRC, 2015). Consequently, once that
football is at the core of the sports policy, with specic goals at short, me-
dium and long-term driving the development of football in the country,
it seems that to succeed, China just needs to improve the quantity and
quality of its football through a better extractive capacity.
In this sense, previous football plans failed miserably since they
lacked clarity, it emerged a tension between political, sporting and com-
mercial interests among stakeholders; there was a lack of success at grass-
roots, elite and professional levels; and corruption, illegal gambling and
match-xing persisted along time (JINXIA; MANGAN, 2001, p. 88-91;
PENG et al., 2019, p. 9-11). Therefore, the challenge still is to integrate
the advantages of Juguo tizhi with the market economy, ‘the ght against
corruption and expand the government regulation across the sport sector
through institutional reform’ (PENG et al., 2019, p. 11-13; HU; HENRY,
2017; CHEN; ZHENG, 2016).
On this point, the Reform Plan of 2015 constrained the governmen-
tal control since the CFA was decoupled from the General Administra-
tion of Sport of China (GAISC), the governmental body that predomi-
nantly manage the elite sport in the country (PENG et al., 2019, p. 11-12;
HU; HENRY, 2017, p. 2-4). In 2017, twelve more policy documents were
published. In two of them, the Ministry of Education (MOE) focused on
youth and campus football, while the CFA focused on improve the man-
agement of the CSL (YU et al., 2019, p. 718-719). However, the complexity
for the mobilisation and deployment of this institutional reform is signi-
cant, since it involves the action and collaboration of more than 30 public
institutions from all administrative levels (SULLIVAN et al., 2019, p. 8).
On the other hand, the determination to have a football governance
model ‘with Chinese characteristics’ (NDOĞAN; SONNTAG, 2018, p.
109-11) can be seen in the connection between grassroots and professional
football. Alternatively, in China, the project of cultivating young football
talents has been traditionally attached to the school education (EU SME
CENTRE, 2019, p. 12-16). A situation that is going to be reinforced under
the era of reforms of Xi Jinping, considering that school football has a signif-
icant role in the consumption of sports products. In 2013, the investment in
school football increased from 40 million to 56 million Yuan per year, and
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 7-24
the Reform Plan of 2015 highlighted the educational function of football and
the necessity to popularise it in educative centres in order to accelerate the
co-progress of football skills, to build a strong foundation of young football
talents and to expand the number of professional football teachers (LI, 2018).
In this regard, in 2019 there was 27 million of students that attended
football classes and participated in football training and competitions in
27,000 schools. Besides, ‘40,000 football elds have been built or renovated
in the past ve years with 20,000 more to follow by the end of the 13th
Five-Year Plan (2016-2020)’ (XINHUANET, 2019a; ZHANG, 2020, p. 15).
Accordingly, Chinese football development is being successful according
to the short-term goals of the 2016 National Football Plan. For the medi-
um-term goals, the idea is to have 1 pitch x 10,000 people, having a more
dynamic management of football at all levels –social, campus and profes-
sional football- and becoming football into an important engine of the
sports industry (NATIONAL DEVELOPMENT AND REFORM COM-
MISSION, 2016). For this ambitious development, the national funding
for the period 2016-2018 was about 680 million Yuan, while provincial and
district funding reached to over 20 billion Yuan (DELOITTE, 2019, p. 9).
Actually, in a few years, we can see already some progress, leaving
behind the idea of a weak development of Chinese football in comparison
with the European big-5 in several fundamental aspects –Table 2-.
TABLE 2 – Comparison of number of players, coaches, clubs, teams and referees
between China and the big-5
GERMANY FRANCE ENGLAND ITALY SPAIN CHINA
Players 7,131,936
(2019)
1,933,680
(2020)
1,836,072
(2015)
1,057,690
(2019)
844,284
(2019) 1,000,000 (2020)
Coaches 60,498
(2016)
35,723
(2020)
90,103
(2016)
26,662
(2019)
26,061
(2019)
70,000
(2019)
Clubs 24,544
(2019)
15,000
(2020)
13,000
(2015)
12,449
(2019)
9,579
(2019) -
Teams 149,735
(2019) -119,000
(2015)
66,492
(2019)
61,716
(2019)
21,736
(2019)
Referees 57,420
(2019)
21,672
(2020)
25,988
(2015)
31,812
(2019)
15,000
(2017)
30,000
(2020)
Note: Own elaboration table. Data obtained from different reports published in the
respective webpages of UEFA and football federations of China, England, Spain,
Germany, France and Italy.
Despite these growing gures, China still needs more of everything
considering the ambitious planning for this decade. The president of the
CFA explained that for 2025 China would need more than 100,000 coach-
es, as it is planned to have 50,000 specialised football schools for that year
(SHIYAO, 2019). Consequently, technication is increasingly important,
and currently, many collaboration agreements are signed annually with
foreign countries to raise the skill level of Chinese players, coaches, refer-
ees, administrators, etc. (TAN et al., 2016, p. 1454; ZHANG, 2020, p. 15-16).
On the past, these agreements would just serve the interests of
foreign powers in terms of promoting their leagues, clubs, players and
associated brands in China through the selling of broadcasting rights or
19
Carlos Pulleiro Méndez Relações Internacionais e futebol: limites e possibilidades para que China
se converta em uma potência global de futebol em 2050
summer tours. However, as it happens in other economic areas, modern
China can decide what are the needs and priorities of its football in order
to improve it. In this regard, we need to highlight how the Chinese gov-
ernment is involved in the process, becoming football part of the Chinese
diplomacy in bilateral meetings with other Heads of State, creating an
ideal climate to endorse agreements between chinese and foreign foot-
ball stakeholders (LEITE JUNIOR; RODRIGUES, 2020, p. 73-77).
Accordingly, these international agreements not only function to
develop the grassroots and the commercial activity of Chinese football,
but also to improve its managerial and logistical knowledge, covering all
the key stakeholders of Chinese football: MOE, CFA, CSL, professional
clubs and football schools. Therefore, China is learning from the best
football powers in key areas – only with the big-5 there are more than 30
collaboration agreements signed with football federations, professional
leagues and clubs-, to become in the best Asian country in a near future,
and to break the structural hegemony of Europe in the long-term.
External limitations to the performance of Chinese football: The
continentalization of football
Considering the political motivation, investments, resources and
the policy changes for the development of football in China, we can ex-
pect that the performance of the country at the international stage will
be better, following the goals established in the National Football Plan.
About the possibility of becoming one of the best Asian countries
by 2030, according to the IFFHS5, in this decade the CSL is having a re-
markable progress, being ranked among the Asian top four since 2016
Table 3- (IFFHS, 2020) thanks undoubtedly to the international perfor-
mance of Chinese clubs. Since 2015, at least 50% of Chinese clubs reach
the round of sixteen; and since 2017, it is usual to watch Shanghai SIPG
or Guangzhou Evergrande –the only Chinese club that won this compe-
tition in 2013 and 2015- among the semi-nalists.
TABLE 3 – CSL ranking among the best national leagues according to the IFFHS6
(2010-2019)
Top 1 Asian Top 1 China
League Points League Rank Points Rank (in Asia) Points
2010
Spain
1092 Japan 27º 516 84º (17º) 248
2011 1194
South Korea
18º 589 66º (8º) 298
2012 1283 15º 653 70º (10º) 289
2013 1155 23º 571,5 34º (4º) 430
2014 1259 24º 562,5 56º (6º) 340,5
2015 1262 22º 584,5 ≥ 41º (≥ 4º) -
2016 1277 18º 618,5 36º (3º) 411,5
2017 1155 28º 528,5 38º (4º) 403
2018 1256 19º 580 44º (3º) 400
2019 England 1287 30º 520,5 39º (4º) 428,5
Note: Own elaboration table
5. Since 2010, in the club world ranking
of the IFFHS there are between 62 and 72
UEFA clubs among the top 100, while the
AFC only has had between 2 and 7 clubs.
6. The IFFHS establish 4 levels to qualify
the national leagues, with different points
by match. Each year the ranking decides
the level of each league for the next year.
Currently, South Korea is the only Asian
national league that belongs to level 3.
National leagues of China, Japan, Saudi
Arabia and Iran belong to level 2.
20
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 7-24
In this regard, the football market in China is composed at least of
300 million people. However, in terms of the total revenue –€200 million
(¥1,593 billion)-, the CSL is still far behind in comparison with the €5,440
billion of the Premier League, the €3,168 billion of the Bundesliga or the
€3,073 billion of LaLiga (EU SME CENTRE, 2019, p. 2; BARNARD et
al., 2019, p. 9). Actually, it is not easy to nd a balance between the com-
mercial and political interest of the CSL, because in the end, the CCP
understands the CSL as a mean to serve the Chinese national team by
producing and developing local talent. Consequently, the promotion and
the economic performance of the league and its clubs relying on foreign
stars, has a secondary role (CHEN; ZHENG, 2016).
In fact, even though the quality of foreign talent in the league has
increased7, one of the limitations of the CSL still is that even oering
high salaries, the CSL and Asian football in general only get the best for-
eign players and coaches once that their facing a decline of their careers,
or directly, just before retirement. This is the case of coaches like Lippi,
Benitez or Pellegrini; and players like Fellaini, Hulk, Oscar or Tevez.
In this regard, Chinese authorities realised in 2016 the irrational and
extravagant expenditures on foreign players after CSL clubs spent USD 451.3
million on transfer fees, ‘almost 17 times that of 2013, and 344.4 per cent
more than the rest of AFC combined’ (FIFA, 2017). Accordingly, to guaran-
tee the transition of Chinese young players from grassroots to professional
football, and reduce the number of foreigners in the CSL, new regulations
like the adoption of several quota systems or salary caps have been approved
(YU et al., 2019, p. 721-723; CHEN; ZHENG, 2016; DELOITTE, 2019, p. 14).
TABLE 4 – Chinese national team in FIFA Men’s ranking (2010-2019)
Top 1 Asian Top 1 China
Country Points Country Rank Points Rank (in Asia) Points
2010
Spain
1887 Australia 26º 816 87º (6º) 389
2011 1564 Japan 19º 884 71º (5º) 457
2012 1606 22º 840 88º (6º) 410
2013 1507
Iran
33º 720 92º (10º) 376
2014 Germany 1725 51º 580 97º (9º) 336
2015 Belgium 1494 45º 653 84º (8º) 405
2016 Argentina 1634 29º 814 82º (8º) 427
2017 Germany 1602 32º 798 71º (6º) 498
2018 Belgium 1727 29º 1481 76º (7º) 1317
2019 1765 Japan 28º 1503 76º (9º) 1322
Note: Own elaboration table. The FIFA Council approved a new rating model in August
2018 (FIFA, 2020).
About the national team, as we can see in table 4, the progression is
slower. In FIFA men’s ranking, China has never been above 71º position
in this decade, ranked among the top ve Asian teams only in 2011. Ac-
tually, we can observe a stagnation of the Chinese performance in Asian
competitions, since China does not reach a nal since 2004, when it won
the Asian Cup, the AFC U-17 Championship and lost to South Korea at
7. Along this decade, the number of
CSL footballers who have played in the
World Cup has increased. (DELOITTE,
2019, p. 15).
21
Carlos Pulleiro Méndez Relações Internacionais e futebol: limites e possibilidades para que China
se converta em uma potência global de futebol em 2050
the AFC U-19 Youth Championship nal. In this decade, China never
passed quarternals in any of the AFC tournaments, being eliminated in
the Asian Cup by Australia in 2015, and by Iran in 2019.
Therefore, considering that the success of the national team is what
matters most for Chinese authorities, the main question still is if China will
be one of the football powers that can dispute the nal of a FIFA World Cup
in a few decades. According to the third premise, even if China becomes
the best Asian country by 2030, the issues attached to the continental or-
ganisation of football will be dicult to surpass in order to challenge Eu-
ropean or even South American football competitiveness in the long-term.
In this decade, the top ten of FIFA mens ranking has been exclu-
sively occupied by European and South American countries, except for
Egypt, ranked 9th in 2010. In addition, no Asian country has managed to
reach the quarternals of a World Cup since South Korea was a semi--
nalist in 2002, where it was the co-host with Japan.
The continentalization of football is not only a problem for China.
Australia realised that to progress in competitive and economic terms
they should be part of the AFC instead of the OFC, something that hap-
pened in 2006 (HALLINAN; HEENAN, 2013). In addition, a SWOT anal-
ysis of the Japanese Football Associations Medium-term Planning (2015-
2022) realised that a disadvantage for Japan to achieve the goal of being
among the top ten countries in the FIFA ranking by 2015, was precisely
the failure of Asian football (XIE et al., 2018).
In this sense, it seems that there is a problem in the transition from
grassroots to professional football, because Asian youth football has
demonstrated recently that can be relatively competitive. In the 2019 U-20
FIFA World Cup, South Korea lost the nal against Ukraine; Iraq was a
semi-nalist in 2013, and Japan, EAU and Uzbekistan has reached quar-
ternals in dierent editions along the XXI century; in the 2012 Olym-
pics, South Korea won the bronze medal against Japan; and in the U-17
World Cup, China, North and South Korea, Japan, Iran and Uzbekistan
managed to reach quarternals.
But even if China become a catalyst for the development of Asian
football, it is highly improbable that Asian domestic and international
competitions could become a global reference and replace the prestige
of European tournaments in the medium-term; making impossible to
recruit the best global talent in order to raise the level of local football
(CIES FOOTBALL OBSERVATORY, 2020). This might be balanced hav-
ing Chinese footballers playing in the best foreign professional leagues,
but currently, there are only nine Chinese players in professional clubs of
European countries: Serbia, Spain, Portugal, France and Romania (CIES
FOOTBALL OBSERVATORY, 2020). Besides, most of them are not yet
playing in the rst divisions or have a protagonist role in their clubs.
Conclusion
This paper has reviewed from a realist perspective of IR the dicul-
ties for China to become a football power and win the World Cup by 2050.
Based on our analysis, China is following the rst two premises explained
22
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 7-24
in this paper. In the end, it was the lack of acceptable results at international
level what motivated the deep reform process of Chinese football, and it is
the desire of becoming world champion what is driving the development
of the football industry, interfering even with the management of the CSL.
About the Chinese ability and capacity to win, we can highlight
that, for the rst time, football is at the core of the Chinese sports policy,
and that notable progress is being made to strengthen its material and hu-
man capacities. In addition, China is learning from foreign football pow-
ers, trying to optimise its extractive capacity but under a football gover-
nance model with Chinese characteristics, needing to wait a few more
years to evaluate properly the eectiveness of this governance model.
Accordingly, acknowledging China’s tremendous eorts to put its
internal development factors to the same level as European football pow-
ers, the main limitation to become a major contender at the FIFA World
Cup in the long-term relies on external competitiveness. Considering the
European hegemony at all levels in a context of continentalization of in-
ternational football, it will be dicult to raise the level of Asian football.
There are huge limitations to make AFC’s tournaments as prestigious
and competitive as the European ones at short and medium-term. Con-
sequently, even if China becomes the best Asian country after 2030, this
does not guarantee that China will be competitive enough to beat the
best European and South American national teams and clubs.
In this regard, we think that the globalisation trend in football with the
promotion of new tournaments like the FIFA Club World Cup, which will be
organised in its expanded format in China, will be positive to raise the com-
petitiveness of Chinese and Asian football. On this point, the COVID-19 pan-
demic might become a window of opportunity to reform the management
of international football, which would benet China. Specically, FIFA Pres-
ident, Gianni Infantino, suggested in March, after the COVID-19 outbreak, a
reform of world football with dierent formats (BURTON, 2020), where he
expressed his desire of having at least 50 clubs and national teams that could
win the World Cup, not just eight from Europe and two from South America.
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Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
A Nova Rota da Seda e o
dilema de Xinjiang
The New Silk Road and the Xinjiang dilemma
La Nueva Ruta de la Seda y el dilema de Xinjiang
Diego Pautasso1
Tiago Soares Nogara2
Ana Paula Bernardo de Sousa3
Gaio Doria4
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2021v9.n3.p25
Recebido em: 23 de setembro de 2020
Aprovado em: 30 de novembro de 2020
R
Para além da já reconhecida relevância da Nova Rota da Seda, ou Iniciativa do
Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative - BRI), para a estratégia de inserção
internacional da China, sua plena implementação também dialoga incisivamen-
te com a continuidade do processo de unicação e reorganização nacional do
país. Analisando as questões pertinentes à região de Xinjiang, o presente artigo
sustenta a noção de que a Nova Rota da Seda interage diretamente com o im-
perativo e os esforços securitários nacionais de estabilização das fronteiras e de
diluição das ameaças separatistas, ao promover a continentalização do desenvol-
vimento chinês. Além do mais, é possível argumentar que essa região representa
um enlace territorial do processo de integração eurasiática liderado pela China.
O artigo se divide em três partes: primeiro, apresentamos os principais vetores
da ascensão e implementação da Nova Rota da Seda; em seguida, abordamos
o histórico das tensões entre o processo de reconstrução nacional chinesa e os
movimentos separatistas de Xinjiang; por m, analisamos como a Nova Rota da
Seda interage com as estratégias de contenção aos movimentos separatistas e
terroristas da região.
Palavras-chave: Nova Rota da Seda - Iniciativa do Cinturão e Rota - China -
Xinjiang - ETIM.
A
In addition to the already recognized relevance of the New Silk Road, or Belt
and Road Initiative (BRI), for China’s international insertion strategy, its full
implementation also speaks incisively with the continuity of the country’s natio-
nal unication and reorganization process. Analyzing the issues relevant to the
Xinjiang region, this article supports the notion that the New Silk Road interacts
directly with the national security imperative and eorts to stabilize borders and
dilute separatist threats, promoting the continentalization of Chinese develop-
ment. In addition, it is possible to argue that this region represents a territorial
1. Doutor e mestre em Ciência Política
pela Universidade Federal do Rio Gran-
de do Sul (UFRGS). E-mail: dgpautasso@
gmail.com
2. Doutorando em Ciência Política
na Universidade de São Paulo (USP).
Mestre em Relações Internacionais pela
Universidade de Brasília (UnB). E-mail:
tiagosnogara@gmail.com
3. Especialista em Estratégia e Relações
Internacionais Contemporâneas pela
Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS). E-mail: anapaulabs@
feevale.br
4. Doutor em Direito pela Renmin
University of China. E-mail: gaiodoria@
gmail.com
26
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 25-42
link in the Eurasian integration process led by China. The article is divided
into three parts: in the rst, we present the main vectors of the emergence and
implementation of the New Silk Road; then, we examine the history of tensions
between the Chinese national reconstruction process and the separatist move-
ments in Xinjiang; nally, we analyze how the New Silk Road interacts with the
containment strategies of separatist and terrorist movements in the region.
Keywords: New Silk Road - Belt and Road Initiative - China - Xinjiang - ETIM.
R
Además de la relevancia ya reconocida de la Nueva Ruta de la Seda, o Iniciativa
de la Franja y la Ruta (BRI), para la estrategia de inserción internacional de Chi-
na, su implementación plena también habla de manera incisiva con la continui-
dad del proceso de unicación y reorganización nacional del país. Al analizar los
temas relevantes para la región de Xinjiang, este artículo apoya la noción de que
la Nueva Ruta de la Seda interactúa directamente con el imperativo de seguri-
dad nacional y los esfuerzos para estabilizar las fronteras y diluir las amenazas
separatistas, promoviendo la continentalización del desarrollo chino. Además,
es posible argumentar que esta región representa un vínculo territorial en el
proceso de integración euroasiático liderado por China. El artículo se divide en
tres partes: en la primera, presentamos los principales vectores del surgimiento
e implementación de la Nueva Ruta de la Seda; luego, examinamos la historia de
las tensiones entre el proceso de reconstrucción nacional chino y los movimien-
tos separatistas en Xinjiang; nalmente, analizamos cómo la Nueva Ruta de la
Seda interactúa con las estrategias de contención de los movimientos separatis-
tas y terroristas en la región.
Palabras clave: Nueva Ruta de la Seda - Iniciativa de la Franja y la Ruta - China -
Xinjiang - ETIM.
Introdução
Xi Jinping, líder da chamada quinta geração de lideranças chine-
sas, lançou, em 2013, o programa Silk Road Economic Belt And The Ma-
ritime Belt, também conhecido como Nova Rota da Seda ou Iniciativa
do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative - BRI). Tal iniciativa nasceu
para impulsionar projetos de construção de infraestrutura - transporte,
comunicação e energia -, voltada inicialmente para promover a inte-
gração da Eurásia e regiões adjacentes. Uma alusão às antigas rotas co-
merciais que ligavam a China ao restante da Ásia, à África à e Europa.
O objetivo anunciado era promover a conectividade dos três continen-
tes mencionados e seus mares adjacentes, contemplando o desenvolvi-
mento diversicado, independente, equilibrado e sustentável dos países
participantes (CHINA, 2015). Desde então, a iniciativa ganhou dimen-
sões cada vez mais globais e o discurso chinês tem enfatizado relações
win-win e o modelo de desenvolvimento harmonioso, caracterizado
como uma retórica alternativa ao processo de globalização neoliberal
(YIWEL, 2016).
Uma das dimensões cruciais da Nova Rota da Seda diz respeito às
questões securitárias de ordem potico-territorial, principalmente aque-
las vinculadas às províncias autônomas da China. A hipótese do presente
artigo é, portanto, de que a Nova Rota da Seda é chave para a estabili-
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Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
zação das fronteiras e de diluição ameaças separatistas (sobretudo Xin-
jiang, Tibete e Mongólia Interior), insuadas por forças estrangeiras, ao
promover a continentalização do desenvolvimento chinês e a integração
eurasiática. Mais do que isto, como diz Berlie (2020, p. 52), “Xinjiang é um
pivô da nova história da Ásia Central e, por meio dela, a Nova Rota da
Seda pode chegar a países distantes”.
Nesse sentido, analisamos o papel da Região Autônoma de Xinjiang
como um enlace territorial do processo de integração regional liderado
pela China. Essa região turcófona islamita apresenta intentos separatis-
tas, ilustrando a um só tempo um desao e uma oportunidade para a
integração territorial da China e de seu entorno centro-asiático. Na pri-
meira parte, apresentamos os principais vetores da ascensão e implemen-
tação da Nova Rota da Seda; em seguida, abordamos o histórico das ten-
sões entre o processo de reconstrão nacional chinesa e os movimentos
separatistas de Xinjiang; por m, analisamos como a Nova Rota da Seda
interage com as estratégias de contenção aos movimentos separatistas e
terroristas da região.
Uma visão panorâmica sobre a Nova Rota da Seda
O contato entre o Ocidente e Oriente é algo que perpassa os sécu-
los, e, por quase dois mil anos, árabes, chineses, persas, turcos e euro-
peus, dentre outros povos, puderam realizar trocas culturais e comer-
ciais através de uma enorme rede de estradas e interconexões. Desde o
século XVIII, as Rotas da Seda ligavam diferentes regiões da Eusia e
África à China Imperial, com intenso uxo de comerciantes, mercená-
rios e peregrinos; de culturas, etnias, religiões e conhecimentos; de ani-
mais e plantas para a produção rural, etc. Segundo Samir Amin (1996),
a Ásia foi considerada o centro dinâmico do mundo por milênios, e só
perdeu este posto quando os europeus, que até então viviam na peri-
feria deste sistema geopolítico, tiveram acesso a estes territórios por
meio das Grandes Navegações. Em diversos textos de grandes nomes
do pensamento europeu do século XIX sobre história, losoa, direito,
política, cultura; a Ásia foi apresentada como o centro de todas as na-
ções do mundo e o ponto de partida da história mundial. Conforme as
palavras do lósofo alemão Hegel (1999, p.93): “a história universal vai
do leste ao oeste, pois a Europa é o m da história universal, e a Ásia é
o seu começo..
Als, foi justamente a expansão européia sobre esse centro geopo-
lítico do Oriente que concretizou essa mudança de paradigma e levou ao
século de humilhações na China, da Primeira Guerra do Ópio, em 1839,
até a Revolução Chinesa, em 1949. À Revolução coube a ampla tarefa de
reconstrução nacional: integrar o país e recuperar territórios perdidos;
reorganizar o Estado e suas instituições; e retomar o desenvolvimento
nacional. Coube à política de Reformas de Abertura desencadeada nos
anos 1970 sob a liderança de Deng Xiaoping desencadear um novo ciclo
de desenvolvimento e integração territorial da China.
A aproximação sino-estadunidense na virada dos anos 1960-70,
conformou aquilo que Pinto (2011) de um eixo combinando a globaliza-
28
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 25-42
ção nanceira estimulada por Washington com o embrionário milagre
econômico chinês. Esse novo eixo sino-estadunidense de acumulação
se desenvolveu por meio de sinérgicas complementaridades comerciais
(ampliação da corrente de comércio), produtivas (articulação entre as
empresas estadunidenses e chinesas na cadeia global de produção) e -
nanceiras (reservas estrangeiras da China e títulos do Tesouro dos Es-
tados Unidos). Assim, a China não apenas se aproveitou da dimica de
acumulação da Ásia Oriental, como se converteu na ‘terceira onda’ de
desenvolvimento dessa região (PAUTASSO, 2009) - com particularidades
em relação à primeira, com epicentro no Japão, e à segunda, protagoni-
zada pela ascensão dos Tigres Asiáticos.
O acelerado processo de desenvolvimento, ampliado desde as re-
formas, deu maior complexidade à inserção internacional da China, o
que consequentemente demandou maior assertividade do país na arena
global. Mas, sem sombra de dúvidas, o projeto mais ambicioso foi a Nova
Rota da Seda, ou Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative
- BRI), lançada em 2013 pelo governo chinês. O mecanismo propulsor da
BRI é a construção de uma complexa rede de infraestrutura de transpor-
te, comunicação e energia em toda região, em grande medida replicando
o modelo gestado nas relações sino-africanas, de intercâmbio de obras
por acesso recursos naturais - contribuindo para a segurança energética
e alimentar da China.
Pode-se dizer que a Nova Rota da Seda encerra objetivos de curto,
médio e longo alcance para Pequim: primeiramente, trata-se de um pri-
vilegiado mecanismo de exportação de serviços de engenharia, dando
vasão à supercapacidade ociosa da economia chinesa, internacionalizan-
do empresas, fomentando o comércio regional e, consequentemente, a
demanda externa; em segundo lugar, impulsiona, dentre outras dimen-
sões, a integração eurasiática, impulsionando a recriação do sistema si-
nocêntrico; por m, rearma a ascensão da liderança chinesa, a partir
de um modelo de desenvolvimento e integração que representa o em-
brião de um projeto chinês de globalização - alternativo, por sua vez, à
globalização neoliberal irradiada desde Washington (PAUTASSO; UN-
GARETTI, 2017). Além do mais, promove a continentalização do de-
senvolvimento chinês, integrando e estabilizando regiões de minorias,
sobretudo Xinjiang, Tibete e Mongólia Interior.
Dessa forma, a BRI busca uma integração regional em moldes dis-
tintos. Ao invés de blocos econômicos com complexas amarras institu-
cionais ou arranjos multilaterais, a iniciativa chinesa busca a linha de
menor resistência. Ou seja, mobiliza sua capacidade em engenharia e
nanciamento, enquanto contribui para solucionar problemas infraes-
truturais de países periféricos. Como lembra Fallon (2015), a China re-
cupera uma tradição, a da realização de projetos com megaestruturas,
exemplicados pela Grande Muralha e o Grande Canal, ao passo que
recupera sua condição de Império do Meio na região com a recriação de
um novo sistema sinocêntrico.
29
Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
Figura 1 - A Nova Rota da Seda
Fonte: Mercator Institute for China Studies (2018).
Em seu 13º Plano Quinquenal5, de 2016, o governo chinês detalhou
os objetivos a serem atingidos pela BRI. Incluía aumentar o comércio e o in-
vestimento regional; melhorar os mecanismos de cooperação multilateral;
aprimorar a conectividade de infraestrutura; ampliar os uxos de pessoas
e capitais; impulsionar os mecanismos de cooperação nanceira para o de-
senvolvimento, como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura
e o Novo Banco de Desenvolvimento e o Fundo da Rota da Seda; trabalhar
para elevar Xinjiang à condição de região central do Cinturão Econômico
da Rota da Seda, e Fujian ao principal ponto de contato da Rota Marítima
da Seda; e promover cooperação nas áreas de educação, ciência, tecnologia,
cultura, esportes, turismo, proteção ambiental e assistência médica.
E para dar consequência e articulação política da Nova Rota da
Seda, o governo chinês estabeleceu um fórum bianual, inaugurado em
2017 e replicando bianualmente em 2019. Através do vetor infraestrutural,
a china busca impulsionar o comércio e os investimento com os outros
65 países, responsáveis por mais de 30% do PIB global, 62% da população
e 75% das reservas de energia conhecidas. Os dados ociais dão conta de
que o volume total de comércio entre a China e os países e regiões envol-
vidos na BRI excedeu US$ 6 trilhões de dólares entre 2013 e 20186.
A partir da ênfase da diplomacia chinesa no desenvolvimento com-
partilhado pela via do dlogo, a China assinou, até novembro de 2019,
5. Ver íntegra do documento, dis-
ponível em: https://en.ndrc.gov.
cn/policyrelease_8233/201612/
P020191101482242850325.pdf
6. Ver reportagem, disponível
em: https://www.beltandroad.
news/2019/04/20/belt-road-coun-
tries-trade-exceeds-6-trillion-from-
-2013-to-2018/
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 25-42
197 acordos de cooperação, com 137 países e 30 organizações internacio-
nais, incluindo mais de dez agências da Organização das Nações Unidas
(ONU) e a Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sus-
tentável. Nesse contexto, o governo chinês emitiu o Plano de Ação para
a Conectividade Padrão do Cinturão e Rota e assinou mais de 80 docu-
mentos-quadro de cooperação para padronização com cerca de 50 países
e regiões7. Também emitiu os Princípios Orientadores sobre o Financia-
mento do Desenvolvimento do Cinturão e Rota e a Sustentabilidade da
Dívida - uma das críticas recorrentes à iniciativa de Pequim.
Em suma, a Nova Rota da Seda precisa ser compreendida como
parte da reconstrão nacional chinesa e de sua projeção global de po-
der. Uma reconstrução que, depois de superados os percalços iniciais da
revolução e encaminhado o projeto de desenvolvimento nacional, recu-
pera tradições milenares. Internamente, deve-se observar a recuperação
do confucionismo, da relação simbiótica entre mercado e planejamento
e da capacidade de planejamento do aparelho estatal, característico do
mandarinato. Internacionalmente, a China busca reconstituir o sistema
sinocêntrico (PAUTASSO, 2011), recriando sua liderança sobre a Ásia. Se
a Nova Rota da Seda representa o algama dessas duas dimensões, Xin-
jiang é seu enlace territorial.
A reconstrução nacional chinesa e ascensão do separatismo em
Xinjiang
O ponto de partida é reconhecer que a China é um estado multiét-
nico desde a conformação de seu primeiro império, quando o nascente
Império Qin (221-206 a.C.) pôs m ao período dos Reinos Combatentes.
Historicamente, as autoridades centrais das dinastias adotavam uma po-
lítica de “governo por costume” para contemplar as minorias étnicas, ga-
rantindo a preservação de seus próprios sistemas sociais e culturais. Ape-
sar das sucessões disticas, crises e alterações das fronteiras imperiais, o
Império do Meio sempre exerceu esse efeito gravitacional sobre diversas
formações sociais e culturais. Como destaca Visentini (2011, p. 23), cava-
leiros mongóis, ociais manchus, sacerdotes tibetanos e comerciantes ui-
gures zeram parte das dinastias chinesas e, eventualmente, à frente do
Império. Aliás, de 1279 a 1378, a China foi governada por dinastia mongol
e de 1644 a 1911 por dinastia manchu - o que representaria, considerando
do declínio da Idade Média até as vésperas da I Guerra Mundial, 58% do
período (LOSURDO, 2012, p. 247). Ao invés de expansionismo han, o
que houve foram sucessões dinásticas, historicamente conturbadas, com
profundas alterações fronteiriças, cujo período do século de humilhações
levou a amputações territoriais provocados por invasões e agressões es-
trangeiras, incluindo Tibete, Xinjiang, Manchúria (inclusive com estado
fantoche japonês), além de perdas da Mongólia Exterior, Taiwan, Hong
Kong e Macau.
Como pode-se perceber, Xinjiang possui parte da população com
uma matriz étnica turca, proveniente da Ásia Central no século VII e isla-
mizada por volta do século X. A região experimentou um período de relati-
va independência e isolamento a partir da Guerra do Ópio (1839), se tornan-
7. Ver agência reportagem da Xinhua
“China signs 197 B&R cooperation
documents with 137 countries, 30
international organizations”, disponível
em: http://www.xinhuanet.com/english/
2019-11/15/c_138558369.htm
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Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
do província apenas em 1884 ao xar sua fronteira ocidental com a Rússia.
Com o colapso da Dinastia Qing e a pulverização de autoridades políticas
no território chinês, Xinjiang passou a ser dirigido por lideranças militares
autônomas, que transitaram entre alianças com a União Soviética, primei-
ramente, e com o Kuomintang, num segundo momento, até serem derro-
tadas pelos comunistas em setembro de 1949, na esteira dos acontecimentos
da revolução dirigida pelo Partido Comunista da China (PCCh).
Como a revolução teve caráter antifeudal e anti-imperialista, o im-
perativo imediato foi o da reconstrução nacional, incluindo a centraliza-
ção política e o controle da unidade territorial. Num primeiro momen-
to, a República Popular da China se autodenominou como um Estado
multinacional. À beira da fragmentação do território, o governo emitiu,
ainda em 1952, uma medida para concertação política, o Esboço para a
Implementação da Autonomia Regional das Minorias Étnicas. Em 1954,
o Congresso Nacional do Povo aprovou o sistema de autonomia regional
para as minorias étnicas na Constituição da República Popular da China.
Nesse contexto, foram estabelecidas as regiões autônomas, sendo a pri-
meira a da Mongólia Interior, ainda em 1947, seguida pela Região Autôno-
ma Uigur de Xinjiang (Xinjiang Uighur Autonomous Region - XUAR), em
1955, as de Guangxi e Ningxia, em 1958, e do Tibete, em 1965.
Apesar dessas medidas institucionais, a política do governo central
foi de perseguição aos eventuais focos de poder paralelo, incluindo de mi-
norias étnicas e religiosas, com a posterior Revolução Cultural agudizan-
do esta tendência (MILLWARD, 2007). Ademais, ruptura Sino-Soviética
fortaleceu o controle do governo chinês sobre a região, pois o isolamento
internacional recrudesceu as preocupações com as questões securitárias
nacionais, dados os laços consanguíneos entre os povos localizados na
fronteira e que atravessa a Ásia Central até a Turquia. Com o colapso da
União das Repúblicas Socialistas Sovticas (URSS), os grupos fundamen-
talistas islâmicos apoiados pelos Estados Unidos e o Paquistão para conter
os soviéticos no Afeganistão se expandiram pela Ásia Central.
A partir da década de 1990 foi criada uma série de organizações
políticas e não-governamentais alinhada às reivindicações separatistas
em Xinjiang. Dentre elas, destaca-se o East Turkistan Islamic Movement
(ETIM), formado em 1990 sob o patrocínio da CIA, e desde 2002 é classi-
cado ocialmente pela ONU como uma organização terrorista vincula-
da à Al Qaeda. Nesse sentido, o Ministério da Segurança da China tam-
bém classicou o East Turkistan Liberation Organization (ETLO), o East
Turkistan Information Center (ETIC) e o World Uygur Youth Congress
(WUYC) como terroristas. Junto da International Uyghur Human Rights
and Democracy Foundation e do World Uyghur Congress, o WUYC rece-
beu consideráveis patrocínios da US National Endowment of Democracy
(NED) – organização internacional originariamente nanciada pelo Con-
gresso dos Estados Unidos, e vinculada à Soros Foundation na promoção
de operações de desestabilização política desde a década de 1990, quando
atuaram conjuntamente nos eventos concernentes ao desmembramento
da Iugoslávia (BANDEIRA, 2014).
Als, o que ainda pauta boa parte das alises é um relatório inti-
tulado ‘O Projeto Xinjiang’ escrito pelo ex-ocial sênior da CIA Graham
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 25-42
E. Fuller em 1998 para a Rand Corporation e revisado em 2003 sob o títu-
lo The Xinjiang problem8. Noutro livro, intitulado Fire on the Water: Chi-
na, America, and the Future of the Pacic, tipicamente do establishment
político-militar, resta claro que guerras irregulares, não convencionais,
operações midiáticas, ações encobertas voltadas a gerar desordens, jogar
uma nacionalidade contra a outra, dividir e cooptar parte do aparelho
estatal, para “provocar instabilidade por exemplo no Tibete e Xinjiang
(HADDICK apud LOSURDO, 2018, p. 358).
A China não tardou em buscar respostas para tais dilemas. Assim,
ainda em 2000 foi lançada pelo presidente Jiang Zemin a campanha do
Desenvolvimento do Grande Oeste, visando estabelecer corredor comer-
cial e energético conectando a China aos vizinhos da Ásia Central (CLAR-
KE, 2016). Nesse mesmo sentido, a China foi impulsionou a criação em
2001 da Organização da Cooperação de Xangai (OCX) - junto à Rússia,
Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tadjiquistão -, tendo como um
de seus principais eixos o combate multilateral à proliferação de grupos
extremistas na Ásia Central. A organização nasceu com a prioridade de
combater os três males (separatismo, terrorismo e fundamentalismo), no
contexto da Guerra Global ao Terror (GGT) desencadeada por Washin-
gton - um tanto problemática dado que esta não poderia avançar sem
debelar o apoio de dois aliados do movimento jihadista, Arábia Saudita e
Paquistão (COCKBURN, 2015).
No entanto, questões geoestratégicas mais amplas impediram que
os Estados Unidos mantivessem uma postura de apoio ostensivo às mo-
vimentações separatistas de Xinjiang. Na esteira dos acontecimentos do
11 de setembro de 2001 e do apoio chinês à GGT, os Estados Unidos pas-
saram a ensejar esforços em prol da inclusão do ETIM na lista de grupos
terroristas reconhecidos pela ONU. As intervenções estadunidenses de-
correntes da GGT modicaram o panorama de atuação do ETIM, que
passou a enfrentar tropas paquistanesas e dos Estados Unidos, além das
chinesas, no conjunto de países da Ásia Central. O grupo - que entre 1990
e 2001 havia cometido mais de 200 atos de terrorismo, especialmente con-
tra civis e órgãos de Estado chineses - teve diversos integrantes captura-
dos e levados à Guantánamo, além de ter seu líder, Abu-Muhammad al
Turkestani, morto em 2003 (BANDEIRA, 2014).
Ainda assim, Anwar Yusuf Turani autoproclamou-se, em 2004,
chefe do governo do Turquestão Oriental - sediado em Washington, ain-
da que sem reconhecimento pelo governo estadunidense -, evidenciando
uma possível inexão no cenário dos enfrentamentos (BANDEIRA, 2014).
Essa inexão tomaria forma perante os avanços da estratégia de Pequim
de criar o Corredor Econômico China-Paquistão, integrando o porto de
Gwadar, no Paquistão, à região de Xinjiang. Este projeto representava,
para além de um arranjo de cooperação regional, um importante passo
para o sucesso da estratégia chinesa de superação de possíveis obstruções
de sua segurança energética.
Em 2009, um levante seria protagonizado em Urumqi, capital de
Xinjiang, deixando 197 mortes e mais de 1.700 feridos e evidenciando uma
nova etapa de internacionalização do conito. Segundo o Departamento
de Segurança Pública de Xinjiang, os métodos terroristas se tornaram
8. Ver detalhes acerca da formação do
ETIM, disponível em: https://21stcen-
turywire.com/2018/12/14/the-truth-
-behind-chinas-uyghur-problem/
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Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
cada vez mais violentos; em 1999, num esconderijo encontraram 5.000
granadas caseiras do grupo terrorista Kuresh, em 2006, 15.000 armas
contrabandeadas do exterior foram apreendidas9. Diversos foram os aten-
tados terroristas praticados por grupos ans às perspectivas separatistas
entre 1990 a 2020, matando um grande número de pessoas inocentes e
centenas de policiais. Além destes eventos ocorridos na capital de Xin-
jiang, Urumqi, em 2009, também ocorreram na Praça da Paz Celestial,
em 2013, e na estação de trem de Kunming, em 2014. Os documentários
Fighting terrorism in Xinjiang10, e A mão negra - ETIM e terrorismo em
Xinjiang11, produzidos pela CGTN, abordam com excelência tais ques-
tões. Als, milhares destes terroristas se vincularam ao Estado Islâmico
durante a guerra na Síria.
Segundo Fuller e Starr (2003, p. 46), os Estados Unidos têm preo-
cupações sobre a natureza do futuro papel da China no cenário inter-
nacional e por isso Washington exerce pressão sobre Pequim através
do através da Uyghur card e seu potencial desestabilizador. Trata-se de
uma política voltada ao desmembramento da China, excluindo, além de
Xinjiang, Mongólia Interior e Manchúria e Tibete - no último caso mo-
bilizando uma suposta bandeira da não-violência como elemento para
o Grande Jogo estadunidense na região (LOSURDO, 2012, p. 245-254).
Além do mais, como destacaram Reed e Raschke (2010), os Estados Uni-
dos assumem uma postura moderada perante o ETIM, na medida em
que inserem o agrupamento nas listas-negras do terrorismo vinculadas
ao nanciamento e imigração, mas o mantém fora da lista de grupos ter-
roristas estrangeiros reconhecidos pelo Departamento de Estado.
A questão intermitente de Xinjiang voltou à tona em 2020, quando
as grandes agências de notícias internacionais, como a Reuters12, arma-
ram que a ONU tem relatos sobre um contingente de cerca de 1 milhão
de muçulmanos uigures em “campos de reeducação” na China. Contu-
do, não há nenhum documento do Alto Comissariado das Nações Unidas
para os Direitos Humanos (Oce of the High Commissioner for Human
Rights - OHCHR)13 sobre o assunto, mas sim relatos do grupo de ativistas
Rede de Defensores dos Direitos Humanos da China (Chinese Human
Rights Defenders - CHRD), sediado em Washington e patrocinado, entre
outros, pela NED14. Apesar do frenesi na mídia ocidental, cerca de 54 paí-
ses, dentre os quais muitos de maioria populacional muçulmana, defen-
deram ocialmente em uma conferência da ONU as medidas chinesas de
combate ao extremismo terrorista na região15.
Nesse contexto o governo chinês tem estendido as políticas para
as minorias étnicas. Com o documento Autonomia Regional para Mi-
norias Étnicas na China (2005), do Gabinete de Informação do Conselho
de Estado da República Popular da China, a China estabeleceu, em 2003,
155 áreas autônomas étnicas, somando ainda 30 prefeituras autônomas
e 120 municípios autônomos. Quer dizer: além de usufruir dos mesmos
direitos de outros órgãos estatais, possuem direito de formular regula-
mentos de autogoverno de modo a atender às condições especícas do
grupo étnico, incluindo uso e desenvolvimento de seus idiomas, liberda-
de de crença religiosa e costumes, autonomia da formulação de políticas
educacionais e culturais, etc16.
9. Ver documentário, disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=B-
jgSOYRZqIo
10. Ver documentário, disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=B-
jgSOYRZqIo
11. Ver documentário, disponível em:
https://news.cgtn.com/news/2019-12-
07/The-black-hand-ETIM-and-terrorism-
-in-Xinjiang-MepKpOPAKA/index.html
12. Ver notícia original, disponível em:
https://www.reuters.com/article/us-chi-
na-rights-un/u-n-says-it-has-credible-re-
ports-that-china-holds-million-uighurs-
-in-secret-camps-idUSKBN1KV1SU
13. Ver relatório da ONU, disponível
em: https://www.ohchr.org/EN/NewsE-
vents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsI-
D=23452&LangID=E
14. Ver notícia sobre financiamento do
grupo ativista, disponível em: https://
thegrayzone.com/2018/08/23/un-did-
-not-report-china-internment-camps-ui-
ghur-muslims/
15. Ver reportagem do Global Times, dis-
ponível em: https://www.globaltimes.
cn/content/1168522.shtml
16. Disponível em: http://www.gov.
cn/english/official/2005-07/28/con-
tent_18127.htm
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 25-42
Embora a China contabilize 56 etnias, 91,64% são chineses étni-
cos (han), 1,27% de zhuangs, e todas as demais abaixo de 1%, conforme
o China Ethnic Statistical Yearbook 2016. Pode-se dizer que há uma re-
gião core habitada pela população han e circundada por outras regiões,
incluindo Xinjiang, Tibete, Mongólia Interior, Manchúria e outras pro-
víncias menores. A região de Xinjiang é habitada por pouco mais de 20
milhões de habitantes, cerca de 1,4% da população da China, distribuídos
em 47 grupos étnicos, com aproximadamente 45% de uigures (turcófo-
nos islâmicos), 41% de chineses han, 7% de cazaques, 7% de huis (chine-
ses muçulmanos), além de outras minorias menos expressivas (mongóis,
quirguizes, etc.). São 1,66 milhões de km, representando 1/6 do território
chinês e com cerca de 5,5 mil km de fronteira com outros países: com a
Mongólia, ao nordeste; com a Rússia, o Cazaquistão, o Quirguistão e o
Tajiquistão ao oeste; e com o Afeganistão, o Paquistão e a Índia ao su-
doesteEssas unidades administrativas gozam de especicidades, de acor-
do com a Lei de Autonomia Étnica Regional17.
Figura 2 - Localização de Xinjiang
Fonte: Fevrier (2017).
No contexto da escalada das narrativas anti-chinesa, Pequim tem
trabalhado para dirimir os intentos separatistas com maior ênfase no con-
sentimento do que na coerção, distintamente dos primeiros momentos
após a revolução. É nesse quadro, pois, que se enquadra o documento inti-
tulado A luta contra o terrorismo e o extremismo e a proteção dos direitos
humanos em Xinjiang18, combinando o combate implacável da inuência
de separatistas, extremistas religiosos e terroristas à busca de promoção
de ainda mais direitos aos povos uigures. Além disso, o governo chinês
17. Ver detalhes no site oficial do gover-
no chinês, disponível em: http://www.
china.org.cn/english/features/43608.htm
18. Ver documento completo
em: http://news.cn/english/
2019-03/18/c_137904166.htm
35
Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
tem buscado promover, por um lado, políticas de reconhecimento, como
através da construção de mais de 35.000 mesquitas - muito mais que as
2.300 na França, 2.106 nos Estados Unidos ou 1.600 na Grã-Bretanha, que
mesmo numa base per capita daria cerca de três vezes mais mesquitas no
país oriental. E, por outro, políticas distributivas via desenvolvimento.
Para se ter uma ideia, o Escritório de Informação do Conselho de Estado
(SCIO) divulgou um relatório apresentando o desenvolvimento econômi-
co e social nos últimos 70 anos na Região Autônoma Uigur de Xinjiang,
destacando 1) o aumento do PIB de 791 milhões de yuans em 1952 para
1,22 trilhão de yuans em 2018, um crescimento médio anual de 8,3%; 2)
mais de 2,31 milhões de pessoas foram retiradas da pobreza entre 2014 a
2018; 3) e o PIB per capita aumentou 37,7 vezes com base no ajuste da ina-
ção para 49.475 yuans19. Além do mais, a Associação Mundial de Medicina
Natural declarou Xinjiang como uma das quatro regiões do mundo com
maior média de longevidade, tendo o maior número de pessoas centená-
rias por milhão de pessoas da China (LIANGQI, 2012).
Apesar do desenvolvimento econômico, o desao para a estabilida-
de local segue sendo as tensões inter-étnicas. Por vezes, ações armativas
como educação bilíngüe aumenta convívio e tensões; os funcionários han
responsáveis pela execução de obras eventualmente não tem familiarida-
de com a situação local; e a própria securitização da região, com controles
mais rígidos, gera conitos (ZHANG; MCGHEE, 2014). Ademais, as de-
sigualdades sociais provocam ressentimento em uigures, enquanto mui-
tos se sentem privados de reconhecimento em termos políticos, culturais
e religiosos. Para tanto, Pequim tem buscado combinar a promoção do
desenvolvimento com a repressão aos focos de desestabilização (HAO;
LIU, 2012). Isto é, em meio ao mais notável processo de modernização e
mobilização social, o governo chinês tem de lidar com o imperativo de
superar clivagens sociais, regionais e étnico-religiosas entrelaçadas, fre-
quentemente fomentada por atores estrangeiros.
A Nova Rota da Seda e a estratégia de contenção do separatismo
Em razão de sua posição estratégica, Xinjiang é uma das regiões
que mais tem recebido investimentos oriundos da Nova Rota da Seda.
o obstante, em março de 2015, a Comissão Nacional de Desenvolvi-
mento e Reforma emitiu um documento intitulado Visão e Ações para
Promover a Construção Conjunta da Faixa Económica da Rota da Seda
e da Rota Marítima da Seda do Século XXI onde estabelece o quadro po-
lítico para o desenvolvimento da iniciativa. No tocante aos papéis regio-
nais dentro da BRI, o documento arma que deve-se “tirar proveito da
vantagem geográca particular e do papel da Região Autónoma Uigur de
Xinjiang como uma janela importante para se abrir ao Oeste, aprofundar
o intercâmbio e a cooperação com os países da Ásia Central, Ásia Meri-
dional e Ásia Ocidental, formar um importante ponto de conexão para os
transportes e comunicações, um centro de comércio, logística, cultura,
ciência e educação, criar uma zona econômica central na Faixa Econômi-
ca da Rota da Seda.” (CHINA, 2015, p. 1). A XUAR representa o território
que entrelaça i) o comércio fronteiriço com os países da Ásia Central, ii) o
19. Ver reportagem da CGTN, disponível
em: https://news.cgtn.com/news/2019-
07-30/How-Xinjiang-s-economy-and-so-
ciety-developed-in-the-last-70-years-IK-
cPHfKLGU/index.html
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 25-42
acesso direto aos recursos energéticos e matérias primas e iii) os desaos
securitários daquela região.
Através dos investimentos em infraestrutura, a Nova Rota da Seda
tem gerado empregos e desenvolvimento no oeste chinês (HAYES, 2015).
Para 2017, por exemplo, o orçamento foi estipulado em 170 bilhões de
yuans destinados a construção de rodovias, 8,1 bilhões para as ferrovias e
4,8 bilhões para a aviação civil, com os dois últimos tiveram aumentando
50% do orçamento em relação ao de 2016 (WEIHUA; JIA, 2017) – um
montante total de $27,2 bilhões de dólares. Nos últimos anos, a escala da
rede de infraestrutura de transporte de Xinjiang aumentou consideravel-
mente. Até o momento, Xinjiang conta com uma malha ferroviária de
mais de 6.200 quilômetros, com 21 aeroportos de transporte civil e com
vias expressas que ultrapassam 5.200 quilômetros.
Com efeito, as autoridades da província autônoma já estabelece-
ram como prioridade a função logística de Xinjiang dentro da Nova Rota
da Seda, dada sua posição de enlace territorial entre o leste da China e
a Ásia Central. Atendendo à estratégia de desenvolvimento coordenado
regional, o Planejamento da Rede de Transporte Abrangente da Região
Autônoma de Xinjiang Uygur (2021-2050) vem sendo elaborado em con-
junto com o governo central. Segundo Wang Xinlin (2020), apesar dos
gargalos em termos de infraestrutura, mas é nítido o objetivo de conver-
ter Xinjiang na região de interconexão territorial com o exterior em área
central da BRI.
A ideia de Xinjiang como central para a Nova Rota da Seda tem
se tornado mais evidente (YAN, 2016). Trata-se de um enlace territorial,
da conectividade através da Ásia Central até a Europa, implicando em
redução de tempo e custo no acesso aos mercados estrangeiros. Até en-
tão, a forma mais prática de fazê-lo era através do Estreito de Malaca, no
Mar da China, levando aproximadamente de 20 a 40 dias para chegar a
seu destino (Europa, por exemplo). A rota via Xinjiang permite que os
produtos chineses alcancem o mesmo destino em apenas 16 dias, atra-
vés da construção de uma ferrovia de alta velocidade (11.179 quilômetros
de extensão) que corta a Ásia Central, passando por Ürümqi, capital da
XUAR, depois pela Ásia Central, Rússia por grande extensão da Europa,
até chegar à Alemanha.
37
Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
Figura 3 - Ferrovia entre Chongqing e Duisburg
Fonte: Chen e Mardeusz (2015)
Para além das vias de acesso aos mercados euroasiáticos, investe-
-se também na construção de gasodutos e oleodutos na XUAR. Ao lon-
go do século XXI, a preocupação com a segurança energética tornou-se
central em qualquer planejamento, pois os riscos de paralisia da eco-
nomia ou de violações da soberania dependem do acesso aos recursos
energéticos. Nesse sentido, a China tem buscado diversicar seu abas-
tecimento, escapando a qualquer forma de dependência, sobretudo de
regiões instáveis como o Oriente Médio. Da mesma forma, o governo
chinês busca diminuir a dependência do Estreito de Malaca como rota
de abastecimento, região por onde passa cerca de 80% do suprimen-
to do país (YIWEI, 2016). Com a Nova Rota da Seda e a facilitação do
acesso à Ásia Central, a China tende a diversicar os fornecedores de
energia, recursos minerais e alimentos. Isto permitirá que o país acesse
os suprimentos energéticos vindos tanto do Oriente Médio quanto da
Ásia Central, garantindo vitalidade aos seus índices de crescimento eco-
nômico (BRUGIER, 2014; FALLON, 2015).
38
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 25-42
Figura 4 – Principais recursos naturais de Xinjiang e da Ásia Central
Fonte: Central Asia (2017).
Deve-se ressaltar que Xinjiang é extremamente importante para a
Nova Rota da Seda, não somente pelos recursos energéticos, como petró-
leo e gás, presentes no seu próprio território, mas também pela condição
de espaço de conexão de todo tipo de infraestrutura. A XUAR tem sido
objeto de uma grande expansão do comércio transfronteiriço entre diver-
sos Estados asiáticos e a China (ELMER, 2011). Mas a questão de fundo
ultrapassa a dimensão econômica, pois o oeste chinês é parte da recons-
trução nacional, da integração regional e da projeção global da China.
Em outras palavras, há um Novo Grande Jogo (RASHID, 2003) que passa
por Xinjiang, na medida que desta região dependem a integração territo-
rial chinesa e sua liderança sobre a integração regional impulsionada via
OCX e Nova Rota da Seda. Não se deve esquecer que em um potencial
cenário de ruptura do tráfego no Estreito de Malaca, os estrategistas chi-
neses desenvolveram dois planos de contingência: o primeiro é a ligação
do Paquistão (porto de Gwadar) até Xinjiang e o segundo a ligação de
Mianmar (porto de Sittwe) até Yunnan. São, pois tanto vias de segurança
energética, quanto de transporte de de bens (CARRIÇO, 2007, p.14).
39
Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
Figura 5 - Xinjiang e a integração da infraestrutura regional
Fonte: Ma (2019).
Dada a complexidade do projeto, estas dimensões acabam se interco-
nectando. No caso da ligação com o porto paquistanês, cabe indicar que a
cidade de Gwadar está situada em zona paquistanesa também afetada pela
atuação de movimentos separatistas, na província do Baluchistão, onde atua
o Exército de Libertação do Baluchistão. Até 2007 o Paquistão possuía ape-
nas dois portos comerciais, situados em Karachi e Bin Qasin. Ciente da vul-
nerabilidade de ambos frente aos possíveis ataques da Índia - que em 1971
alvejou o complexo portrio de Karachi com mísseis -, há décadas o Paquis-
tão almejava a construção de um terceiro complexo, com profundidade ter-
ritorial capaz de protegê-lo de eventuais movimentações indianas. Als, esta
estratégia de estabelecer um “colar de pérolas” que se estenda desde a ilha
de Hainan, que passa pelo arquipélago das Spratly, pelo Camboja, Taindia,
por Mianmar (ilhas Coco, ilha de Hainggyi, ilha Zadetkyi Kyun, portos de
Sittwe, Kyaukpyu, Bassein, e Mergui), Sri Lanka e Bangladesh até à entrada
do Golfo Pérsico (porto de Gwadar) tem vindo a suscitar preocupações aos
estrategistas estadunidenses, indianos e iranianos (CARRIÇO, 2007).
Para lidar com esse cenário de instabilidade da região e da possi-
bilidade de internacionalização do conito, o governo chinês formatou
diversas estratégias. A promoção da migração de população han para o
oeste chinês constitui, nesse sentido, importante pilar de diluição da ca-
pacidade dos grupos extremistas islâmicos ampliarem seus laços com a
população (DILLON, 2011), ainda que a imposição da população han nos
negócios regionais - principalmente na gestão das atividades agrícolas e
no acesso aos cargos públicos - tenha ampliado, de certa forma, o descon-
tentamento com o governo chinês por substancial parcela da população
origiria da região (HAYES, 2015; TEDESCHI, 2015).
Por outro lado, o impulsionamento da interiorização do projeto
de desenvolvimento chinês, preocupação enfatizada desde a elaboração
40
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 25-42
do projeto Grande Desenvolvimento do Oeste, tem visado a diminuição
das desigualdades regionais e a maior integração da economia nacional.
Ademais, o contexto de cooperação da China com o Paquistão poten-
cializou a importância de Xinjiang no conjunto do projeto de desenvol-
vimento chinês. O Corredor Econômico China-Paquistão é demarcado
por uma vasta rede de infraestrutura, de cerca de 3.000 km de extensão,
indo desde o porto de águas profundas no Mar da Arábia, em Gwadar,
no Paquistão, até a cidade de Kashgar, na província de Xinjiang. Além de
contribuir para dirimir as instabilidades securitárias do país vizinho, sua
implementação corrobora os esforços chineses para evitar eventual check
point estratégico no Estreito de Malaca. Por m, o robustecimento da
OCX - tendo como prioridade securitária o combate aos três males (terro-
rismo, separatismo e fundamentalismo) - permite a multilateralização do
combate aos grupos extremistas locais.
Em suma, pode-se dizer que as questões securitárias de Xinjiang
apresentam uma dimensão multifacetada dos desaos do governo chinês
em âmbitos nacional, regional e até global. E, como destacou Mackerras
(2015), ainda que as potências ocidentais sigam manobrando o discurso
em prol da defesa dos direitos humanos na região, questionando as me-
didas de contenção ao terrorismo do PCCh, dicilmente o priorizarão
diante das oportunidades econômicas que progressivamente surgem em
Xinjiang, como fruto da execução dos vigorosos projetos de infraestrutu-
ra em curso. Dessa forma, cabe avaliar como a Nova Rota da Seda, como
grande estratégia de inserção internacional da China, interage com a ca-
pacidade do país lidar com o desenvolvimento, a integração e a estabiliza-
ção securitária da porção oeste de seu território, ao passo que impulsiona
a ligação com a Ásia Central e demais regiões cruciais para o êxito das
pretensões do gigante asiático.
Considerões finais
Xinjiang é uma região estratégica, e o governo chinês reconhece
o imperativo de superar muitas clivagens sociais, regionais e étnico-reli-
giosas ali existentes, inclusive a eliminação da pobreza extrema. Trata-se
de um território crucial para a unidade nacional de um país multiétnico,
bem como para continentalização do desenvolvimento chinês. É o espa-
ço de enlace territorial do comércio e da integração regional com vários
países vizinhos, sem o qual a OCX caria comprometida. Essa província
é também rota infraestrutural essencial para a segurança do suprimento
de recursos naturais, alimentos e energia para a economia chinesa.
Por toda sua imporncia, Xinjiang está no epicentro de dilemas se-
curitários chineses. O transbordamento dos grupos terroristas e a aposta
de Washington e seus aliados na desestabilização e desmembramento da
China, torna a questão central para as autoridades chinesas. A guerra de
informações promovida pelos Estados Unidos, pois, é parte de uma es-
tratégia mais ampla de imposição de constrangimentos à projeção global
da China. Tal estratégia de contenção inclui não apenas o fomento ao
separatismo em Xinjiang, mas também no Tibete, em Taiwan e em Hong
Kong, bem como o estímulo aos conitos no Mar do Sul da China e a
41
Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
potencialização de posturas ideogicas anti-chinesas pelo mundo. Tudo
isso ao passo em que os estadunidenses reforçam sua presença militar
no Pacíco (Guam, Filipinas, Coreia do Sul, etc.), buscam sabotar a esta-
bilidade política do sistema de governo chinês e recrudescem a Guerra
Comercial. Isto é, a narrativa anti-chinesa sobre Xinjiang diz mais sobre
os objetivos de Washington do que sobre as contradições étnicas-sociais-
-religiosas da China.
Parece, pois, que o futuro da região é decisivo para o desenrolar do
processo da reconstrução nacional da China, iniciado em 1949, para a re-
conguração do sistema sinocêntrico e para a conrmação da Nova Rota
da Seda - esta última uma espécie de projeto chinês de globalização. E,
indubitavelmente, o êxito da iniciativa chinesa tende a ser variável chave
na encruzilhada sistêmica, em que colidem dimica globais distintas,
lideradas por Washington e Pequim.
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43
M. Florencia Rubiolo, Diego Telias Compeção entre China e Estados Unidos na América Lana: evolução, perspecvas e implicações no contexto do COVID-19
Competição entre China e Estados Unidos
na América Latina: evolução, perspectivas
e implicações no contexto do COVID-19
China-United States competition in Latin America:
evolution, perspectives, and implications in the
COVID-19 context
La competencia entre China y Estados Unidos en América
Latina: evolución, perspectivas e implicancias en el
contexto del COVID-19
M. Florencia Rubiolo1
Diego Telias2
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2021v9.n3.p43
Recebido em: 31 de agosto de 2020
Aprovado em: 29 de junho de 2021
R
Na última década, a China se estabeleceu como um ator-chave no sistema
internacional e sua inuência se irradia para todos os cantos do mundo. A
América Latina não é exceção a esse fenômeno. A participação econômica da
China na região teve impactos políticos que levaram à competição inevitável
com os Estados Unidos. É neste contexto de competição que surge a pandemia
COVID-19, com profundas consequências para os países latino-americanos. O
objetivo deste artigo é analisar as relações entre a América Latina e a China no
contexto da competição com os Estados Unidos e a pandemia do COVID-19. O
artigo aborda como a competição evoluiu, principalmente na área da saúde após
o surto de COVID-19. Para isso, são discutidas as principais ações da China na
região a partir de uma perspectiva teórica da economia política internacional e a
partir de conceitos como diplomacia de máscaras e “wolf warrior diplomacy”.
Palavras-chave: China. América Latina. Estados Unidos. COVID-19. Rota da
Seda Sanitária.
A
In the last decade, China has established itself as a key player in the international
system and its inuence irradiates to all corners of the world. Latin America is
no exception to this phenomenon. Chinese economic involvement in the region
had political impacts that have led to inevitable competition with the United
States. It is in this context of competition that the COVID-19 pandemic emerges
bringing profound consequences for Latin American countries.
1. CIECS (CONICET y UNC) Doctora
en Relaciones Internacionales (UNR,
Argentina). Investigadora Adjunta en
el Consejo Nacional de Investigaciones
Científicas y Técnicas de Argentina
(CONICET, CIECS). Correo electrónico:
frubiolo@gmail.com
2. Pontificia Universidad Católica de
Chile & Universidad ORT Uruguay.
Candidato a Doctor en Ciencia Política
de la Universidad Católica de Chile
(Becario CONICYT PFCHA/DOCTORADO
BECAS NACIONALES/2019 – 2119032) y
docente de la Facultad de Administraci-
ón y Ciencias Sociales de la Universidad
ORT Uruguay. Correo electrónico:
detelias@uc.cl
44
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 43-62
The aim of this article is to analyze the relations between Latin America and
China in the context of competition with the United States and the COVID-19
pandemic. The article addresses how competition has evolved, particularly in the
health area after the COVID-19 outbreak. To this end, the main actions of China
in the region are discussed from a theoretical perspective of political economy
and drawing on concepts as mask diplomacy and wolf warrior’s diplomacy.
Keywords: China. Latin America. United States. COVID-19. Health Silk Road.
R
En la última década, China se ha consolidado como un actor clave en el sistema
internacional y su inuencia se irradia a todos los rincones del mundo. América
Latina no es una excepción a este fenómeno. La participación económica china
en la región tuvo impactos políticos que han llevado a una competencia inevitable
con Estados Unidos. Es en este contexto de competencia donde surge la pandemia
COVID-19 que trae profundas consecuencias para los países latinoamericanos.
El objetivo de este artículo es analizar las relaciones entre América Latina y
China en el contexto de la competencia con Estados Unidos y la pandemia de
COVID-19. El artículo aborda cómo ha evolucionado la competencia, partic-
ularmente en el área de la salud después del brote de COVID-19. Para ello, se
discuten las principales acciones de China en la región desde una perspectiva
teórica de economía política internacional y a partir de conceptos como la diplo-
macia de las mascarillas y la “wolf warrior diplomacy”.
Palabras clave: China. América Latina. Estados Unidos. COVID-19. Ruta de la
Seda Sanitaria.
Introduction
The world has profoundly changed since 1978, when Deng Xiaop-
ing took the rst steps that led to China’s integration into the world econ-
omy some decades later. The process of opening-up and the market-driv-
en reforms arrived at a major milestone in 2001 when the country entered
the World Trade Organization. This symbol of the PRCs economic trans-
formation was followed a few years later, in 2010, by its consolidation as
a global economic player becoming the second largest world economy.
Today, Chinas role as a global power is unquestionable and its in-
uence irradiates to every corner of the world. Latin America and the Ca-
ribbean (LAC) is not an exception, as Beijings interest in approaching the
region has been growing steadily in the last two decades. Almost every
LAC economy has seen an unprecedented growth in its export numbers,
related to China’s enormous demand. Among other commodities, ex-
ports of copper, crude oil, iron ore and soybeans skyrocketed, starting a
decade-long commodity boom from 2003. Given LAC countries econom-
ic structure, trade became the outstanding pillar of bilateral relations as
Chinese needs of natural resources soared.
Almost twenty years went by, China already has a foot in the region
in many more dimensions and multilateral and bilateral aspects than at
the beginning of the century. Contemporary China`s emerging impacts
on the world are evolving in all manner of messy and complex ways
which make analysis dicult; in that sense economic engagement has
45
M. Florencia Rubiolo, Diego Telias Compeção entre China e Estados Unidos na América Lana: evolução, perspecvas e implicações no contexto do COVID-19
political impacts, whether it is planned or not (GARLICK, 2020). Chinas
engagement in Latin America, encouraged by domestic needs, have led to
inevitable competition with the United States, an aspect that is observed
in several regions of the world, though in Latin America acquires greater
importance given that for decades it has been considered the backyard of
the US. In the context of a more active Chinese policy in LAC through the
Belt and Road Initiative and Trump’s tougher position as a response, the
COVID-19 pandemic struck.
Our goal in this paper is to analyze the relations between Latin
America and China in the context of a competition with the United States
and the emergence of the COVID-19 pandemic. While it is not the pur-
pose of this article to delve into the dierences within the region, it is
worth noting that relations with China and competition have been dier-
ent in each country. As a guiding question we propose to outline how the
competition between the two powers evolved with a particular focus in
the health area, before and after the outbreak of the pandemic. This will
allow us to fully delve into the relations between China and Latin Amer-
ica and discuss Chinas main foreign policy actions in the region within
the framework of this competition and COVID-19 in the health arena.
The theoretical approach reects a political economy perspective, under-
lining the relation between both aspects in Chinese international and for-
eign policy, as well as the articulation between economic means and po-
litical goals, and the use of economic incentives and sanctions or threats,
to inuence a third State’s behavior (BALDWIN, 1985; BLANCHARD;
RIPSMAN, 2013).
The article is structured as follows: after the introduction, in sec-
tion two we analyze how the competition between the United States and
China took shape from the Obama’s pivot to the Trump administration
but also considering this competition as an inevitable phenomenon ac-
counting Chinese foreign policy as a response to domestic needs rather
than a search for positioning in the global level. In the third section, we
describe in detail this competition in the health area, focusing on the
Health Silk Road, the debates on the World Health Organization and con-
textualizing the emergence of the pandemic. In the fourth section, the
central part of the article, we analyze the competition of the United States
and China towards Latin America in this new context of COVID-19, con-
sidering the so-called mask diplomacy and wolf warriors’ diplomacy. We
conclude this article with brief nal remarks.
China, the United States and the emerging global competition
Implications of a rising China have been analyzed through dier-
ent theories of international relations. One cornerstone of this debate is
the conclusion of Allison (2017) that war between China and the United
States (US) is likely, based on the” Thucydides Trap” which means that
when a rising power threatens to displace the incumbent, war is the like-
liest result. This pessimistic view is shared by many realists’ scholars that
consider that mutual fears and incompatible strategic objectives will pre-
destinate both countries to an intense competition (FRIEDBERG, 2011;
46
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 43-62
MEARSHEIMER, 2014). As Walt said, “for realists, therefore, Chinas rise
is not good news and it is likely to have deleterious eects on global sta-
bility” (2018, p. 14).
Liberal scholars oer more optimistic visions as they focus on the
interdependent condition of our world which connected with global in-
stitutions and skillful diplomacy have consequences of discouraging war,
so it could limit potential rivalry and oer a cooperation path. Ikenberry
(2018) underlines, from a liberal perspective, the capacity of the American
liberal order to survive due to its integrative tendency, shared leadership,
how economic gains are spread, and the capacity to accommodate dier-
ent models of capitalism and strategies of development. Following this
idea, this author argues that even if Chinas rise could end US hegemony,
the liberal world order will hardly be undermined.
This debate goes beyond this simplication between realist and
liberal approaches. Some scholars prefer a states agency approach instead
of structural explaining forces that prioritize only changes in distribution
of power. Foot (2014), for example, focuses on constraints on conict that
are insuciently appreciated in the realist approaches, as the domestic
political-economic priorities of both countries. Others also argue that
China has not enough power to challenge the US position in the world
order (SHAMBAUGH, 2013) and its capabilities are far behind as it does
not have a high GDP per capita, its military gap with the US is still huge,
and its soft power is not well developed yet.
Going beyond the theoretical aspect, it is necessary to analyse
the growing competition between China and the United States in re-
cent years, of which BRI seems to be one of the latest chapters. Actis
and Creus (2020) distinguish three moments in this dispute: the pivot
strategy during the Obama administration starting in 2011, Xi Jinping’s
arrival to power in 2013, and Trump’s election. The accusations by for-
mer US President Donald Trump appear to have marked a turning point
in relations. While the concerns and discussions about Chinas growth
precede this, his rhetoric about the trade imbalance marks one of the key
points in this competition. However, the US accusations went beyond the
trade balance and pointed to Chinas subsidies in key sectors, the issue of
intellectual property rights and the diculty of participating in public
acquisitions in China (ROSALES, 2020).
In that sense, US competition with China is not merely commer-
cial but also technological. The main concern seems to be centered on
China’s advances in science and technology. This competition in the
technological dispute implies a structural and systemic conict, a ten-
sion between an established and an emerging power. However, it is
worth noting that this conict or competition is prior to the pandemic
and what COVID-19 did was to make it more evident (ACTIS; CREUS,
2020). So what is explained below is part of a much more complex sce-
nario of this competition.
In 2019 this competition seemed to focus on the Belt and Road Ini-
tiative which is a Chinese emblematic economic and political strategy,
with a focus on investment in infrastructure designed to “improve phys-
ical connectivity along a maritime and continental silk route” (MAYER,
47
M. Florencia Rubiolo, Diego Telias Compeção entre China e Estados Unidos na América Lana: evolução, perspecvas e implicações no contexto do COVID-19
2018, p. 1228). According to Nolan (2019, p. xxi), Xi Jinping has made the
new Silk Road “a key part of Chinas international relations”. This Initia-
tive was rst introduced as the One Belt, One Road (OBOR) in September
2013, during Xis speech at Kazakhstan’s Nazarbayev University, where
he proposed to build a “Silk Road Economic Belt”. In October 2013, he
proposed to build a “21st Century Maritime Silk Road” during his speech
at the Indonesian House of Representatives.
In 2015, this project was renamed as the Belt and Road Initiative
(BRI) in an ocial document released by the National Development and
Reform Commission (2015). The “belt” was designed to connect China
to Europe through Central Asia and Russia; to the Middle East through
Central Asia; and to Southeast Asia, South Asia and the Indian Ocean.
The “road” seeks to connect China with Europe through the South Chi-
na Sea and the Indian Ocean; and the South Pacic through the South
China SEA (ALON; ZHANG; LATTEMANN, 2018). Six economic corri-
dors were designed to meet these connectivity goals3. Seven years after
the ocial launch, the Initiative has already surpassed the original terri-
torial scope, becoming a global enterprise.
Since its inception, the Initiative has generated a great amount of
academic discussion. Views among political analysts and intellectuals are
diverse. Chinese motivations behind the BRI have become a central con-
cern for studies around the world, ranging from a purely economic inter-
pretation, to a geopolitical and strategic-centered approach. According to
the rst group, BRI is focused on enhancing an open economy and im-
proving Chinese domestic development, as well as fostering international
cooperation (ZHOU, 2019; ZOU, 2018). This perspective is in line with the
ocial statements regarding the purpose and goals of the Initiative. In
May 2017 the CCP released a guiding document, stating that the Belt and
Road Initiative “is a Chinese proposal whose aim is to promote peaceful
cooperation and common development around the world” (OFFICE OF
THE LEADING GROUP FOR THE BELT AND ROAD INITIATIVE,
2017). Party leaders, and particularly Xi Jinping, have also stressed that
BRI is a fundamental part in the path to achieving the “Chinese dream”,
understood as the construction of a moderately well-o society, a rich
and powerful country and a dynamic and happy people (PARRA PÉREZ,
2017; JOHNSON, 2016).
Domestic concerns come to the front when considering the eco-
nomic motivations. Some of the interests fueling the plan are the need
to consume China’s industrial over-capacity; to expand or nd new mar-
kets for Chinese exports; the need to secure access to natural resources;
and nd new uses for surplus (CLARKE, 2018; YU, 2018). As Zhou (2019)
points out, the BRI complements China’s economic restructuring and
vice versa. The Initiative helps transform and upgrade the manufactur-
ing industry and alleviate the problem of overcapacity in traditional Chi-
nese industries increasing the demand of building materials (JOHNSON,
2016) and hi-tech industrial supplies for infrastructure projects abroad.
But besides the centrality of the domestic economic and political
aspects of the plan, BRI also reects strategic and geopolitical intentions
and concerns related to Chinas role as a leading world power (ALON;
3. The six corridors are the New
Eurasian Land Bridge, the China-Mongo-
lia-Russia Economic Corridor (CMREC),
the China-Pakistan Economic Corridor
(CPEC), the China-Central and Western
Asia Economic Corridor, the China-Indo-
china Peninsula Economic Corridor, and
the Bangladesh-China-India-Myanmar
Economic Corridor (BCIMEC).
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 43-62
ZHANG; LATTEMANN, 2018) and to the need to maintain regional
stability. In line with this assertion, a common vision suggests that the
Initiative is in fact a grand strategy. As Rolland (2018) argues, it is “an
instrument at the service of the PRC’s vision for itself as the uncontested
leading power in the region in the coming decades”. Clarke (2018) also
adds that “BRI is an attempt to resolve the geopolitical dilemmas arising
from China’s ‘hybrid’ strategic orientation [maritime and continental];
and as a response to the opportunities and challenges presented by the
United States’ ‘pivot’ or ‘rebalance’ to the Asia Pacic from 2011. Accord-
ing to Liang (2019), BRI is also pursuing the goal of becoming an alterna-
tive idea to complement and challenge existing international institutions.
Competition turned out to be inevitable given US perceptions and
reactions to Chinese international behavior. But also, because of a more
assertive and condent international policy emanating from Beijing,
which was mainly a response to domestic needs. In this sense, it can Chi-
na ends up emerging as a global power even if it was not a preconceived
goal, mainly because of the multiple interlinkages between Chinas do-
mestic political economy and its external relations (GARLICK, 2019).
The health silk road and the WHO in Chinas policy
Besides the highlighted economic and geopolitical dimensions of
the Belt and Road Initiative, there are several other aspects included in
this ambitious plan. Cultural, educational, and professional elds are also
addressed as part of the Chinese strategy, and people-to-people diploma-
cy is fundamental in the diusion of skills, knowledge, and cooperation
(BENABDALLAH, 2019). The health dimension was considered as a part
of the rst documents issued by the government to materialize the BRI.
As stated in the 2015 Vision and Actions document: “We should strength-
en cooperation with neighboring countries on epidemic information
sharing, the exchange of prevention and treatment technologies and the
training of medical professionals, and improve our capability to joint-
ly address public health emergencies”. (NATIONAL DEVELOPMENT
AND REFORM COMMISSION, 2015).
China’s engagement with global health is not a new trend. During
the sixties, Africa became a destination of China’s health programs. Fol-
lowing Algeria’s war against French colonialism, Beijing sent its rst
overseas medical team in 1963 to the country (BRAUTIGAM, 2011). From
then on, Chinas aid and programs towards the continent increased, par-
alleling the deepening of diplomatic ties. Most recently, during the Ebo-
la crisis in 2012-2014, China launched an unprecedented response to the
epidemic in west Africa, which became its largest ever health emergency
relief overseas (TANG; ZHIHUI; WENKAI; CHEN, 2017).
Regarding the Belt and Road, Beijing has not neglected the health
aspect in the initiative. The exible and adaptable nature of the strategy
allowed to introduce the idea of a Health Silk Road (HSR) as an extension
of an already deep Chinese engagement with global health in the last de-
cades. The idea of a HSR was rst mentioned in 2015 when the National
Health and Family Planning Commission unveiled the three-year plan
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M. Florencia Rubiolo, Diego Telias Compeção entre China e Estados Unidos na América Lana: evolução, perspecvas e implicações no contexto do COVID-19
for Belt and Road health exchange and cooperation (2015-2017) (NHFPC,
2015) A year later, during a speech in Uzbekistan in June 2016, Xi Jin-
ping stressed the “need to deepen cooperation in medical care and health,
strengthen win-win cooperation in the alert of communicable diseases,
disease prevention and control, medical assistance and traditional medi-
cine, and build a Silk Road for health” (WANG; LI, 2019, p. 100).
As shown in this brief overview, China has become more proactive
in global health governance since the beginning of the century. But its
motivations and goals, as in the cases of other major powers, go beyond
the will to improve health and human security in developing countries.
Health engagement -in the form of aid, assistance, and cooperation- is
also used as a form of soft power that fullls domestic and foreign pol-
icy goals, including security, economic growth, and business interests
(BRÄUTIGAM, 2011).
In January 2017, Xi signed a Memorandum of Understanding (MoU)
with the World Health Organization that endorsed international health
regulation and promoted health security on the Silk Road (REN, 2018).
In August, 2017, China hosted the Belt and Road High-Level Meeting to
promote health cooperation, and the resulting document was the Beijing
Communiqué of The Belt and Road Health Cooperation & Health Silk
Road, which was adopted, among other partners, by the WHO, the UN-
AIDS and the OECD (NATIONAL HEALTH COMMISSION, 2017).
In this context it is important to address the relation between Chi-
na and the WHO. As we have seen, the World Health Organization has
endorsed international health regulation and promoted health security
within the Silk Road. The current director, Dr. Tedros Adhanom, was
elected through a secret vote by 194 member states (supported by China).
A couple of days after the election, Dr. Tedros reiterated the organiza-
tions adherence to the one-China principle (CHINA DAILY, 2017).
In his speech at the 2019 Belt and Road Forum, Xi Jinping referred
to exchanges and mutual understanding and the goal of cooperation
in the health area. However, beyond agreements and conferences, the
Health Silk Road was still considered as a rhetorical extension of Chinas
Belt and Road Initiative (LANCASTER; RUBIN; RAPP-HOOPER, 2020).
In LAC, health was mentioned in the “Joint Cooperation Action Plan in
Priority Areas” - a document prepared in the China-CELAC Forum of
2018 - but not considered as a main area of cooperation, such as politics
and security, infrastructure and transportation, trade, investment and -
nances, agriculture, environmental cooperation, technology, among oth-
er (CELAC, 2018).
The Ministries of Foreign Relations of CELAC and China agreed
to intensify the dialogue and exchange in the health sector mainly in ar-
eas such as clinical medicine, disease control and prevention, response to
health emergencies, research and development and access to medicines.
They also committed to encourage and support direct cooperation be-
tween government, regional, local, and medical institutions, in order to
strengthen health systems of dierent countries of the region.
But since the COVID-19 outbreak, the Health Silk road gained
momentum within the Chinese foreign policy discourse. A highlight in
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 43-62
this regard was Xis conversation with Italian Prime Minister, Giuseppe
Conte, in March 2020, in which he underlined the importance of the
construction of a Health Silk Road (XINHUANET, 2020). In that sense,
COVID-19 became an opportunity to include the multiple actions of the
Chinese government under the label of the HSR Initiative. Diverse do-
nations of medical supplies and scientic exchanges began to be consid-
ered part of it.
On the other hand, the Trump administration responded to the
health emergency by blaming China for covering up the outbreak, call-
ing it “China’s virus” and also accusing the WHO of being a Chinese
puppet. President Trump and U.S. Secretary of Health Alex Azar said
there was a failure by the WHO to provide information and, based on
that, Trump suspended the United States’ temporary contributions to the
organization. It is important to note that the U.S. is the largest contribu-
tor to the WHO (15.18%), followed by the Bill & Melinda Gates Founda-
tion (12.12%). In contrast, China contributes 0.21% of the nancial ow
(WHO, 2019).
In that context, in May 2020, the WHO organized the 73td World
Health Assembly (WHA), a meeting that annually brings together its
members. Taiwan participated in these meetings between 2009 and 2016
due to an agreement that had the endorsement of China (ASPINWALL,
2020). However, in the 70th Assembly (2017), Taiwan was not invited
to participate as an observer, mainly because of China’s pressures. This
situation repeated in the following years (2018-2019) neglecting the fact
that dierent countries, including the United States, released statements
criticizing the exclusion (US DEPARTMENT OF HEALTH & HUMAN
SERVICES, 2020).
China in Latin America: before and after covid-19
China - LAC Relations
Latin America-China relations skyrocketed in the last 20 years. Bi-
lateral relations with each country started to deepen through high prole
visits from Chinese Heads of State, beginning with President Jiang Ze-
min’s trip to the region in 2001. But, as Paz (2006) underlines, it was 2004
the actual turning point in the relations. Hu Jintaos visit to Argentina,
Brazil, Chile, and Cuba on that year was the strongest sign of this change
of winds in the relationship (KOTSCHWAR, 2014), showing Chinas
growing interest in gaining a foothold in Latin America. Since then, mu-
tual links have increasingly institutionalized, both in bilateral and multi-
lateral spaces in the economic and political arenas. It must be recognized
that trade has been and still is the indisputable pillar. Conditions such as
the complementarity of the economies, the ever increasing need for nat-
ural resources and raw materials from China, the pursuit of diversifying
export markets from the Latin American economies, the international
economic conditions -as the high commodity prices and the nancial
global crisis in 2008- were all factors that underpinned the boom (RU-
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M. Florencia Rubiolo, Diego Telias Compeção entre China e Estados Unidos na América Lana: evolução, perspecvas e implicações no contexto do COVID-19
BIOLO, 2020). But besides the commercial relations, Beijing has shown
a constant and progressive engagement with the region through diverse
institutional channels.
Although in this article we argue there has been an overall Chinese
approach to Latin America as a whole, it must be distinguished that the
region is not intrinsically homogeneous. Even though most of the region
shares signicant features -such as language, religion, transnational in-
digenous culture and a common colonial history- from an international
relations point of view, multiple variables have operated to dierentiate
the dierent parts of the continent. Regional integration processes, exter-
nal trade characteristics –particularly as a primary commodity exporting
countries-, intraregional interdependence, the emergence of Brazil as a
global player and a regional power (BERNAL MEZA, 2008), the role of
the United States since 2001, and the initiatives for political integration
(CABALLERO SANTOS, 2012) have dened a clearer boundary for the
South American region, dierentiating it from the rest of Latin America.
In this sense, South America relations with China show distinctive char-
acteristics, in contrast with México, Central America and the Caribbean.
As Wise (2020b) points out, while there is productive complemen-
tarity between China and the South American commodity-producing
countries, México and Central America have a weaker trade relation
-mostly a decitarian one- due to the fact that they have little to oer
to Chinese commodities demand. On top of this, Mexico´s and Central
Americas overdependence on the US market has also prevented a deeper
trade relation with China. Another particular feature in the case of Cen-
tral American and the Caribbean was, until recently, that most countries
maintained diplomatic relations with Taiwan. But after Panama shifted
its diplomatic allegiance from Taipei to Beijing in 2017 -which led to the
domincan Republic and El Salvador to follow suit in 2018- China’s pres-
ence in the isthmus consolidated, particularly through investments in the
banking sector and infrastructure projects in logistics, port services and
energy. (CELADA, 2019)
Besides the heterogeneity, which still presents many features that
dierentiate the subregional areas in LAC, China has had an active bi-
lateral and multilateral presence in the region as a whole. Strategic part-
nership (SP) diplomacy was among the rst tools Beijing implemented to
establish stronger and more stable political links with dierent countries
and regional institutions since the early nineties. The rst SP was signed
with Brazil in 1993. Although there is no exact meaning of the concept
(XU, 2017), in 2004 Premier Wen Jiabao (2004) gave some clarications
on how an ideal SP would be: by partnership it refers to cooperative and
win-win relations; by strategic it implies that the relation should be long-
term and stable. Besides this ocial view, political motives also underpin
Beijings SP diplomacy, aimed at maintaining friendly relations that favor
stable economic links, while also expanding its international inuence
(YU, 2015). After the rst SP with Brazil, which was upgraded to Compre-
hensive SP in 2012, several strategic partnerships were signed with Latin
American countries: Venezuela (signed in 2001, in 2014 was upgraded to
comprehensive), Mexico (2003, in 2013 comprehensive), Argentina (2004,
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 43-62
in 2014 comprehensive), Perú (2008, in 2013 comprehensive), Chile (2012,
in 2016 comprehensive), Costa Rica (2015), Ecuador (2015, in 2016 compre-
hensive), Uruguay (2016), and Bolivia (2018) (RUBIOLO, 2020; XU, 2017).
This dynamic bilateral diplomacy towards the region was comple-
mented by an active participation in dierent multilateral institutions at
the regional level. The Inter-American Development Bank (IADB), the
Caribbean Development Bank (CDB), the Organization of American
States (OAS), the Latin American Parliament, and the Corporación An-
dina de Fomento are among them (ELLIS, 2009). And the political links
were also upgraded by a series of mostly Chinese-driven initiatives: 1)
The China Ministry of Foreign Aairs White paper on LAC released in
November 2008, spelling out China’s plan for its foreign relations with
Latin America; 2) the cooperation framework for 2015–2019, known as
1+3+6,” announced in July 2014 by President Xi Jinping at the rst Sum-
mit of Leaders of China and Latin America and the Caribbean in Brasilia;
3) the adoption of the China-CELAC Cooperation Plan 2015–2019 and; 4)
the publication of the second white paper on LAC, launched to coincide
with Xi Jinpings visit to the region in November 2016 (FORNES; MEN-
DEZ, 2018).
Among these, the China-CELAC Forum is considered a corner-
stone in the relation with Latin America (VADELL, 2018). It was origi-
nally proposed by Xi Jinping and approved by the CELAC countries in
2014 in La Habana. This process of institutionalization resembles the one
Beijing already had started with Africa – The China Africa Forum – and,
as pointed out by Yu (2015, p. 1049), “China is clearly attempting to trans-
plant its success in Africa into Latin America in order to expedite the
establishment of a presence in the latter continent and intensify economic
and political cooperation with this group of states”. Thus, it is not surpris-
ing that BRI has landed through the China-CELAC Forum.
Last step before the outbreak: LAC in BRI and the US response
Without neglecting the importance and driving force that domes-
tic economic interests and needs represent in BRI, we understand that the
geopolitical and geoeconomics aspects of it are key points to analyze the
extension of the initiative to other regions of the world, which were not
included in the original plan. Among them, Latin America is relatively a
newcomer. Although the region was not originally a part of the initiative,
during the II Ministerial Meeting of the CELAC-China Forum in Janu-
ary 2018, the representatives stated that “Latin American and Caribbean
countries are part of the natural extension of the Maritime Silk Route and
are indispensable participants in international cooperation of the Belt and
Road” (CELAC CHINA FORUM, 2018).
In November 2017, Panama became the rst Latin American coun-
try to access the BRI. The engagement of Latin American countries in the
initiative is diverse. Countries like Uruguay or Chile have shown great
interest in this Initiative. Both governments signed the MoU to access the
initiative, high-ranking ocials attended BRI forums and applied to enter
the AIIB. Uruguay was accepted as a member of the Bank in April 2020,
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M. Florencia Rubiolo, Diego Telias Compeção entre China e Estados Unidos na América Lana: evolução, perspecvas e implicações no contexto do COVID-19
the second in Latin American after Ecuador (AIIB, 2020). There are also
six prospective members in the region: Argentina, Bolivia, Brazil, Chile,
Peru, and Venezuela. Regarding other countries we could nd dierent
approaches with governments attending forums with ministries, signing
MoUs but not applying to the Bank as Cuba, Costa Rica and Panama.
Out of the twenty-four LAC countries that have diplomatic rela-
tions with China, only ve have not adhered to the BRI: Argentina, Bra-
zil, Bahamas, Colombia and Mexico. The case of Argentina is puzzling
because Mauricio Macri was one of the fewest LAC presidents who at-
tended an ocial forum of BRI in 2017 and the country is a prospective
member of the AIIB, however, at the G20 meeting in Buenos Aires, Ar-
gentina declined President Xis oer to sign on to further BRI projects
(WISE, 2020a).
One of the reasons for this decision is cost calculations in the coun-
tries with a close relation with the United States. This is the case of Co-
lombia, Mexico, and Bahamas. Another set of reasons is that signing to
BRI does not represent a clear upgrade of benets. In other words, incen-
tives for signing are not enough for some governments, such as Argen-
tina and Brazil, which already have a dynamic, multidimensional, and
deep economic and nancial relation with Beijing. A third reason could
be that there is no pressure coming from the Chinese government to sign
to BRI to maintain the benets coming from the bilateral links.
There is no doubt the United States has been following these cir-
cumstances closely. The intensication of the economic and diplomat-
ic relations between LAC countries and China, triggered by the export
boom of raw materials to China (oil, iron, copper and soy) in the last
two decades (URDINEZ; MASIERO, 2015), captured US attention even
before BRI. Bilateral trade with China linked LAC to the fate of Chinese
economy and resulted in concentration and dependence on the Chinese
market, which was not good news for the US. However, the invitation of
Wang Yi, Minister of Foreign Aairs of China, to LAC countries to join
the Belt and Road Initiative was a big alert for the Trump administration.
Confronting this situation, Mike Pompeo, US Secretary of State
has urged LAC countries to keep “opened eyes” for Chinese investments
and in December 2019, the US government launched the Growth in the
Americas initiative. This new mechanism was planned to “facilitate job
creation and accelerate economic growth in the Americas by promoting
the private sector as the primary engine of growth to develop critical
infrastructure of all types: energy, airports, ports, roads, telecom and
digital networks, among others” (US DEPARTMENT OF STATE, 2019).
The plan had still not been activated when COVID-19 hit LAC in early
March 2020.
China, LAC, and the US in the COVID-19 context
The outbreak of COVID-19 and its expansion to the region intensi-
ed the already existent trends in LAC relations with China and the US.
As a starting point for the analysis of this recent development, we identi-
ed three aspects that are becoming more prominent in Chinese engage-
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ment in the region, particularly in the health dimension. The rst one
is related to bilateral and multilateral cooperation during the outbreak
of the pandemia, particularly on transfer of knowledge and experiences
from Chinese ocials and specialists to LAC. The second one is what
mass media has called “mask diplomacy” and is related to the donations
that China has given to LAC countries in the rst semester of 2020. The
third aspect deals with the already extended perception of Latin America
and the Caribbean as an arena of competition for China and Taiwan and
how the US involvement in it.
Chinese health cooperation with LAC countries expanded during
the pandemia to assist the governments with their immediate responses
to local outbreaks. In the multilateral arena, eorts concentrated within
the China-CELAC forum. On March 24, China organized a videoconfer-
ence with LAC countries, where Chinese experts described its experience
with COVID-19 on prevention and control. Ocials from the 24 countries
which maintain relations with China, and from Nicaragua (which recog-
nizes Taiwan), along with representatives from the WHO, UNICEF, the
Pan American Health Organization, and the IADB attended the confer-
ence. Chinese experts also provided information about clinic treatment,
customs administration, and quarantine (MINISTRY OF FOREIGN AF-
FAIRS, 2020). Additionally, this kind of event was replicated bilaterally
with almost every country of the region. The conferences were held by
the Chinese central government, and also by provinces, hospitals and
universities.
In Argentina, for example, the Chinese Embassy promoted a con-
ference between the Argentinian Ministry of Health, Ginés Gonlez
García, and the Hospital of the Zhejiang University, where González
García expressed: “we want to learn from China, how it has managed to
contain it [the disease] and how it has minimized the consequences for
the Chinese people. I would like to take advantage of and use the tech-
niques and advice of China in my country” (XINHUA, 2020). Meetings
between Chinas ambassadors and LAC Ministers of Health were also
held with Bolivia, Brazil, Chile, Grenada, Trinidad and Tobago, Venezu-
ela, Panamá, among others.
A second trend that has characterized the relations between Chi-
na and LAC countries is related to donations. Myers and Barrios (2020)
argue that China’s so-called “mask-diplomacy” has been on the rise in
LAC due to governments grappling with COVID-19 and its social and
economic consequences. There are some features that we could identify
in this regard. Donations that arrived at the region were sent by dierent
Chinese entities: the central government, provinces, companies, founda-
tions and also by the Chinese community of the dierent countries. For
example Huawei, the Chinese telecommunications company that have
been in the center of the trade war with the US, donated N-95 masks to
hospitals in Brazil, protective goggles to the Uruguayan Government,
biosafety suits to Bolivia and thermal cameras to Argentina. Regarding
foundations, Jack Ma communicated that Alibaba would donate 2 million
masks, 400.000 testing kits and 104 ventilators to 24 countries (SOUTH
CHINA MORNING POST, 2020). Alibaba foundation was the most ac-
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M. Florencia Rubiolo, Diego Telias Compeção entre China e Estados Unidos na América Lana: evolução, perspecvas e implicações no contexto do COVID-19
tive, but the region also received masks and kits from other foundations
like Mammoth Public Welfare Foundation of Shenzhen. Other entities
that donated medical equipment are dierent Chinese provinces which
have friendship or twinning agreements with cities in Latin America.
For example, in Uruguay the province of Sichuan donated 10.000 surgical
masks to the department of Lavalleja. Sister city linkages is one example
of Chinas expansive subnational diplomacy (MYERS; BARRIOS, 2020)
This pandemia has shown that Latin America and the Caribbean is
an arena of competition between China and Taiwan. We need to consider
that from the 33 CELAC countries, 24 have relations with China and 9 to
Taiwan. To understand the importance of the Caribbean we should note
that ⅔ of the countries that have diplomatic relations with Taiwan are
located in this region. As we said before in 2020 the participation of Tai-
wan in the WHO became an important issue due to the COVID-19 and
the accusations of Taiwan that the organization failed to communicate
an early warning about transmission of the coronavirus (FINANCIAL
TIMES, 2020).
In LAC countries we identify this competition between China and
Taiwan in two circumstances. The rst one was cross-donations: Chinese
aid arrived in countries that do not recognize the PRC and Taiwan assisted
countries that recognize China. And the second one is about the defense
of some LAC countries of Taiwan participation in WHO. Regarding the
rst point, it is interesting to highlight donations from a Taiwanese foun-
dation to Santa Cruz, Bolivia. The foundation Tzu Chi donated to the
Municipal Government of Santa Cruz 30,000 masks, 4,000 safety glass-
es and 4,000 N-95 masks (GOBIERNO MUNICIPAL DE SANTA CRUZ
DE LA SIERRA, 2020). Chinese donations of equipment to Haiti, is also
an illustrative example of this cross-assistance process (LE NATIONAL,
2020). Regarding the WHO, in 2020 the Minister of Health of Belize, Pab-
lo Marin, requested the inclusion of a supplementary item entitled “Invit-
ing Taiwan to participate in the World Health Assembly as an observer”
in the provisional agenda for the 73th session of the WHA (WHO, 2020).
The governments of Guatemala, Haiti, Honduras, Nicaragua, Paraguay,
Saint Christopher and Nevis, Saint Lucia and Saint Vincent and the Gren-
adines also expressed support for the Taiwan invitation to the assembly.
Chinese diplomatic assertiveness and the race for the narrative
Along the lines of these tensions between Washington and Beijing
in the LAC region, there is also another issue that is emerging more
strongly in the context of the pandemia: the campaign to shape the nar-
rative (MYERS; BARRIOS, 2020). In this respect, Beijing has adopted
a more assertive -some could say aggressive- tone, as a clear response
to Washingtons intention to blame the country for the global expan-
sion of the virus. Chinese more assertive diplomatic rhetoric is known
as wolf warrior diplomacy. It was dubbed with this name after the Chi-
nese movies and refers to the combative discourse of diplomats intended
at defending China’s national interests, often in confrontational ways
(ZHIQUN, 2020).
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 43-62
Before the COVID-19 outbreak Chinese diplomacy was becoming
increasingly active and confrontational, both in actions and in discourse
(SWAINE, 2010). As several observers pointed out, in the last decade Chi-
nese diplomacy has become more proactive, condent (SWAINE, 2010) and
assertive (CHRISTENSEN, 2012; PU, 2017; CHEN; PU; JOHNSTON, 2014;
CHANG LIAO, 2018). As Qin (2014) suggests, this Chinese assertiveness dis-
course narrative -or new assertiveness meme in terms of Johnston (2013)-,
took shape within the United States academic circles and expanded to oth-
er countries originating a heated debate over Chinese intentions, interests
and conditions that explain this shift. Both Qin (2014) and Johnston (2013)
underline that this assertiveness in Chinas diplomacy is not such a new
feature. In turn, they argue that it reects more continuity than change.
Others underline the outstanding shift Chinese diplomacy has gone
through. Since 2008, and particularly with Xis accession to power in 2013,
Chinese diplomacy has changed the low prole set by Deng Xiaoping as a
guiding principle for China’s diplomacy, emphasizing that China should
hide its capabilities and bide its time’ (PU, 2017). The reasons behind this
shift are also controversial. Most authors identify at least the following:
1) domestic reasons such as nationalism and bureaucratic conditions; 2)
Chinese growing self-condence; 3) reaction to external incentives/con-
ditions. According to Scobell and Harold (2015), China’s assertiveness in
foreign policy became more evident after the 2008 nancial crisis driven
by a sense of self-condence or premature triumphalism. In line with this
argument, He and Feng (2012) suggest that Chinas diplomacy is also re-
sponding to its expanding national interests that is a consequence of its
rising economic and political international status. Therefore, “it is nor-
mal for China to formulate new foreign policies compatible with the new
power conguration in the international system” (HE; FENG, 2012, p.
636). Furthermore, since 2010, US growing interest and presence in East
Asia under the Obama Administration and the Rebalance to Asia policy,
generated feelings of reactive insecurity in Beijing, which also fueled a
more condent posture (SCOBELL; HAROLD, 2015; D’HOOGHE, 2014).
But according to another line of authors, it was domestic rather than ex-
ternal factors, which had more inuence on China’s more assertive in-
ternational behavior. In this perspective, Liao (2018) identies three sets
of domestic conditions: conict among bureaucratic agents and political
elites (Peoples Liberation Army, local government ocials and managers
of state-owned enterprises); the surge of nationalism, and the arbitrary
power of policy makers.
One of the most outstanding episodes that evidence China’s more
assertive diplomacy was the government’s reaction to the awarding of
the Nobel Peace Prize to Chinese human rights activist Liu Xiaobo in
2010. Besides forbidding Liu, his family and friends to attend the cere-
mony, Beijing also pressured diplomats from other countries into staying
away from the ceremony. Chinese actions, which included severe eco-
nomic and political sanctions on Norway4, created a negative image of
the government around the world (D’HOOGHE, 2018).
The recent issue with Sweden also reects Chinese stronger dip-
lomatic responses, in retaliation to criticism on human rights records.
4. “China cancelled high-level bilateral
meetings and cultural events, denied
Norwegian official visas, tightened up
on imports of Norwegian products and
in 2012 excluded Norway from the list
of countries that no longer require a
visa for a 72-hour stopover in Beijing”
(D’HOOGUE, 2014, p. 59).
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M. Florencia Rubiolo, Diego Telias Compeção entre China e Estados Unidos na América Lana: evolução, perspecvas e implicações no contexto do COVID-19
The diplomatic row followed the announcement that Gui Minhai, the
Swedish publisher who was kidnapped and imprisoned in China without
a trial, would receive the Tucholsky Prize (OLSON, 2019). The Chinese
Ambassador to Sweden, Gui Congyou, stated on a radio interview that:
We oppose even more resolutely any Swedish government ocials at-
tending the awarding ceremony. It will bring serious negative impacts on
our bilateral friendly cooperation and normal exchanges. We will surely
take countermeasures” (EMBASSY OF THE PEOPLE’S REPUBLIC OF
CHINA TO SWEDEN, 2019).
The COVID-19 pandemic context turned out to be a catalyst to
reinforce this already more assertive and self-condent diplomatic tone.
These reactions emanated both as a response to US and other countries’
critics, but also as a tool to shape the discourse over Chinas responsi-
ble power image during the crisis. Chinese diplomats have responded to
criticism in Southeast Asia, Europe and more recently, Latin America.
According to Poling and Tran (2020), “Beijing’s wolf warriors reveal an in-
secure, belligerent China whose assistance rarely comes without a price”.
But rather than insecurity, we understand this behavior reects deeper
self-condence. There is no doubt that Chinas more condent attitude
emanates in a major part from its increasing world inuence and eco-
nomic clout.
In Latin America one example was the controversy between the
Chinese Ambassador to Chile, Xu Bu, with the Chilean representative
Jaime Bellolio after the latter met Joshua Wong, one of the leaders of the
protest in Hong Kong (EL MOSTRADOR, 2019). But before COVID-19
there were not many examples of this type of response. However, in this
new situation, Chinese Embassies have been active in the press not only
promoting its agenda but also confronting dierent opinions.
On the one hand, Chinese embassies and ambassadors have shown
that China is working with the dierent governments in coping with the
virus in close coordination and providing support and sharing experi-
ences. This type of cooperative initiatives, that could be tagged as soft
power, try to build the idea that China has been transparent and respon-
sible, notifying the situation to the World Health Organization and crit-
icizing opinions that spread xenophobia or fear. With phrases like “Los
Hermanos sean unidos” (brothers be united) (ÁMBITO, 2020), the CCP is
portraying its will to unconditionally support Latin American countries.
On the other hand, embassies throughout the region have re-
sponded to any kind of perceived rhetorical attack on China. One exam-
ple was in Bolivia, where the Ambassador Huang Yazhong replied to an
article of the colombian journalist Patricia Janiot, that was replicated by
a Bolivian newspaper (TU REPÚBLICA, 2020). Other most known ex-
ample was the response of the Chinese embassy to Eduardo Bolsonaro,
federal Deputy and son of the Brazilian President Jair Bolsonaro, after
he blame China for the pandemia5 (EMBASSY OF CHINA IN BRAZIL,
2020). A third example in the region is the Peruvian case, where the
Chinese Embassy said that Mario Vargas Llosa made ridiculous com-
ments in an article when he stated that the “virus comes from China”
(LA VANGUARDIA, 2020).
5. “As suas palavras são extremamente
irresponsáveis e nos soam familiares.
Não deixam de ser uma imitação dos
seus queridos amigos. Ao voltar de Mia-
mi, contraiu, infelizmente, vírus mental,
que está infectando a amizades entre os
nossos povos”. Retrieved 18 july from:
https://twitter.com/EmbaixadaChina/
status/1240456558007508993?s=20
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 43-62
Although unlike the cases of Sweden or Norway, or more recently
Australia, Latin America has not yet witnessed strong retaliation measures
from China, previous experiences and the increasing assertiveness of Chi-
nese diplomacy, is not to be overlooked by regional leaders. Based on the
economic overdependence almost all countries in the region have on Chi-
na, the potential use of economic sanctions or threats to use it, is a possible
scenario, one in which Latin America will have no tools to confront.
Final remarks
The rise of China and its consequences for the international system
are outstanding issues in international relations studies in the 21st century.
In that sense, the latest manifestation of the chinese ‘going global’ strategy,
a deepening and extension of it, is President Xi Jinping’s Belt and Road Initia-
tive (GARLICK, 2020). This project has been considered one of the largest in
China’s foreign policy in modern history and from a domestic perspective,
BRI represents a comprehensive and massive strategy oriented primarily to
function as a catalyst for Chinese economic growth (TAUBE; LI, 2020).
It is interesting to note that while there is some conviction that Chi-
nas growth will inevitably bring consequences for the global order, there
are no major agreements beyond this idea (ZHANG, 2016). The COVID-19
pandemic and Trump’s response has made this competition evident, exac-
erbating the same forces that had been shaping the policies of these great
powers in the last few years. In that context, Latin America is a key region
to analyze how relations with China have progressed, rst through trade,
then on investment and nances, to nally understand the Belt and Road
Initiative in the region and how the pandemic COVID-19 impacts on it.
As aforementioned, it should be noted that these last two aspects are only
part of a much broader competition between the United States and China.
Our analysis of China-Latin America relations in the context of the
pandemic addresses Chinese donations (the so-called diplomacy mask),
a Chinese diplomatic assertiveness and a race for the narrative between
China and the United States. It is important to highlight that, as we have
mentioned, wolf warrior diplomacy is not something so new, and there
are already antecedents prior to COVID-19. However, in Latin Ameri-
ca we had not yet witnessed this type of “confrontations” and responses
from China. Does this armative diplomacy imply then that the aid of
the diplomacy mask comes with a price for Latin America? In turn, the
soft power that China has built in Latin America is damaged after the
pandemic and this assertive diplomacy? These aspects will also inevitably
become central concerns for the region in the years to come.
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63
Carlos Monge Arístegui Perspecvas teóricas predominantes na abordagem da China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e integração
Perspectivas teóricas predominantes
na abordagem da China em relação
às RI como disciplina: entre autonomia
e integração
Predominant theoretical perspectives on China’s approach
to IR as a discipline: between autonomy and integration.
Perspectivas teóricas predominantes en la aproximación
de China a las RI como disciplina: entre la autonomía y la
integración
Carlos Monge Arístegui1
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2021v9.n3.p63
Recebido em: 20 de abril de 2021
Aprovado em: 16 de julho de 2021
R
A ascensão da República Popular da China (RPC) no sistema internacional
tem efeitos e conseqüências em todas as áreas de estudo, incluindo as Relações
Internacionais (RI) como disciplina. Após um período inicial de isolamento,
após a Revolução liderada por Mao Tse Tung em 1949, o processo de Reforma e
Abertura liderado por Deng Xiaoping, a partir de 1978, trouxe a academia chine-
sa de volta a um campo de estudo dominado por estruturas teóricas do mundo
anglo-saxão. Esta reaproximação signicou que os estudiosos chineses experi-
mentaram um período de absorção acrítica deste conhecimento, denominado
como “aprendizagem e cópia”, no qual os mesmos debates que haviam ocorrido
no Ocidente foram incorporados sem muito questionamento. Entretanto, na
segunda metade dos anos 80, surgiram vozes que levantaram a necessidade de
uma perspectiva chinesa na abordagem destas questões. Assim, uma literatura
própria foi gerada em torno deste assunto, e nos anos 2000 duas perspectivas
integradoras apareceram e se consolidaram: as de Yan Xuetong e Qin Yaqing,
que propuseram, com ênfases e intenções diferentes, ligar a teoria ocidental de
RI com o pensamento clássico chinês. Outro autor, Zhao Tingyang, arma que
a visão do mundo Tianxia ( Tudo o que há sob o céu) da era pré-Qin (2100 a 221
a.C.) pode ser uma possível alternativa ao paradigma Westfaliano. O trabalho a
seguir analisa essas perspectivas, bem como as novas abordagens epistemológi-
cas que implicam assumir esse desao.
Palavras-chave: Teoria das Relações Internacionais. Escola Chinesa de Relações
Internacionais. RI com características chinesas. Abordagens epistemológicas.
Tianxia.
1. Doutorando em Relações Internacio-
nais no Programa de Pós-Graduação
San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP,
PUC-SP). Mestrado em Comunicação
e Ciência Política, Universidad Mayor,
Santiago do Chile. Bacharel em Ciências
da Informação pela Universidade Nacio-
nal de La Plata, Argentina, e Jornalista
pela Universidade do Chile. E-mail:
cmongea@gmail.com
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 63-89
A
The rise of the People’s Republic of China (PRC) in the international system has
eects and consequences in all areas of study, including International Relations
(IR) as a discipline. After an initial period of isolation, after the Revolution led
by Mao Zedong, in 1949, the process of Reform and Opening, led by Deng
Xiaoping, from 1978, made the Chinese academy reconnect with a eld of
studies with predominance of theoretical frameworks from the Anglo-Saxon
world. This supposed that the Chinese researchers had a stage of uncritical
absorption of this knowledge, classied as “learning and copying”, in which
the same debates that have taken place in the West were incorporated, without
further questioning. However, in the second half of the 1980s, voices emerged
that raised question’s for a Chinese perspective in addressing these issues. Thus,
its own literature developped toward this topic, and in the 2000s two integrative
views appear and are consolidated: those of Yan Xuetong and Qin Yaqing, who
propose, with dierent emphases and intentions, to link the Western Theory of
IR with classical Chinese thinking. Another author, Zhao Tingyang, claims the
Tianxia (All-under-Heaven), worldview of the pre-Qin era (2100 to 221 BC), as a
possible alternative to the Westphalian paradigm. The following work analyzes
this phenomenon, as well as the new epistemological approaches that assuming
this challenge implies.
Keywords: Theory of International Relations. Chinese School of International
Relations. RI with Chinese characteristics. Epistemological approaches. Tianxia.
R
El ascenso de la República Popular China (RPCh) en el sistema internacional tie-
ne efectos y consecuencias en todas las áreas de estudio, incluidas las Relaciones
Internacionales (RI) como disciplina. Tras un inicial período de aislamiento, lue-
go de la Revolución liderada por Mao Zedong, en 1949, el proceso de Reforma y
Apertura, conducido por Deng Xiaoping, a partir de 1978, hizo que la academia
china volviera a reconectarse con un campo de estudios dominado por marcos
teóricos procedentes del mundo anglosajón. Esta reaproximación supuso que
los especialistas chinos vivieran una etapa de absorción acrítica de esos conoci-
mientos, catalogada como de “aprendizaje y copia”, en la que se incorporaron
los mismos debates que se han dado en Occidente, sin mayores cuestionamien-
tos. Sin embargo, en la segunda mitad de los 1980, surgen voces que plantean la
necesidad de una perspectiva china en el abordaje de estos asuntos. Se genera,
así, una literatura propia en torno a esta temática, y ya en los 2000 aparecen y se
consolidan dos miradas integrativas: las de Yan Xuetong y Qin Yaqing, quienes
proponen, con distintas énfasis e intenciones, vincular la Teoría occidental de
RI con el pensamiento clásico chino. Otro autor, Zhao Tingyang, reivindica la
Tianxia (Todo lo que hay bajo el Cielo), cosmovisión de la era pre-Qin (2100
a 221 a. C.), como una alternativa posible frente al paradigma westfaliano. El
siguiente trabajo analiza este fenómeno, así como los nuevos enfoques episte-
mológicos que implica asumir este desafío.
Palabras clave: Teoría de las Relaciones Internacionales. Escuela China de Rela-
ciones Internacionales. RI con características chinas. Enfoques epistemológicos.
Tianxia.
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Carlos Monge Arístegui Perspecvas teóricas predominantes na abordagem da China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e integração
“Theory is always for someone and for some purpose (Robert Cox)”.
Introducción
El ascenso de la República Popular China (RPCh), en particular, y
de Asia, en general, en el escenario global, en el contexto de la pos Guer-
ra Fría y el mundo multipolar, genera tensiones también en el campo de
la teoría de las Relaciones Internacionales (RI), donde aparecen, cada vez
con mayor frecuencia, una serie de voces que plantean que es urgente y
necesario incorporar las visiones que, desde ese ámbito geográco espe-
co, se vienen formulando para entender la política mundial. Si es efec-
tiva la proposición de COX (1981), citada en el epígrafe de este trabajo,
en el sentido de que “la teoría es siempre para alguien y para algún pro-
pósito” y que la teoría no existe como una abstracción en sí misma, sino
que es un espacio en disputa donde se juegan demarcaciones y pugnas
de poder, era evidente que esta problematización debía salir, en algún
momento, a la luz pública. Según CUNNINGHAM-CROSS (2011, p. 1), la
teoría y la teorización es “un sitio de práctica cultural, un lugar donde las
fronteras del conocimiento aceptable de/acerca del mundo son negocia-
das”. En suma, “un sitio de la política”, y como tal sometido a las normas
que este campo supone. En ese contexto, es obvio que el debate sobre la
aparición de una Escuela China de RI o de una RI “con características
chinas” presenta un desafío no menor a la disciplina global, tal como la
conocemos, al cuestionar sus bases ontológicas y epistemológicas, y po-
ner en tela de juicio su hegemonía, validez y alcance universal.
Un marco referencial básico que nadie, sin duda, podrá ignorar es
que el propio desarrollo de las RI, como disciplina, está asociado con cir-
cunstancias políticas determinadas. No es casual, por cierto, que los estu-
dios sistemáticos en esta área hayan nacido en el Reino Unido, después de
la Primera Guerra Mundial, y que estos se hayan propagado, en forma ex-
ponencial, en EE.UU., una vez que, al cabo de la Segunda Guerra Mundial,
este país emergiera como la superpotencia planetaria indiscutible. La pre-
dominancia anglosajona es tan grande que un autor como HOFFMANN
(1977) llegó a identicar a las RI como “una ciencia social estadouniden-
se”2. E incluso, como apunta NOESSELT (2012, p. 5), “después del nal de
la Guerra Fría, la descolonización a gran escala y la formación de nuevas
potencias regionales en el hemisferio ‘no occidental, las perspectivas eu-
roatlánticas continúan dando forma a la investigación de RI en todo el
mundo (WAEVER,1998; SMITH, 2000; CRAWFORD; JARVIS, 2001). En
tales condiciones, por lo tanto, cuando hay nuevos actores emergentes,
como India o China, que cambian de status, dentro del sistema interna-
cional, en forma acelerada, es lógico esperar que se produzca un doble
movimiento en su modo de inserción en las RI: por un lado, una fuerte
interacción con el mainstream csico, ya que necesitan tener dominio de
las reglas del juego con el n de anticipar “posibles respuestas y reacciones
de otros actores y así desarrollar su estrategia externa”; y por otra par-
te, “además de utilizar la teoría como guía para la acción, estas potencias
emergentes probablemente también intentan generar sus propios con-
2. El crecimiento de la disciplina “no
puede separarse del papel de los
americanos en los asuntos mundiales
después de 1945” (HOFFMANN, 1977,
p. 47). Traducción libre del autor, como
en todas las citas sucesivas que se
mencionan a continuación en este tra-
bajo, tomadas de textos originalmente
escritos en inglés.
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 63-89
juntos de teorías normativas sobre las RI, extraídas de sus propias tradicio-
nes histórico-losócas, para denir y constituir el orden internacional del
futuro (ALAGAPPA, 2011, p. 222, apud NOESSELT, 2012, p. 5).
En consecuencia, añade Noesselt, “el ‘ascenso de China’ también po-
dría implicar un aumento de la ‘Teoría China de RI’ (YIWEI, 2009, p. 103).
Y el hecho de intentar una aproximación al debate que en torno a esta te-
mática se está dando en China y en el mundo entero, no sólo tiene interés
y relevancia desde el punto de vista académico sino también político, dado
que será a la luz de estas discusiones, y de las cosmovisiones y diseños de
escenarios que a partir de estos debates se vayan perlando, que se toma-
n las decisiones de política internacional más importantes en las nuevas
potencias emergentes. El por qué de la existencia y la necesidad de estas
exploraciones teóricas desde el mundo no occidental no necesita mayores
justicaciones. Para ACHARYA (2000, p. 2), la falla crítica de la disciplina
RI radica en su “persistente etnocentrismo”. ACHARYA & BUZAN (2010,
p. 1), siguiendo a GOLDGEIGER & MCFAUL (1992), sostienen que:
Hoy, el equivalente contemporáneo de la “buena vida” en las relaciones interna-
cionales –paz democrática, interdependencia e integración y orden instituciona-
lizado, así como ‘las relaciones normales y resultados calculables’ se encuentran
principalmente en Occidente, mientras que los países no occidentales siguen
siendo los reinos de la supervivencia.
El sesgo discriminatorio es más que evidente, y por ello ha creci-
do, desde los márgenes, una literatura que, según Cunningham-Cross,
subvierte los cánones de la disciplina. Es difícil establecer una genealogía
exacta del momento en que este debate aora con fuerza a nivel global.
No obstante, es posible decir que un hito sustancial se produce en 2007,
cuando una edición de International Relations and the Asia-Pacic (IRAP)
fue dedicada a una investigación crítica cuyo objetivo era explicar la pre-
ponderancia de la teoría RI occidental y la llamativa ausencia de enfoques
no occidentales (ACHARYA & BUZAN, 2007). Los textos publicados allí
aparecieron en forma de libro recopilatorio en 2010, y estuvieron enfoca-
dos en analizar las bases institucionales y las estructuras socio-históricas
que determinan e inuyen el contexto de los estudios de RI, en los casos
de China, India, Japón, Indonesia y el Sudeste Asiático. Otros autores, en
paralelo, se propusieron estudiar las formas y modalidades hegemónicas
con las que se impartía esta disciplina a nivel mundial. Así es como TICK-
NER & WÆVER (2009) examinan a fondo, y desde diversas perspectivas,
el notorio “sesgo occidental” presente en la enseñanza de las RI, con el
examen de quince casos especícos que abarcan desde Irán hasta África,
Europa central y del Este, el mundo árabe y Latinoamérica. En su resu-
men indican:
Se ha aceptado ampliamente que la disciplina de Relaciones Internacionales (RI),
irónicamente, no es “internacional” en absoluto. Los académicos de RI son parte
de una disciplina global con un único objeto de estudio compartido: el mundo,
y sin embargo, la teorización gravita en torno a una serie de conceptos que han
sido concebidos únicamente en EE.UU.. El propósito de este libro es reequilibrar
este “sesgo occidental” examinando las formas en las que la RI ha evolucionado y
se practica en todo el mundo.
Ambos abordajes –el de Acharya y Buzan, y el de Tickner y Wæ-
ver– pueden ser catalogados como los primeros intentos organizados y
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Carlos Monge Arístegui Perspecvas teóricas predominantes na abordagem da China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e integração
sistemáticos de una serie de esfuerzos pos-positivistas, tendientes a pro-
blematizar estos temas y escapar al “parroquialismo” anglosajón que pa-
recía prevalecer sin contrapesos. Aunque los cuestionamientos al etnocen-
trismo occidental y a la incapacidad de plasmar “una empresa académica
verdaderamente global” datan desde mucho antes. CUNNINGHAM-
-CROSS (2011, p. 2) enumera, entre otros precursores de esta línea ana-
lítica a Holsti,1985, Wæver, 1998, Smith, 2000, Holden, 2001 y Tickner,
20033. En China, en particular, la discusión sobre la posibilidad de una
visión nativa y original de las RI se remonta, en sus primeras expresiones,
a mediados de los años 1980, con elaboraciones más sosticadas y com-
plejas que se empiezan a gestar a partir de 1997 y se amplían en años pos-
teriores4. Existen también contribuciones de observadores occidentales
de China (GEERAERTS & MEN, 2001), y otros aportes académicos que
escasamente dialogan entre ellos. Con todo, los propósitos asiáticos, al
estimular un debate al respecto, son muy claros y denidos. ACHARYA
& BUZAN (2010, p. 3) los resumen así:
Los estados asiáticos tienen interés en que la teoría de las RI hable por
ellos y sus intereses. Ni China ni Japón encajan cómodamente en el
realismo o el liberalismo. China está tratando de evitar ser tratada como
una amenaza para el status quo a medida que aumenta su poder, y las
medidas para desarrollar una Escuela China de RI se centran en este
problema. Japón está tratando de evitar ser una gran potencia “normal”
y su condición de “Estado comercial” o “potencia civil” es una contra-
dicción directa de las expectativas realistas. La ASEAN desafía la lógica
realista, liberal y de la Escuela Inglesa de que el orden lo proporcionan
las grandes potencias locales. Corea del Sur e India tal vez encajen más
estrechamente con los modelos realistas, pero ninguno parece estar se-
guro de qué tipo de lugar quiere para sí mismo en la sociedad internacio-
nal. En la medida en que la teoría de las RI sea constitutiva de la realidad
que aborda, los estados asiáticos tienen un gran interés en ser parte del
juego. Si queremos mejorar la Teoría de las Relaciones Internacionales
en su conjunto, entonces la teoría occidental debe ser desaada no solo desde
adentro, sino también desde afuera5.
Como sea, y aquí seguimos a NOESSELT (2012, p. 5-6), quien tam-
bién ha abordado en profundidad el giro pos-positivista y hasta decolo-
nial, si se quiere, en lo referido a estos asuntos:
… para cerrar la brecha entre “la autorreexión del núcleo” (RI ‘occiden-
tal’)” y “la rebelión de la periferia contra los paradigmas (RI ‘occidenta-
les’)” (Wæver y Tickner 2009: 3), es necesario que no tomemos China (u
otras regiones no “occidentales”) sólo como un campo de juego para las
pruebas teóricas (Ikenberry y Mastanduno, 2003), sino más bien sumer-
girse en los fundamentos intelectuales de la losofía de las Relaciones
Internacionales como se discute en China (…) Aun cuando los debates
en China están fuertemente inuenciados por las tendencias de los
estudios de RI “occidentales”, la armación sobre el establecimiento de
una “Escuela China de RI” o, alternativamente, una teoría “con carac-
terísticas chinas” no es un eslogan vacío. Los marcos indígenas ya están en
construcción6.
Para entender cómo se fue gestando este proceso, es necesario ha-
cer una somera revisión del marco contextual y los condicionamientos
históricos que han inuenciado los diversos tipos de abordajes teóricos
utilizados en China para lidiar con los acontecimientos externos desde
el siglo XIX hasta el presente. Este recorte temporal, absolutamente arbi-
trario, que se ha elegido para llevar adelante este trabajo, no desdeña, sin
3. A esta lista se podría agregar, ade-
más, a AGATHANGELOU & LING (2004),
también mencionados por Cunningham-
-Cross, en su paper. Ambos identifican
a la RI occidental como uma “casa
colonial”, que regula quién está adentro
y quién afuera de sus limites, así como
quiénes ocupan los respectivos lugares
de privilegio.
4. Liang,1997, Song,1997, Zha,1997,
Chan,1997, Chan, 1998, Chan, 1999,
Jisi, 2003 y Qin, 2009 son algunos de
los investigadores chinos, citados por
Noesselt (2012, p. 5), que han incursio-
nado, a su vez, en este terreno.
5. El énfasis es nuestro.
6. El destaque otra vez es nuestro.
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 63-89
embargo, la tradición milenaria de una civilización china, que de algún
modo sigue orbitando sobre los intentos de descifrar el mundo del Im-
perio del Centro (Zhōngyāng dìg), más allá de las rupturas radicales
vividas en épocas recientes, como se verá más adelante.
Desarrollo y evolución de los estudios sobre política
internacional en China
Con el n de ordenar el alisis, se propone una periodización ba-
sada en cuatro etapas de desarrollo destacadas, en la perspectiva de la
construcción evolutiva de una escuela de RI nutrida de aportes externos,
pero también de elementos intrínsecos. A saber: i) Época imperial tardía
y republicana; ii) La era maoísta; iii) El salto cualitativo de Deng Xiaoping
y iv) El encuentro de dos mundos.
Época imperial tardía y republicana. Pocos antecedentes, en ge-
neral, se conocen en Occidente sobre la política exterior de la dinastía
Qing (1644-1911), el último régimen imperial que gobernó en China y
que constituyó, en gran medida, el Estado nacional que hoy reconocemos
como tal. Sólo en uno de los trabajos consultados para esta investigación
(ZHANG & CHANG, 2016) se aborda el período nal de los Qing, cuan-
do la cosmovisión sinocéntrica de la Tianxia (Todo lo que hay bajo el
Cielo), establecido en la dinastía Zhou (1066 a. C.-221 a. C.)7, se ve con-
frontada con la de las potencias occidentales y, en particular, el Reino
Unido8. Zhang y Chang (2016: 7) señalan que esto ocurrió incluso antes
del estallido de la primera Guerra del Opio (1839-1842), con la coacción a
rmar Tratados Desiguales y la introducción de este estupefaciente, des-
conocido em China, como moneda de pago de mercancías9.
El comisionado imperial Lin Zexu hizo todo lo posible para traducir los párrafos
de Le Droit des gens (El derecho de las naciones) de Vattel para su referencia y
“siguió el derecho internacional al pie de la letra al denunciar el contrabando
de opio y exigir su destrucción en 1839 (LIU, 2004, p. 119)”. Las negociaciones
políticas e inclusive translinguísticas en la elaboración del Tratado de Paz después
de la segunda Guerra del Opio de 1858-1860 sobre la prohibición del uso de la pa-
labra china yi (no chinos/ bárbaros) en todas las comunicaciones ociales entre
los gobiernos Qing y británico, y en la traducción del texto de Henry Wheaton,
Elementos del derecho internacional, ambos captados brillantemente por Lydia Liu
(2004), son dos ejemplos de confrontación entre el orden internacional westfalia-
no y la Tianxia china en el proceso de transformación de la China imperial en un
estado westfaliano.
Una serie de pensadores chinos, de la fase tardía de los Qing, se
esforzaron por comprender las claves del gran choque civilizatorio que
suponía el encuentro forzado de una pujante potencia industrial en ex-
pansión, como Gran Bretaña, con un país mayoritariamente agrario y
auto-centrado, como era China. Para ZHANG & CHANG (2016, p. 7):
… la inuencia ideacional más importante ejercida por lo internacional
para la transformación de la China moderna es la del Dr. Sun Yat-Sen,
en particular su proclamado Sanmin Zhuyi (Tres Principios del Pueblo),
es decir, minzhu zhuyi (nacionalismo/autodeterminación nacional),
minquan zhuyi (derechos de las personas/democracia) y minsheng zhuyi
(medios de vida de las personas/socialismo)”10.
7. Convencionalmente, hoy en China se
dice que la dinastía Zhou duró desde
1045 a 221 a. C., pero aquí se ha prefe-
rido seguir lo propuesto por XUETONG
(2019), que la sitúa entre 1066 y 221 a.
C. Otros autores la enmarcan en el perí-
odo 1122-221 a. C. (véase, por ejemplo,
FRANKE & TRAUZETTEL, 1968).
8. La denominación Tianxia es una
abreviatura de un concepto más amplio
–Todo lo que hay bajo el Cielo– que en
chino simplificado (hànyǔpīnyīn) se
escribe de la siguiente forma: Dōu zài
tiānkōng xià.
9. Hay incluso una célebre carta de Lin
Zexu a la Reina Victoria, denunciando
este infame comercio.
10. Zhang y Chang citan como referen-
cia anterior, en este párrafo, a WELLS
(2001).
69
Carlos Monge Arístegui Perspecvas teóricas predominantes na abordagem da China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e integração
Prosiguiendo esta revisión de la convulsionada etapa republicana
(1912-1949), la cual suele ser pasada por alto por los estudiosos oriundos
de China continental11, es pertinente decir que cursos de estudios inter-
nacionales fueron impartidos por las tres Universidades chinas existentes
entre los 1920 y los 1930: Tsinghua y Peking University, en Beijing, y St.
John’s University, en Shanghái. En la primera se dieron cursos sobre la
Liga de las Naciones, derecho internacional, diplomacia y política japo-
nesa12. Un aspecto signicativo de los mismos es que fueron ofrecidos
por académicos chinos capacitados y retornados desde EE.UU., o esta-
dounidenses residentes en China. Uno de ellos fue Quincy Wright, pre-
sidente de la Asociación Americana de Ciencia Política (1948-1949) y de la
Sociedad Americana de Derecho Internacional (1955-1956). Visto desde
esta perspectiva, acotan Zhang y Chang, “el crecimiento de los estudios
internacionales pos-1979 no es más que la apropiación de la RI estadouni-
dense restaurada.
La era maoísta. El 1 de octubre de 1949 se proclama la República
Popular China, tras producirse el triunfo de Mao Zedong y el Ejército
Popular de Liberación (EPL) sobre el Guomidang de Chiang Kai-shek,
en una larga guerra civil que duró 22 años. Los cambios en el área de la
enseñanza de RI serán trascendentes. En 1949, la Universidad del Pueblo
de China (en mandarín, Renda) contaba con un departamento de Asuntos
Extranjeros (Guowai Shi), que recién en 1955 ascendería al nivel de fa-
cultad13. Luego, en 1963, las universidades de Beijing y Fudan (Shangi)
crearon departamentos de Política Internacional (Guoji Zhengzhixue)14.
En esa etapa, las editoriales estatales sólo publicaban, además de litera-
tura marxista, obras de autores occidentales ligados al realismo político,
la geopolítica o la futurología. Xinning (2001: 62), cita, entre ellos, a Kis-
singer, Kennan, Spykman y Herman Kahn. Para MALENA (2016, p. 224):
En ese período tampoco existió en China una teoría de las RR.II. propiamente
dicha. Se acudía en su lugar a interpretaciones de los puntos de vista de Marx,
Engels, Lenin, Stalin y Mao Zedong sobre el panorama internacional. Los
libros de texto en boga sobre política internacional de la época eran Lenin y
Stalin sobre China (Pekín, 1953), Stalin sobre la Situación Internacional de la Post-
guerra (Pekín, 1954), Citas del Camarada Mao Zedong sobre Temas Internacionales
(PEKIN, 1958), Marx y Engels sobre el Colonialismo (PEKIN, 1962), y Stalin sobre
la Situación Internacional y la Política Exterior Soviética (PEKIN, 1964) (XIN-
NING, 2001, p. 63). En pocas palabras, los cursos de RR.II. de las universida-
des chinas se dedicaban a explicar las teorías marxistas sobre el imperialismo,
el colonialismo, la guerra y la paz”.
En esta fase inicial o “embrionaria” de los estudios de RI en Chi-
na, la mayoría de los análisis coyunturales fueron trabajos de poco peso
teórico (YAQING, 2010, 2007)15. El marxismo-leninismo proporcionaba
el instrumental analítico que permitía una interpretación o decodica-
ción propia de la política internacional (YIWEI, 2009)16. Se esbozaron, con
todo, algunos conceptos políticos más generales cuya base principal eran
formulaciones realizadas por Mao Zedong. Entre ellas, las más destaca-
das fueron sus teorías sobre las “zonas intermedias” (YE, 2004; PU, 2004)
y “los Tres Mundos” (YEE, 1983). En un plano más operacional y práctico,
el discurso ocial maoísta ubicaba a China como un país en lucha con-
tra los “dos imperialismos”, el estadounidense y el “social-imperialismo”
11. No es un dato trivial, en este
sentido, mencionar que Zhang y Chang
trabajan fuera de la RPCh. El primero, en
la Universidad de Bristol, Reino Unido,
y el segundo, en la National Taiwan
University.
12. Para más información sobre esta
etapa histórica, véase PENG (2014).
13.Según NOESSELT (2012, p. 12),
este relanzamiento de la investigación
en RI a mediados de los 1950 está
relacionado con la incipiente disputa
sino-soviética.
14. Noesselt suma a esta nómina a la
Universidad Renmin. Las universidades
se dividieron distintos campos de estu-
dio. “La Universidad Renmin se centró
en los países socialistas; La Universidad
de Beijing analizó los países en desar-
rollo en África, América Latina y Asia; y
la Universidad de Fudan tenía el único
instituto especializado en la política de
las naciones capitalistas occidentales
(citando como referencia a YIWEI, 2009,
p. 105)”.
15. Citado por NOESSELT (2012, p. 13).
16. Ibídem.
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soviético, y un adalid de los países del Tercer Mundo y las naciones des-
colonizadas. Es en esa época, de dura radicalización y combate en todos
los frentes, donde el entonces primer ministro Zhou En-lai divulga, en
1954, en una visita a India, los cinco principios de la Coexistencia Pacíca,
que se convertirían en un ancla fundacional de la política exterior china
moderna, y que aún hoy son mencionados en forma recurrente. Los cinco
principios en cuestión son: respeto mutuo por la soberanía y la integridad
territorial, la no agresión mutua, la no interferencia en los asuntos inter-
nos de otros países, igualdad y benecio mutuos y la coexistencia pacíca.
El salto cualitativo marcado por Deng Xiaoping. Tras la muerte de
Zhou En-lai y Mao Zedong, en 1976, la dirección del PC chino vive gran-
des convulsiones. Hua Guofeng, declarado por Mao su heredero, pone n
a la Revolución Cultural y saca de escena a la “Banda de los Cuatro”, a la
que se culpa de todos los excesos cometidos en ese período. Deng, que
había sido purgado antes al ser acusado de “derechista”, es rehabilitado
en julio de 1977 y poco a poco toma las riendas del Partido para impulsar
una política de Reforma y Apertura. Recupera puestos importantes y en
diciembre de 1978, en el XI Congreso del PCCh, refuerza su control sobre
el mismo. 1979 es el año del punto de quiebre en que se aceleran las refor-
mas, a partir de que el primero de enero EE. UU. reconoce ocialmente a
la RPCh y congela sus vínculos con Taiwán.
Tras ese paso, Deng visita EE. UU., donde se entrevista con Jimmy
Carter y se celebra la reanudación de relaciones diplomáticas. El campo
ya está libre para llevar a cabo las “Cuatro Modernizaciones” —econo-
mía, agricultura, desarrollo cientíco y tecnológico y defensa— y promo-
ver un ambicioso plan de liberalización del sistema económico, en forma
paulatina pero sostenida. En 1980, Zhao Ziyang, un cercano aliado de
Deng, reemplaza a Hua como Primer Ministro, y otro adepto a él, Hu
Yaobang, en 1981, lo sustituye como presidente del Partido. Finalmente,
el propio Deng asume, ese año, el puesto de la jefatura de la Comisión Mi-
litar Central del PCCh, el último espacio de poder que le quedaba a Hua
Guofeng, su enemigo jurado, en la nomenklatura partidaria.
¿Cómo incidió este viraje copernicano en el estudio de la política
internacional en China? Se pueden distinguir al menos dos planos: de una
parte, se produjo una “primavera intelectual, cuando la comunidad aca-
démica comenzó a disfrutar de lo que MALENA (2016, p. 224), denomina
una era de mayor estabilidad. Sus síntomas más evidentes fueron “la
reapertura de instituciones que en la etapa previa habían sido clausura-
das, un ambiente de cierta libertad académica, la llegada de especialistas
extranjeros con la nalidad de dictar cursos y el ingreso de considerable
cantidad de obras del exterior”. Pero, a la par de ello, se puso énfasis en
el primero de los cinco principios de la Coexistencia Pacíca: “el respeto
mutuo de la soberanía y la integridad territorial” (MALENA, 2005: 107),
con una visión propia de la escuela realista de RI, en el sentido de que la
soberanía es inalienable y “debe preservarse del ejercicio de ‘políticas de
poder’ (XUETONG, 1996, p. 14)”.
De hecho, Deng (1993, p. 331) sostuvo que “los derechos nacionales
(guoquan), entendidos básicamente como derecho a la soberanía y a la
seguridad nacional, deben ser nuestra prioridad. En esa perspectiva, y
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Carlos Monge Arístegui Perspecvas teóricas predominantes na abordagem da China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e integração
dado que los países interactúan en el escenario global en función de pre-
servar sus intereses, “los conictos se solucionarán y el mundo goza
de paz”. Es claro, por tanto, que la liberalización como estrategia de de-
sarrollo, aparece connada exclusivamente al campo económico, y no se
proyecta al campo político e ideológico, en la visión de Deng, el “Pequeño
Timonel, quien condujo la que para algunos (HARDING, 1987) fue la
“Segunda Revolución” china. En ese sentido, conviene tener presente lo
que advierten ZHANG & CHANG (2016, p. 5):
Es el entierro de Mao (BAUM, 1994), metafóricamente, lo que resultó decisivo
para crear un espacio intelectual y asegurar oportunidades institucionales para
que la disciplina de las RI echara raíces, posiblemente por primera vez, en China.
Sin embargo, su crecimiento todavía tiene que luchar con condiciones políticas e
intelectuales a menudo represivas, la (auto) censura y el control político bajo un
gobierno autoritario, lo cual no siempre favorece la producción de conocimiento.
Lo cierto es que entre 1949 y 1979, la China revolucionaria viv
un período de “aislamiento furioso” (NIXON, 1967; ZHANG, 1998)17 y
de autoarmación en la escena internacional, del que sólo empezó a salir
cuando Mao y Zhou En-lai dieron los primeros pasos tendientes a pro-
ducir un “deshielo” de cara a Occidente, que tuvo su momento cumbre
entre diciembre de 1978 y enero de 1979. Así, entonces, y ya con Deng rea-
pareciendo desde el ostracismo al que estuvo relegado, se fue gestando
un espacio propicio para la reconstrucción de universidades e institutos
de investigación que estuvieron cerrados o virtualmente paralizados du-
rante la etapa más furibunda de la Gran Revolución Cultural Proletaria,
que se extendió por diez años (1966-1976). Un espacio en el que, no está de
sobra recalcarlo, tampoco se cedió terreno en lo que dice relación con un
férreo control estatal y partidario a través de la incorporación y vigencia
del concepto de “interés nacional, entendido como “la voluntad de la na-
ción en su conjunto (SHOUDE & YINXIAN, 1994, p. 43), la cual “incluye
tanto a los gobernantes como a los gobernados”.
En 1985, se abren los primeros debates internos en Beijing con res-
pecto a la Teoría de las RI. La Asociación China de Historia de las RI
organiza un seminario destinado a estudiar la herencia del marxismo en
este ámbito y a proyectar y construir los marcos teóricos y referenciales
que permiten desarrollar esta disciplina de forma profesional y moderna
(YAQING, 2013, p. 68)18. Ese mismo año, el Comité Central del PCCh
emitió una serie de instrucciones sobre la Reforma de la Educación que
incluyó la implementación de un curso obligatorio en todas las univer-
sidades sobre “Política y Economía Mundial y Relaciones Internaciona-
les (MALENA, 2005, p. 105)19. En paralelo, se abren las puertas para que
China y el mundo occidental, reconocida cuna y cauce principal de las RI
como disciplina consolidada, dejen de estar de espaldas y se reconecten
después de tres décadas de aislamiento y de muros ideogicos. China
envía oleadas de estudiantes de posgrado a los centros de formación más
reconocidos de Occidente en esta área y empieza a publicar a los autores
que han ido construyendo el arsenal teórico que la conforma como una
especialidad diferenciada y única.
El encuentro de dos mundos. Varios estudiosos chinos se han ocu-
pado de hacer una historia o reseña de ese choque cultural, cuyas rever-
17. Referenciados por ZHANG & CHANG
(2016, p. 5).
18. “La Asociación Nacional de Historia
de las Relaciones Internacionales se
estableció en 1980 como la primera
asociación académica nacional en este
campo, que cambió su nombre por el de
Asociación Nacional China de Estudios
Internacionales (ANCEI) en 1990, con el
fin de satisfacer la creciente demanda
por desarrollar las Relaciones Interna-
cionales como una disciplina separada”.
19. Para contar con una bibliografía
apropiada que complementara este
curso, “se publicaron posteriormente
casi un centenar de nuevas obras, entre
las cuales alcanzaron mayor renombre
Política y Economía Mundial Contem-
poránea de Du Houwen y Feng Tejun, y
Política y Economía Mundial y Relacio-
nes Internacionales Contemporáneas de
Feng Tejun”.
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 63-89
beraciones se proyectan hasta hoy, en el campo de las RI, entre la teoría
y la práctica china, que hasta 1979 había estado dominada por el pensa-
miento de Mao y otros clásicos del marxismo, y la Teoría de las Rela-
ciones Internacionales (en adelante, TRI), en su vertiente anglosajona y
gestada por autores como E. H. Carr y otros. Xinning, Shoude, Yiwei, Yan
y Yizhou son algunos de los nombres que guran en la lista de los acadé-
micos chinos más notables que se han ocupado de estos temas. Pero es tal
vez YAQING (2013, p. 70) quien ha ofrecido una de las mejores síntesis de
esta fase, la del encuentro tumultuoso de dos mundos:
En 1981, apareció Dangdai Xifang Guoji Guanxi Lilun Jianjie (Teoría contem-
poránea de Relaciones Internacionales occidentales: una breve introducción)
en International Studies, lo que constituyó el primer artículo que introducía
TRI occidental desde que comenzó el proceso de reformas. En la década
de los ochenta se publicó Dangdai Meiguo Guoji Guanxi Lilun Liupai Wenxu-
an (Lecturas escogidas de Teoría de Relaciones Internacionales americana
contemporánea), que supuso una de las primeras obras que intentó introducir
TRI americana a los académicos chinos. Incluía capítulos traducidos de Hans
Morgenthau, Karl Deutsch, Kenneth Waltz, Stanley Homann, Robert O. Ke-
ohane y Joseph S. Nye. El clásico de Morgenthau, Politics Among Nations, fue
traducido al chino en 1990, y su realismo político resultó atractivo a muchos
académicos de Relaciones Internacionales en China. Los académicos realistas
en China utilizaron este enfoque y comenzaron a criticar el fervor ideológico
de la ‘Revolución Cultural’”.
Desde entonces hasta hoy, mucha agua ha corrido bajo los puentes
y la relación entre las RI chinas y las RI mainstream ha provocado una
verdadera “explosión demográca”, en lo que se reere a la multiplicación
de los lazos e interacciones entre ambas. Para ejemplicarlo, ZHANG
& CHANG (2016, p. 3), toman como referencia trabajos de XU, 2014 y
MAGANN, 2014, que dan cuenta de este crecimiento exponencial de la
disciplina en China.
El Informe del Índice Global Go to Think Tanks de 2013 publicado por el Pro-
grama de Think Tanks y Sociedades Civiles de la Universidad de Pennsylvania
contó 426 think tanks chinos de los 6,826 think tanks del mundo, la segunda
mayor cantidad de think tanks del mundo, solo después de Estados Unidos (…)
La comunidad académica de RI de China se ha convertido, sin duda, en una de
las ramas nacionales más dinámicas y con mayor crecimiento de la comunidad
epistémica de RI global, tanto en términos de número de investigadores como,
cada vez más, en términos de resultados de publicaciones. El ascenso de China
demuestra ser trascendental para estimular aún más la creatividad intelectual y la
producción de una RI imaginativa e innovadora en China.
Más aún: los académicos chinos han pasado rápidamente de una
primera etapa de incorporación de conocimientos, a una segunda fase de
copia” (en el sentido menos vulgar del término)20, para ir adentrándose,
a paso acelerado, en una tercera etapa de elaboración de desarrollos teóri-
cos propios. “El crecimiento cuantitativo ahora se complementa cada vez
más con el cambio cualitativo, subrayan ZHANG & CHANG (2016, p.
3-4), basados en YANG, 2012. “Ha habido un movimiento consciente des-
de los esfuerzos simples dirigidos a la adquisición de conocimientos so-
bre RI desde Occidente hasta los esfuerzos intencionados y coordinados
destinados a la producción y creación de conocimientos de RI en China”.
Y los datos conrman este upgrade. El caso de Tang Shiping, un scholar
de la Universidad de Fudan, en Shangi, que obtuvo el premio al me-
jor libro 2015 de ISA, por La evolución social de la política internacional,
20. Ver periodización de YIWEI (2009),
más adelante.
73
Carlos Monge Arístegui Perspecvas teóricas predominantes na abordagem da China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e integração
publicado por Oxford University Press, es una clara demostración de la
verdad de este aserto21.
Ahora bien, antes de pasar al próximo apartado de este artículo,
que dice relación con los debates domésticos que se han generado en
China entre representantes de corrientes que ofrecen diversos modos
de leer y decodicar al mundo, y de analizar luego la posibilidad de la
concreción de una Escuela China de RI, no está de más insistir en el he-
cho de que 1979 –el año en que se da el vamos al proceso de Reforma y
Apertura en la economía (Găigé kāifàng, en mandarín)– marca un antes
y un después en el desarrollo de la RI china. En palabras de ZHANG &
CHANG (2016: p. 8):
Mantenemos, sin embargo, que fue sólo después de 1979 que las Relaciones In-
ternacionales comenzaron a surgir en China continental “como una disciplina
académica consciente de sí misma que intenta comprender y teorizar sobre la
dinámica de la política mundial” (ACHARYA & BUZAN, 2007, p. 293); que la
transformación del mundo intelectual de la RI china después de 1979, con una
comunidad epistémica de RI auto-identicada no tiene precedentes históricos;
que el crecimiento de la RI como una disciplina consciente de sí misma e inte-
grada a la ciencia política es cualitativamente diferente de períodos anteriores;
y que el aprendizaje interactivo e intensivo y el compromiso entre la comu-
nidad epistémica de relaciones internacionales de China y la global no tienen
paralelo. También es sin precedentes la reciente articulación de su ambición
teórica de armar las voces y la experiencia chinas como fundamentos alterna-
tivos en la producción de nuevos conocimientos teóricos que promuevan una
RI verdaderamente global.
El debate metateórico y la posibilidad de una Escuela China de RI: La
periodización propuesta por Qin Yaqing
Al producirse la primera ola de la “invasión” de la Teoría de RI occi-
dental en China, ya sea vía lecturas o a través del retorno de los primeros
especialistas formados en el exterior, se genera una absorción acrítica de
los frameworks de la TRI clásica, aunque esto no es automático ni sincró-
nico en el tiempo. Tal como señala NOESSELT (2012, p. 13), “el campo de
RI en China continúa siendo moldeado por las divisiones que surgieron
en las primeras décadas del período de reforma y que se maniestan en
la controversia sobre la internacionalización/occidentalización versus la
indigenización/sinización de la teoría de RI (GEERAERTS & MEN, 2001,
p. 266). En otros términos, puede decirse que se desata una sorda lucha
entre una “vieja guardia” que permanece aferrada a los principios del ma-
terialismo histórico y dialéctico y una nueva camada de intelectuales que
se lanza a la búsqueda de nuevos paradigmas e instrumentos epistemo-
gicos. Y esa lucha soterrada no asoma de manera abierta y pública sino
hasta los años 1990, que es el período en que, según NOESSELT (2012, p.
13), ya se puede advertir la existencia de un debate en forma:
Aunque los académicos chinos fueron animados por Deng Xiaoping a “recupe-
rar las lecciones perdidas” y ponerse al día con Occidente, la teoría de las RI no
jugó un papel importante en las revistas del área chinas hasta la década de 1990.
Aunque las publicaciones clave de la RI “occidental” se tradujeron al chino y
la comunidad académica las debatió, casi ninguno de estos marcos se aplicó al
análisis de las Relaciones Internacionales en el contexto chino (YAQING, 2009, p.
188-189).
21. “Con la emergencia de una comuni-
dad epistémica auto-consciente de RI
y las crecientes redes regionales y glo-
bales de académicas de RI trabajando
en China, el mundo intelectual de la TRI
China ha cambiado dramáticamente”,
resaltan ZHANG & CHANG (2016, p. 4).
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Un artículo del propio Yaqing, de 2013, al que se ha acudido en este
trabajo con frecuencia, es, a nuestro juicio, el que mejor establece una
periodización capaz de discriminar las fases por medio de las cuales se
fue formando la RI china. Qin Yaqing habla de tres etapas: i) la pre-teóri-
ca (1978-1990); ii) la de aprendizaje teórico –dividida en dos: una, inicial
(1991-2000) y otra de profundización, que se extiende desde 2000 hasta la
fecha–; y iii) la de innovación o construcción teórica, que, en su opinión,
todavía no se había iniciado, pero que ya tenía ciertos cimientos debida-
mente jados (YAQING, 2013, p. 69)22. Para darle un anclaje más rme
a esta periodización y a los encuadres teóricos que de ella se derivan,
Yaqing revisó, como parte de la investigación, que publicó, primero en
inglés y cuatro años más tarde en español, un total de 1.124 papers publi-
cados, entre 1978 y 2007, en las cinco revistas chinas del área de RI más
importantes. A saber: World Economics and Politics, European Studies,
Foreign Aairs Review, International Review y Contemporary Interna-
tional Relations.
Fase pre-teórica
Sobre la primera etapa de esta periodización, DEMIR (2017, p. 96),
siguiendo a YAQING (2007 y 2011), arma lo siguiente:
Durante el período pre-teórico “orientado a la acción”, desde 1949 a 1979, la
principal tarea de los trabajos académicos fue proporcionar información para
las políticas y estrategias exteriores que estaban siendo desarrolladas por los
líderes políticos chinos. En otras palabras, la construcción de la teoría de RI era
un asunto orientado a la acción que solo podían realizar los líderes del Partido
Comunista de China (PCCh).
YAQING (2013, p. 69), en tanto, indica:
Durante esta fase se produjo un intento por usar el marxismo clásico para
interpretar el pensamiento estratégico propuesto por los líderes políticos. Sin
embargo, se llevó a cabo una escasa investigación teórica en un sentido genuina-
mente académico. Las estadísticas muestran que las cinco revistas consultadas
para realizar el análisis publicaron un total de ochenta artículos relacionados con
TRI entre 1978 y 1990, lo que supone una media de seis artículos por año. Por
tanto, parece justo señalar que durante este periodo apenas se hizo énfasis en el
aspecto teórico.
El mismo autor (2013, p. 70) da cuenta, además, que en este período
se suscita una controversia “entre dos diferentes escuelas del marxismo:
Una de ellas, inspirada en el análisis de Lenin del imperialismo, sostenía
que el mundo se encontraba todavía en una era de guerra y revoluci-
ón, mientras que la otra escuela enfatizaba que el marxismo debería
desarrollarse al mismo tiempo que los cambios en la economía y política
internacionales y, por lo tanto, contemplaba a la paz y el desarrollo como
rasgos característicos de nuestro tiempo.
Para estos últimos, “debería concederse prioridad al bienestar de
la nación”23. Vista desde hoy, esta polémica muestra a dos sectores bien
denidos, que suelen acompañar a todos los procesos revolucionarios:
principistas y pragmáticos24. Un debate que también se da en el plano
interno y se articula en torno a denir cl es la mejor estrategia nacio-
nal de desarrollo: si “reformarse y abrirse al exterior o continuar siendo
un país hermético. Triunfa, como se sabe, el pragmatismo y la visión de
22. FENG (2012) divide el mismo período
en cinco fases (citado por DEMIR, 2017,
p. 96). Otra periodización interesante,
también de fuente china, es la de
YIZHOU (2006), quien observa cinco
etapas en el siglo XX, que van desde la
época pre-1949 hasta el de la fase pos-
-Guerra Fría, con el cambio de milenio y
una nueva era en la RI China. Y hay una
cuarta de ZHIWEI (2009), sobre la cual
se abundará luego.
23. DEMIR (2017, p. 97), ofrece otra
aproximación al mismo tema, basado en
lecturas de YAQING (2007 y 2011): “El
principal tema del debate fue si China
debería permanecer como un estado re-
volucionario proletario que se aísla del
resto del mundo, o si debería convertir-
se en un estado abierto, ‘normal’, con
vínculos con la comunidad internacional.
En otras palabras, (...) defensores del
marxismo y el realismo, respectivamen-
te. El resultado final del debate fue la
aparición del realismo como la primera
teoría occidental de RI establecida en la
academia china”.
24. Una polémica similar se vivió, por
ejemplo, en la URSS, tras la muerte de
Lenin, cuando se enfrentaron en una
lucha interna José Stalin y su propuesta
del “socialismo en un solo país” y León
Trotsky, quien promovía la “revolución
permanente” y sin fronteras.
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Carlos Monge Arístegui Perspecvas teóricas predominantes na abordagem da China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e integração
largo plazo de Deng, quien justicó su postura con una célebre frase: “No
importa que el gato sea blanco o negro; mientras pueda cazar ratones, es
un buen gato.
No deja de ser curioso, sin embargo, y digno de alisis, que sea
en plena época de apertura al mundo, a mediados de los 1980, cuando
empiezan a surgir en China –en momentos en que el debate académico
aparecía casi completamente hegemonizado por los marcos referenciales
occidentales, y las posturas epistemogicas se dividían entre el realismo
dominante y un liberalismo institucional en ascenso–, voces pioneras que
comienzan a plantear la posibilidad de una “Escuela China” de RI. En
efecto, “en 1986, la revista Reference about World Economics and Politics
(predecesora de World Economics and Politics), publicó un artículo titu-
lado Nuli Goujian Woguo Ziji de Guoji Guanxi Lilun Tixi (Tratando de
construir una TRI china)” —mencionado por YAQING, 2013, p. 7025—,
que se transforma en referencia inevitable en el área.
En 1987, ocurrió otro evento señero: se realizó en Shangi la I
Conferencia Pan-china de RI, y el tema de la eventual construcción de
una teoría china de las RI estuvo en el centro de la agenda. Huang Xiang,
veterano diplomático y asesor de política externa de Zhou En-lai, quien
era el director del Departamento de Investigación de Asuntos Internacio-
nales, bajo supervisión del Consejo de Estado, propuso la tarea de echar
las bases de una “RI con características chinas”26. Explicó que esta teoría
debería “estar basada en China, enfrentarse al mundo y analizar las leyes
objetivas del desarrollo de los cambios en la política internacional desde
una perspectiva china (HUANG, 1987, citado por REN, 2009)”27. A ren-
glón seguido, Qi Yuanping, vicedirector de la Ocina de Relaciones Ex-
teriores del Comité Central del PCCh, declaró que era “inaceptable” que
China no tuviera su propia teoría” sobre RI (KIM, 2016, p. 70)28.
Ese mismo año, se publica, en consonancia con estas directivas,
un artículo de Cheng Yi titulado Jianli Juyou Zhongguo Tese de Guoji
Guanxixue Tixi (Construyendo una TRI con características chinas). Se-
gún KIM (2016, p. 70), tras la exhortación de Xiang para trabajar en una
TRI china, es Shoude quien demarca, desde la academia, los límites y
propósitos de esta labor:
Inmediatamente después de que Huan Xiang planteara su propuesta en
la primera conferencia de RI en Shanghái, Liang Shoude, jefe del Depar-
tamento de Política Internacional de la Universidad de Pekín, propor-
cionó la primera denición de la teoría de RI con características chinas.
Sostuvo, primero y ante todo, que los intereses nacionales eran el núcleo
de todas las consideraciones. Además, Liang insistió en que dicha teoría,
además de basarse en la visión china del socialismo, también debería
servir a los intereses nacionales de China. El segundo punto principal fue
que el concepto de los medios de producción debería ser importado al
estudio de la política internacional, y en otros lugares Liang argumentó
que los factores económicos deberían ser considerados en primer lugar.
El tercer punto es que la teoría debería buscar promover el desarrollo a
través de la reforma, salvaguardar la paz mundial, manejar correctamen-
te la relación entre estabilidad y progreso y establecer un nuevo orden
internacional justo y razonable29.
Pese a estos atisbos y manifestaciones de un deseo explícito y pro-
clamado de pensar con “cabeza propia, el factor dominante, no obstante,
25. Los autores de este pionero aporte
fueron WANG, ZHIMIN & YULIANG
(1986).
26. Idea que está íntimamente vinculada
a la conocida fórmula de Deng Xiaoping
respecto al “socialismo con característi-
cas chinas” (YIWEI, 2009, p. 109).
27. Apud NOESSELT (2012, p. 14).
28. Este debate es central, pues
configura todo lo que vendrá luego en
este terreno.
29. Kim se apoya en esta cita en refe-
rencias tomadas de escritos posteriores
de Shoude (1994 y 1997), actor clave en
todo este proceso.
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sigue siendo, en toda la etapa que va desde 1979, el año del lanzamien-
to pleno de la apertura, hasta 1990, la hegemonía incontrarrestable de la
TRI occidental, como lo documenta, en forma cabal, Qin Yaqing, en el
estudio ya mencionado. Pero ello no implica, en modo alguno, que los
investigadores chinos del área abdiquen del uso de las herramientas de
alisis e interpretación de la realidad que les proporciona el marxismo-
-leninismo, matriz ideológica crucial de la RPCh, y que continúa vigente
tanto en épocas de reformas como cuando, en respuesta a determinados
estímulos, surge una actitud refractaria y hostil frente al ambiente exter-
no. XINNING (2001, p. 64), explica este femeno.
Durante la conferencia de Shanghai sobre la teoría de las RI en 1987, Hu Men-
ghao armó enfáticamente que “hay muchos tipos diferentes de teorías de las RI
en el mundo. Pero en el análisis nal solo hay dos. Una es la teoría marxista de
las RI y la otra es la teoría burguesa de las RI. Es imposible tener una teoría de las
RI que pueda trascender las ideologías de las dos clases”. Para estos académicos,
lo que separa un tipo de teoría de otro son los intereses de la clase a la que sirve.
Una teoría burguesa busca “salvaguardar la política exterior imperialista y los
intereses imperialistas”, mientras que la teoría socialista de la RI pretende “servir
para la victoria nal del socialismo”.
Puesto este punto sobre la mesa, hay otro aspecto que cabe, ade-
más, considerar. Y es el hecho de que, comparadas con otros campos de
estudio anes, las RI tienen una faceta claramente utilitaria y práctica, en
la medida en que, bien empleadas, son un recurso estratégico clave, en
cuanto a su capacidad de proyectar y anticipar escenarios, y comporta-
mientos asociados a los mismos de los actores del sistema internacional.
Por ello es que se rige, de algún modo, por reglas diferentes. Un tema que
XINNING (2001, p. 62) aclara en forma taxativa.
Después del Incidente de la Plaza de Tiananmen de 1989, la mayoría de las
disciplinas de las ciencias sociales (especialmente la ciencia política, la sociología
y el periodismo) sufrieron un revés debido a la campaña del gobierno contra el
liberalismo ideológico de los académicos chinos y la llamada evolución pací-
ca iniciada por Occidente. Sin embargo, Relaciones Internacionales recibió un
tratamiento diferente. Continuaron desarrollándose estudios teóricos sobre RI.
La enseñanza de las teorías occidentales de RI continuó en universidades clave y
los intercambios académicos con Occidente en estudios de RI se volvieron más
activos.
“Esto se debió principalmente –dice Song Xinning– a que los lí-
deres chinos se preocuparon más por el aislamiento de China del mun-
do exterior que por una ‘evolución pacíca’30. Existe, a su vez, un claro
consenso en la literatura que, tras la represión de las manifestaciones de
disidentes políticos en la plaza de la Puerta de la Paz Celestial, en junio de
1979, tuvo lugar un enfriamiento de las relaciones sino-occidentales que
duró alrededor de tres o cuatro años. No obstante, esta suerte de embar-
go punitivo no se aplicó al área de las RI. “Desde 1990, se iniciaron nuevos
programas de intercambio, especialmente programas de capacitación de
profesores, en Renda. Estos fueron patrocinados conjuntamente por el
gobierno chino y fundaciones privadas de EE.UU. (XINNING, 2001, p.
62)”. Al mismo tiempo, “los académicos chinos también obtuvieron un
mayor acceso al proceso de formulación de políticas extranjeras”. De he-
cho, a comienzos de 1990, Jiang Zemin, Secretario General del PCCh, y
Li Ruihuan, miembro del Comité Permanente (Politburó), se reunieron
30. Cabe aquí hacer una aclaración
importante: “evolución pacífica” es el
término con el que se designa en China
a los presuntos intentos de Occidente
para obstaculizar y sabotear los princi-
pios socialistas y favorecer una lenta
incorporación, por parte de la RPCh,
de los valores y principios capitalistas.
En esos términos, sería mucho más
correcto tal vez hablar de “cooptación
pacífica” antes que de “evolución”.
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Carlos Monge Arístegui Perspecvas teóricas predominantes na abordagem da China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e integração
dos veces con académicos senior y líderes de institutos de investigación
para solicitar sus puntos de vista y apreciaciones sobre los estudios de RI
y la política exterior china.
Fase de aprendizaje teórico
Esta fase tiene dos sub-etapas: la inicial (1991-2000) y la de profun-
dización (2001-2007).
Etapa inicial. En la primera de ellas, “con la publicación desde na-
les de los años 80 de clásicos de TRI en lengua china, los académicos de
RI chinos reconocieron la importancia de la teoría y empezaron a em-
plear paradigmas de TRI en sus trabajos”, intentando aplicar “un enfoque
académico serio. Para YAQING (2013, p. 72), esta etapa está marcada por
cuatro asuntos destacados.
En primer lugar, existía un debate sustancial entre los académicos
defensores de las tradiciones realista y liberal. Aunque no se criticaban
directamente entre ellos, sus puntos de vista divergían claramente. Los
primeros enfatizaban el papel del poder en la política global, y denían
el interés nacional de China en términos de poder material y seguridad
territorial. Los segundos abogaban por la cooperación internacional y la
integración gradual de China en el sistema internacional31.
Según su alisis, las diferencias entre realistas y liberales no re-
sultaban, en verdad, signicativas, “en lo que se reere a políticas y es-
trategias, ya que en el contexto chino ambas visiones se consideraban
relevantes: podían complementarse mutuamente más que contradecir-
se”. Vale decir, operaba una especie de curioso sincretismo, de carácter
pragmático, en la medida en que “por ejemplo, China podría incrementar
su poder duro y perseguir su interés nacional, y al mismo tiempo podría
buscar la cooperación internacional e integrarse en la economía global.
Pero “las diferencias subyacentes entre las dos escuelas allanarían el ter-
reno para un debate más matizado en el futuro, a medida que el poder de
China continuaba creciendo de modo inaudito”.
En segundo lugar, la traducción de clásicos de TRI condujo a una mejor
comprensión entre los académicos chinos de lo que era la teoría orienta-
da al conocimiento e incrementó su erudición. Importantes editoriales
chinas contribuyeron a este proceso introduciendo de forma sistemática
clásicos de TRI desde el extranjero32 (…) Estas obras abarcaban todas
las principales teorías e hicieron que los alumnos chinos de Relaciones
Internacionales fueran conscientes de la importancia de la TRI para el
crecimiento y el desarrollo de la disciplina.
DEMIR (2017, p. 96-96), desarrolla en su recapitulación la misma
línea de raciocinio:
Este fue un período de acumulación de conocimientos sobre RI de Occidente,
especialmente de EE. UU. En esta fase, la intensa auencia de estudios de RI
transatlánticos dominó el pensamiento y los estudios de RI chinos y casi bloqueó
el ujo de teorías de RI críticas y no convencionales. Una de las características
más importantes de este período fue la creciente conciencia en la academia china
de Relaciones Internacionales de la distinción entre la interpretación de políticas
orientada a la acción y la investigación académica orientada al conocimiento.
En tercer lugar, y siempre siguiendo el ordenamiento temporal pos-
tulado por YAQING (2013, p. 72), puede señalarse que “académicos chinos
31. Para seguir este debate en detalle
se recomienda la lectura de YAQING
(1998), CHANGHE (2000), YIZHOU
(1995), y XUETONG (1996), citados por
el primero de los nombrados
32. A fines de los 1980 sólo existían diez
obras traducidas al chino de autores
líderes dentro de la TRI occidental.
Algunas de ellas eran Poder e Interde-
pendencia de Keohane y Nye (1992);
Teoría de la Política Internacio- nal de
Waltz (1992); Teoría social de la política
internacional de Wendt (2000) y El
sistema mundial moderno (volumen I) de
Wallerstein (1998).
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de RI, editoriales y revistas académicas comenzaron a prestar una mayor
atención al proceso de desarrollo de las Relaciones Internacionales como
una disciplina, con especial énfasis en la TRI”. A su juicio, el ciclo titulado
“Política Internacional Contemponea”, publicado por Shanghais Peo-
ple Publishing House en 1995, supuso alcanzar un nuevo estándar, lo cual
se sustenta en hechos comprobables:
Los datos recopilados (…) muestran que entre 1991 y 2000 las cinco revistas de
Relaciones Internacionales mencionadas con anterioridad publicaron 331 artícu-
los sobre TRI, resultando en una media de 33,1 artículos anuales. Esto representa
más del quíntuple de los artículos publicados durante la década anterior.
“En cuarto lugar –prosigue YAQING (2013, p. 73-74)–, fue durante
esta etapa que la TRI dominante (tal y como se desarrolló en EE.UU.
desde la II Guerra Mundial), tuvo una gran inuencia en los académicos
chinos”. Dos factores fueron determinantes, en este aspecto: i) “Los estu-
diantes chinos que cursaron Ciencias Políticas en universidades america-
nas desde principios de los años 80, y volvieron a China para dedicarse a la
enseñanza y a la investigación sobre RI, estaban inuidos por la tradición
académica americana”; y ii) “En el año 2000 la mayoría de los clásicos im-
portantes que representan la TRI americana dominante había sido tradu-
cida y publicada en chino. Esta tendencia se mantiene incluso hoy en día”.
Etapa de profundización. La fase situada entre 2001 y 2007 es la
etapa en que el campo de estudios de RI en China entra en la adultez y
alcanza un nivel equiparable con el avance de la disciplina en Occiden-
te. YAQING aporta más datos factuales: “Setenta y cuatro libros de TRI
fueron traducidos por cinco importantes editoriales entre 2001 y 2007, lo
que supone una septuplicación con respecto a la década anterior”. Y hay
evidencia empírica que sugiere que el interés en TRI entre los académi-
cos chinos aumentó exponencialmente durante esta etapa de profundi-
zación. Cinco importantes revistas publicaron 713 artículos sobre teoría,
lo que supone 101,9 artículos anuales, dieciséis veces más que en la fase
pre-teórica”. Se registró, así, “un incremento del 200 % con respecto a
la fase inicial del aprendizaje teórico. Como se señaló antes, la década
de los 1990 y también al menos la mitad de los 1980 están cruzadas por
dos clivajes claves en materia de disputas de marcos referenciales y lentes
epistémicos: marxistas versus realistas y realistas versus liberales insti-
tucionalistas, una vez que autores como Kehoane y Nye empiezan a ser
divulgados en China por los académicos “occidentalizados”.
En la RPCh, como también se ha visto con anterioridad, se pro-
ducen dos discusiones paralelas, en el marco del segundo gran debate:
i) cómo enfrentar el desaante entorno externo y ii) cómo lidiar con el
desarrollo interno, toda vez que el país partía desde una posición bastan-
te desfavorable en términos materiales y en el esquema de distribución
internacional de poder. Dos cuestionamientos que, en el fondo, conden-
saban un solo interrogante central, como lo plantea DEMIR (2017, p. 97),
y que evoca en cierta forma el debate realismo-liberalismo que se dio en
Occidente en los 1930 y los 1940:
¿Cuál era el interés nacional más importante de China y cómo
China debería realizarlo? Las facciones que se unieron al debate eran
realistas y liberales que resaltaron, respectivamente, la importancia
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Carlos Monge Arístegui Perspecvas teóricas predominantes na abordagem da China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e integração
de la acumulación de poder y de la integración en las instituciones
internacionales. Al final, ambas partes acordaron que estos argumentos
se reforzaban mutuamente y que una política continua de apertura era
la mejor opción política para satisfacer los intereses nacionales de China.
Dicho de otra manera, para los realistas y liberales chinos, China debería
convertirse simultáneamente en un estado-nación hobbesiano y en un actor
lockeano racional33. El resultado nal de este debate fue el establecimiento
del liberalismo (institucional) como una teoría de las RI en la academia
china en pie de igualdad con el realismo.
Después de la admisión del liberalismo como una escuela legitima-
da y aceptada en la academia china, el campo continúa ensanchándose y
nuevas perspectivas teóricas se suman al debate. De acuerdo con el sudco-
reano KIM (2016, p. 69), quien ha hecho varias pasantías en Universidades
chinas, la visión liberal ya forma parte, con propiedad, de la corriente
principal en Beijing y ésta ha ampliado sus márgenes de manera notable.
El realismo sigue dominante entre muchos destacados académicos chinos, pero
las teorías liberales de las relaciones internacionales también ejercen una inuen-
cia cada vez mayor. Por ejemplo, Wang Jisi descubrió que, entre los artículos
publicados en 10 revistas líderes en relaciones internacionales en China sobre
nueve temas clave, cuatro de aquellos estaban referidos a aspectos tales como
organización internacional, regímenes internacionales, derechos humanos y glo-
balización/gobernanza global, es decir directamente relacionados con los tópicos
no tradicionales de la RI. Los otros cinco temas eran la Teoría de las Relaciones
Internacionales, las relaciones de los grandes poderes, la seguridad, los estudios
de áreas y la economía política internacional.
En opinión de Kim, “el interés en la teoría constructivista de RI
también se ha expandido en China”. Según YAQING (2007, p. 321), tres te-
mas no tradicionales de RI (multilateralismo e instituciones internaciona-
les, sociedad internacional, actores no estatales y gobernanza global) han
recibido una atención constante y creciente en China”. Además, “temas
como la identidad, la psicología, la investigación de la paz, la paz demo-
crática, el feminismo, la seguridad no tradicional, la gobernanza global y
la interdependencia fueron algunos de los términos más frecuentemente
publicados en las revistas académicas chinas”, de acuerdo con un estudio
de la Fundación Ford (2002).
Una amplia literatura (CHAN, 1997; JING, 2001; JOHNSTON,
2003; JISI, 2003) ha revisado prolijamente estos asuntos, de modo que no
hace falta detenerse en ellos, salvo para decir que un número expresivo de
autores sigue observando en detalle el proceso de creciente apertura de
la agenda de RI chino hacia temas tales como “la seguridad internacional
(tradicional y no tradicional), estrategias, instituciones/regímenes inter-
nacionales, estudios regionales, Economía Política Internacional (EPI) y
gobernanza global (YAQING, 2013, p. 74)”. A la par de la aparición de es-
tos nuevos issues, Yaqing aprecia que hay un viraje desde “la TRI csica
dominante en EE.UU. a otras áreas relacionadas con el feminismo () y
la teoría de la complejidad34. Resalta, asimismo, que “la Escuela Inglesa
ha atraído la atención de los académicos de RI chinos en particular”. Y
que, “junto con el realismo y el liberalismo, una tercera escuela de pensa-
miento, el constructivismo, ha penetrado en el campo de la TRI en China
durante la etapa de profundización.
El incremento del interés por el constructivismo entre los académicos chinos
de RI constituyó un rasgo extraordinario de este periodo. Estuvo, por supuesto,
33. El énfasis es nuestro.
34. Tomando como referencia a JOHNS-
TON (2003) y JISI (2003).
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enormemente inuido por el constructivismo liberal de Alexander Wendt. Re-
ejaba claramente la insatisfacción de algunos académicos chinos respecto al in-
terminable debate de las dos escuelas de TRI dominantes en EE.UU. –realismo y
liberalismo–. Existen igualmente otros dos factores que pueden ayudar a explicar
este fenómeno. En primer lugar, el interés por el constructivismo coincidió con
el debate sobre el ascenso pacíco de China. Un concepto clave del constructivis-
mo es la “identidad”, y China ha experimentado de hecho un profundo cambio
de identidad en el ámbito internacional. Se está convirtiendo rápidamente en un
miembro pleno de la sociedad internacional. Esto ha conducido a China a rede-
nir sus intereses nacionales y su estrategia encaminada a un ascenso pacíco
en el mundo. En segundo lugar, el constructivismo implícitamente encaja con la
losofía china más importante del I Ching (cambio), que sostiene, a diferencia del
realismo y del liberalismo, que tanto la identidad como el comportamiento no
son inmutables.
Los conceptos de Yaqing cobran sentido en la medida en que un
libro emblemático de Wendt, Teoría Social de la Política Internacional, se
publica en China en 2000, apenas un año después de ser lanzado en Occi-
dente. La idea de “ascenso pacíco” es, por otra parte, un eje central de la
política externa china, desde que Zheng Bijian, un alto cuadro dirigente
del PCCh, acuñara el término en una reunión del Foro de Bó`áo para
Asia, el 3 de noviembre de 2003.
Desde los últimos 25 años, a partir de la instrumentación de su
reforma y su apertura al exterior, China ha seguido un nuevo patrón
estratégico que no sólo considera sus condiciones nacionales, sino que
también avanza con el correr de los tiempos. Este nuevo patrón estra-
tégico es el ascenso pacíco de China, a través del cual se construye
de manera independiente (soberana) el socialismo con características
chinas, mientras que participamos, en lugar de rechazarla, en la globa-
lización económica35.
Por su parte, la referencia que Yaqing hace al I Ching no es, desde
luego, inocente, dado que buena parte del debate posterior sobre la posi-
bilidad o no de una RI china gira en torno al rescate de la tradición mi-
lenaria de ese país como un componente basal de una weltanschauung
o cosmovisión particular que diferencie a esa hipotética escuela de otras
miradas gnoseogicas. Pero ya se ha de volver a ello más adelante. Lo
concreto es que a medida que las capacidades generales chinas crecían y
se potenciaban en forma veloz, el cambio de status del “gigante asiático
devino un tema de discusión relevante en todo el mundo. Particular-
mente, en lo que dice relación con una eventual amenaza hacia la prima-
a hegemónica de EE.UU. Es sugerente, en este sentido, la lectura que
hace DEMIR (2017, p. 97) de esta pugna de poderes y los esfuerzos que,
desde tres campos teóricos ya consagrados –el realismo, el liberalismo
y el constructivismo–, se realizan con el n de dilucidar el dilema de si
China está destinada a convertirse en un miembro pacíco del orden
establecido o en un challenger revisionista, que pretende alterar radical-
mente las reglas:
Mientras que los realistas sostienen que la relación entre un estado en ascenso y
una hegemonía no puede ser pacíca, los liberales rechazan este enfoque deter-
minista y arman que, si China sigue una política de integración en el sistema
internacional, encontrará la oportunidad de crecer pacícamente. Los cons-
tructivistas se han sumado al debate en el campo liberal, pero con un enfoque
diferente. Argumentan que, a medida que China se integra con la sociedad inter-
nacional, no solo se benecia materialmente de este proceso, sino que también
acepta las normas e instituciones internacionales que cambian su identidad y la
35. Citado por ROCHA PINO (2006, p.
707).
81
Carlos Monge Arístegui Perspecvas teóricas predominantes na abordagem da China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e integração
transforman en un miembro responsable de la sociedad internacional, es decir,
en una potencia a favor del status quo. Este debate aún está en curso entre las
tres principales escuelas de pensamiento y está estrechamente relacionado con la
tercera fase de los esfuerzos de la teoría china de RI –construcción de teoría– que
aún se encuentra en sus etapas iniciales.
Fase de la innovación o la construcción teórica
Este debate – entre realistas y liberales, en el que tercian tam-
bién los constructivistas –, sigue abierto y no es de fácil resolución en
un contexto en el cual los vínculos sino-estadounidenses han empezado
a tornarse conictivos. Y se han ido encaminando desde una relativa
convivencia pacíca”, matizada con pequeños incidentes, a un enrareci-
miento gradual y creciente debido a las políticas del gobierno de Donald
Trump, quien hizo de la “guerra comercial” un peldaño para escalar las
tensiones, en la línea de lo ya avanzado por Barack Obama, que propu-
so el pivot o redireccionamiento del poder militar de EE.UU. hacia el
Asia Pacíco. MALENA (2005, p. 109) recuerda que Jiang Zemin llegó
a parecer un liberal occidental en su discurso ante la APEC, en 199436.
Pero el cuadro de hoy está muy distante de aquellos “años dorados” de
liberalismo económico, cuando China se incorporó al Banco Mundial
y al FMI, a inicios de los 1980, y en 1986 presentó su solicitud de ingre-
so al GATT (reconvertido en OMC, desde 1995), organización a la que
se un, nalmente, en 2001. La disyuntiva entre transformarse en un
stakeholder responsable, como reclaman ciertas voces en Occidente e
incluso dentro de China37, o en un desaante poder emergente que rei-
vindique un nuevo rol en el sistema internacional, acorde con su peso y
tamaño, continúa sin solución aparente.
China pasó de su propuesta de un “mundo armonioso”, que fuera el
caballito de batalla planteado por Hu Jintao durante sus dos lustros como
Presidente (2002-2012), al “gran sueño chino” y la “sociedad modestamen-
te acomodada”, promovidos por su sucesor, Xi Jinping, lo que signica
persistir en la senda del “desarrollo pacíco” trazada por Bijian. Aunque
esto no depende, por cierto, exclusivamente de la voluntad de Beijing,
sino que está sujeto a otras dimicas y vectores en juego. Ahora bien,
en relación al tema especíco que aquí se trata, que es el de la etapa de la
innovación o la construcción teórica de una RI china, hay muchas incóg-
nitas abiertas y muy pocas certezas al respecto. Tal vez sólo sea posible
enunciar algunos postulados, a modo de provocaciones, antes de abor-
dar la fase conclusiva de este trabajo. Como los expresados por YAQING
(2013, p. 74-7538):
En resumen, la etapa de profundización de la fase de aprendizaje teórico pre-
senció una penetración gradual de teorías minoritarias y no americanas, aunque
la TRI dominante en EE.UU. continuó perlando los contornos del discurso de
TRI en China. Es cierto que un número cada vez más elevado de académicos
chinos intentan ahora analizar las prácticas chinas en relaciones internacionales
empleando metodologías y marcos de análisis tomados de Estados Unidos. Sin
embargo, la disciplina de RI ha logrado su estatus independiente en China, y los
académicos chinos de Relaciones Internacionales se están esforzando por superar
la dependencia desproporcionada de marcos occidentales (el énfasis es nuestro).
Esto explica sus esfuerzos por desarrollar una escuela de TRI claramente china a
través de los años.
36. “Una serie de cuestiones como las
relaciones económicas, los intercambios
comerciales, el desarrollo científico y
tecnológico, la protección del medio
ambiente, el control demográfico, la
prevención de la criminalidad, la lucha
contra el narcotráfico, la prevención de
la proliferación nuclear y el tratamiento
del SIDA, revisten carácter global y cada
uno de ellos exige cooperación” (Zemin,
citado por MALENA, 2005, en base a un
cable de Xinhua).
37. Véanse YAQING & MEARSHEIMER,
2003; XUETONG, YAQING, LEXIONG,
QIANG y WENMU, 2004; y BIJIAN,
2005, referenciados por QIN YIAQING
(2013, p. 74).
38. Existen dos versiones previas al me-
nos de este artículo en inglés de 2009 y
2011. Cuando se cita a YAQING, 2013, a
lo largo de este artículo, se alude princi-
palmente a la traducción al español del
paper publicado en forma original por
International Studies, en 2009.
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La otra hipótesis plausible y digna de ser evaluada –y que no inter-
ere, desde luego, con la eventualidad del desarrollo ulterior de una RI
netamente china– es la de MALENA (2005, p. 112), quien concluye que
mientras la RPCh esté comprometida con su ‘nation building’ (que abar-
ca principalmente la integridad territorial, la modernización económica
y la estabilidad interna) difícilmente tenga cabida la renuncia a la Realpo-
litik, en el ámbito de sus relaciones externas.
La perspectiva de una RI china: Cuestiones ontológicas y
epistemológicas
Previo al alisis de los intentos concretos de construir una posible
RI china, caso a caso y en forma pormenorizada, es pertinente denir al-
gunos conceptos teóricos básicos. En primer lugar, qué requisitos necesita
cumplir una formulación determinada para ser considerada una contri-
bución especíca a la TRI. Y a partir de ahí, institucionalizarse como una
Escuela o corriente validada del campo. ACHARYA & BUZAN (2010, p.
6) han jado un marco demarcatorio al respecto:
• También somos conscientes de que probablemente sería imposible construir
una denición contundente e indiscutible que divida claramente la teoría de la
no teoría. Sobre esta base, consideraremos una contribución a la Teoría de las RI
todo aquello que reúna al menos una de las siguientes condiciones:
• que sea sustancialmente reconocida por otros miembros de la comunidad
académica de RI como teoría;
• que sea identicada por sus creadores como perteneciente al campo de la Teo-
ría de las RI, incluso si esto no es ampliamente reconocido dentro de la comuni-
dad académica gene- ral de RI;
• que independientemente del reconocimiento que reciba, su construcción la
identique como un intento sistemático de generalizar y abordar asuntos propios
de las RI.
Hecha esta salvedad, conviene aclarar que la periodización de Ya-
qing, que hasta ahora se ha seguido en este texto, no es la única opción
posible, si se trata de delimitar etapas, aunque sea, sin duda, la más acep-
tada y canonizada como prevaleciente. Otra conceptualización al respec-
to es la efectuada por YIWEI (2009, p. 104-107), el cual divide la historia de
los estudios de RI en China en cuatro ciclos: i) Marxismo inicial (décadas
de 1960 y 1970); ii) “aprendizaje y copia” de la TRI occidental (década de
1980); iii) estímulo y respuesta (década de 1990); y iv) reexión-construc-
ción, desde los 2000 en adelante.
A partir de este recorte, ZHANG & CHANG (2016, p. 13), identi-
can tres puntos de quiebre que han caracterizado los vínculos entre la RI
china y la RI mainstream occidental, en el período que va desde los 1980
hasta hoy, que es cuando se volvieron más intensos, en una relación que
presupone necesariamente retroalimentación e inuencia mutua. Esos
momentos de inexión o críticos son, en su opinión, el optimismo episté-
mico, el escepticismo epistémico y la reexividad epistémica.
También es oportuno y válido tener en cuenta el contexto o cuadro
global en el que surge y se inscribe esta discusión. Si “la teoría es siem-
pre para alguien y para algún propósito”, es evidente que el despegue
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Carlos Monge Arístegui Perspecvas teóricas predominantes na abordagem da China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e integração
de China a escala mundial está íntimamente vinculado a la aparición de
un debate ampliado sobre la factibilidad y los rasgos de una hipotética
RI autóctona. La predominancia anglosajona, y, en particular, de EE.UU.
en la TRI, es un dato de la causa que ha sido repetidamente vericado
y asumido por varios autores (p. e., SCHMIDT, 2002, p. 8; TICKNER Y
WAEVER, 2009, p. 32939). Esta “ciencia social americana”, según HOF-
FMANN, 1977, no necesitó de la etiqueta explícita de “Escuela America-
na de RI” o “RI con características americanas”, como argumenta KIM
(2016, p. 62-63), puesto que a todas luces era evidente el dominio casi total
que la academia estadounidense ejercía sobre la disciplina. Sin embargo,
para Kim, la “nativización” forzada de la disciplina para nes domésticos,
no es un fenómeno especíco de EE.UU., ya que el desarrollo temprano
de las RI en el Reino Unido reejó los problemas que enfrentó Gran Bre-
taña en sus relaciones exteriores”.
Ya en la posguerra, e inspirada en el ideal grociano de la “paz
mundial universal, surge, a mediados de los 1950, la Escuela Inglesa,
formada por “un grupo de académicos ubicados principalmente en el
Reino Unido que tienen una disposición ontológica común y son crí-
ticos con el tipo de métodos cientícos avanzados por los positivistas
(DUNNE, 2008, p. 267). Paradójicamente, esta disidencia o desvío de
la corriente principal en RI, es esgrimida hoy como argumento por aca-
démicos chinos para reivindicar la posibilidad de generar un camino
teórico propio. “El trabajo de la Escuela Inglesa era interesante por de-
recho propio y como alternativa a la teoría estadounidense de las RI. Si
puede haber una Escuela Inglesa, ¿por qué no una Escuela China?”, se
pregunta XIAO (2008, p. 297).
Según KIM (2016, p. 64), hay tres razones por las cuales los movi-
mientos chinos tendientes a construir una teoría de RI basada en su cul-
tura especíca son “signicativos y oportunos”:
Primero, los desarrollos recientes en la teoría china de las relaciones
internacionales están estrechamente relacionados con los cambios en
el mundo real debido al ascenso de China. En segundo lugar, el uso e
inclusive el potencial mal uso de la historia y la tradición en la RI China
contribuirá a nuestra comprensión de la relación entre la Teoría de RI y
la historia. Por último, la RI China no solo está relacionada con el ascen-
so de China, sino también con el declive de Occidente y una creciente
autorreexión dentro de la disciplina. En otras palabras, la (s) Escuela (s)
China se sitúa dentro de una creciente insatisfacción y auto cuestiona-
miento en la disciplina de RI40.
Pero, ¿cómo se ha dado, en rigor, esta transición en que la RI china
ha pasado de “la simple adquisición de conocimiento a la producción/
creación de conocimiento” y a la “reexividad intencional (ZHANG, 2016,
p. 192)”? DEMIR (2017, p. 97-98) resume los esfuerzos más renombrados
en esta área. Arma que, desde los inicios de la tercera fase, la de la cons-
trucción teórica, a mediados de los 2000, la producción de conocimiento
propio en China hizo “importantes progresos, con un gran número de
iniciativas innovadoras lanzadas por académicos chinos”.
Tres de estas contribuciones, que pueden ser categorizadas en dos métodos, son
destacables. El primer método es un enfoque integrador que combina los estilos
de conocimiento y construcción de teorías occidentales y chinos. La Teoría
39. Schmidt, después de estudiar la
disciplina de RI, volvió a confirmar “el
dominio abrumador y continuo de la
comunidad académica estadounidense”.
Tickner y Wæver arguyeron que la RI
estadounidense es “simultáneamente
una única instancia local del campo y
un componente integral del universo de
todos los demás”.
40. Para un estudio más acabado acerca
de esta temática, véanse dos textos:
Rethinking International Relations
(HALLIDAY, 1994); y The Political
Discourse of Anarchy (SCHMIDT, 1998).
“La comprensión de Halliday es que
la RI como disciplina es producida por
tres círculos concéntricos de influencia:
cambio y debate dentro del tema en sí,
la influencia de nuevas ideas en otras
áreas de la ciencia social y el impacto
de los desarrollos mundiales” (KIM,
2016, p. 65).
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Relacional de la Política Mundial de Qin, así como los trabajos del equipo de
Tsinghua, incluido Yan, son parte de este enfoque integrador. El otro método
es el enfoque tradicional, que examina los pensamientos de los lósofos chinos,
principalmente Confucio. La reinterpretación de Zhao del antiguo sistema Tian-
xia para analizar el orden mundial y la gobernanza global es un estudio pionero
que se apoya en el enfoque tradicional. De hecho, estos tres contribuyentes al
desarrollo de la Escuela China basan sus teorías en el pensamiento y la losofía
tradicionales chinos, pero lo que distingue a los trabajos de Zhao es su rechazo
de la ontología y epistemología del pensamiento occidental y la abrumadora
conanza en la ontología y epistemología chinas.
Los autores a los que Demir alude son, como es sabido, Qin Yaqing,
Yan Xuetong y Zhao Tingyang, quienes representan distintas miradas
y sensibilidades que sólo comparten el propósito común de desarrollar
perspectivas propias para observar y valorar los eventos internacionales,
aunque con claros matices distintivos. De hecho, uno de ellos, Xuetong,
líder del llamado Enfoque Tsinghua, por estar ancado en dicha Univer-
sidad, se ha mostrado absolutamente escéptico frente a la posibilidad de la
construcción de una “Escuela China”, siendo el a su visión integracionis-
ta41. Y en todos sus escritos, que tienen una impronta realista y nacionalis-
ta, únicamente pone énfasis en la necesidad de que la academia china sea
capaz de articular una contra-hegemonía conceptual frente al dominio
teórico de Occidente42. Es más, tal como lo enfatizan Xu Jin y Sun Xue-
feng, revisitados por KIM (2016, p. 72), “El enfoque de Tsinghua, dirigido
por Yan Xuetong, no es un esfuerzo único y unicado, sino al menos dos
enfoques, uno centrado en la historia y el otro en la teoría”. Yaqing, a su
vez, “que se identica a sí mismo como constructivista, combina el social
constructivismo y la losofía china tradicional (DEMIR, 2017, p. 98)”.
En este esfuerzo, como contraparte del concepto de racionalidad como
el núcleo metafísico de las teorías de RI dominantes, Qin propone poner
el concepto de relacionalidad, que es fundamental para las comunidades
culturales confucianas, en el centro de la investigación de la teoría de
RI. Él basa su teoría en tres supuestos subyacentes de la interrelación del
mundo de las RI: roles socialmente construidos, identidades de actores
sociales y procesos denidos en términos de relaciones en movimientos.
Siguiendo estos supuestos, Qin sugiere redenir las orientaciones de
investigación y los conceptos clave de RI tomando las relaciones como
la unidad básica de análisis. Sin embargo, esto no signica reemplazar
la racionalidad por la relacionalidad, ya que esos conceptos son comple-
mentarios y una síntesis exitosa de ellos puede ser útil para analizar y
comprender la política mundial43.
Zhao Tingyang es, por su parte, un lósofo que ganó celebridad
en China por su libro El sistema Tianxia (2005), que se convirtió en un
inmediato best seller. El concepto Tianxia hace referencia, entre otros
múltiples signicados (algunos ya explicitados previamente), a un sis-
tema tributario o de vasallaje, “conocido como un principio ordenador
de las relaciones internacionales tradicionales de Asia Oriental antes de
la llegada del sistema Estado-nación occidental (KIM, 2016, p. 72, apud
K ANG, 2010)”.
Tianxia es ampliamente entendido como un mundo unicado y dominado por
el Reino del Medio, cuyos vecinos directos y los que están más allá lo procuran
en busca de orientación y le rinden tributos. El sistema es a menudo descri-
to como varios círculos concéntricos, que comprenden al Emperador en el
centro, los sujetos internos, los sujetos externos, los Estados tributarios y los
bárbaros. Si bien la curiosidad y la ambición intelectual han sido de hecho los
41. “Yan sostiene que todas las teorías
de las RI son universales y no tienen
características nacionales; por lo tanto,
el objetivo de construir una teoría china
de RI no es alcanzable” (KIM, 2016, p.
72, siguiendo a XIAO, 2008).
42. Xuetong estima que es posible
enriquecer la Teoría actual de la RI
mediante el estudio sistemático y
focalizado del pensamiento clásico
chino de la era previa a la dinastía Qin,
casa imperial que se extendió desde
221 a 206 a. C. Por período pre-Qin se
entiende en China un largo lapso histó-
rico de 1.800 años (desde 2100 a 221 a.
C.), que abarca las etapas del Período
de Primavera-Otoño (770-476 a.C.) y de
los Reinos Combatientes (475-221 a.C.).
Algunos autores centralizan el análisis
en todo el ciclo de la dinastía Zhou
(1066 a 221 a. C.), que incluye a los
períodos señalados antes. Más detalles
en XUETONG (2011 y 2019).
43. Para ahondar en el tema, véase
XUETONG (2016). Qin Yaqing ha desar-
rollado también con mayor extensión
sus ideas en un reciente libro publicado
en 2018 por Cambridge University Press.
85
Carlos Monge Arístegui Perspecvas teóricas predominantes na abordagem da China em relação às RI como disciplina: entre autonomia e integração
impulsores iniciales de la teoría Tianxia, otra motivación importante es “re-
pensar China”, y así también repensar el mundo y desarrollar puntos de vista
y teorías chinas de la política mundial. Hay un fuerte deseo de proporcionar
una perspectiva indígena china sobre las relaciones internacionales y preparar a
China intelectualmente para un papel más importante, constructivo y distinti-
vo en los asuntos mundiales.
Para Tingyang, que es un rme crítico del mundo occidental y
posee una innegable visión sinocéntrica, “debido a la falta de una ins-
titución política mundial universalmente aceptada para gobernar una
sociedad mundial verdaderamente coherente, el mundo de hoy es un
mundo fallido. En un mundo fallido, los intentos de unicación son i-
tiles. Tal intento debe basarse en una losofía política global ‘que hab-
le en nombre del mundo, no de los estados-naciones (DEMIR, 2017, p.
98)44. Según este autor turco:
… para lograr el objetivo de establecer una teoría mundial, la política
mundial debe ser entendida bajo el marco de referencia de la “mundia-
lidad”, no la internacionalidad. Para Zhao, el concepto chino de Tian-
xia, que compara con el concepto de las Naciones Unidas, proporciona
ese marco. Mientras que Tianxia presupone la “unidad” del mundo
como aceptación de su diversidad, el modelo ONU lo presume como
una misión para lograr el universalismo occidental. En otras palabras,
mientras Tianxia presupone armonía, el modelo de la ONU supone
igualdad y uniformidad45.
Consideraciones finales
Estas tres aproximaciones teóricas o variantes de una eventual RI
china, siendo las dominantes, no son las únicas, como destaca KIM (2016,
p. 72): “Ciertamente, hay otros estudiosos, además de estos tres, que están
haciendo contribuciones importantes, tales como la teoría del Equilibrio
de las Relaciones de Shih Chih-yu y Huan Chiung-Chiu, la teoría Gong-
sheng (simbiosis) de estudiosos de Shangi como Hu Shoujun y Jin Yin-
gzhong, y trabajos individuales de Tang Shiping.
Pero ninguno de ellos ha alcanzado el grado de difusión masiva,
coherencia interna y consistencia argumental que han logrado los autores
antes mencionados: Zhao Tingyang, con su reivindicación de la Tianxia
como una alternativa “virtuosa” frente al sistema westfaliano occidental
que, a su juicio, se encuentra agotado; Qin Yaqing, con su perspectiva
relacional y constructivista, que detecta inclusive puntos de contacto y de
dlogo entre visiones posmodernas foucaultianas y el pensamiento clási-
co chino; y Yan Xuetong y el Enfoque Tsinghua, que también recupera a
lósofos tradicionales y arcaicos como Xun Zi46 para hacer una especie de
arqueología viva” de las relaciones interestatales en el Este de Asia como
un modelo referencial a tener en cuenta en el complejo mundo de hoy.
Entretanto, en paralelo a estos debates, varias etiquetas ya son usa-
das para describir estos esfuerzos de diferenciación y perlamiento frente
a las RI mainstream. Kim, apoyándose en BUZAN & WANG (2014, p. 11),
enumera posibles rótulos: “‘Teoría de RI con características chinas’; ‘Lo-
calización (o nativización) de la Teoría RI china’; ‘Exploración china de la
teoría de la política internacional; ‘Visión china de las RI o la política in-
ternacional’ y ‘Escuela China’. Y concluye que “todavía no hay consenso
44. La cita entre comillas simples está
tomada de TiNGYANG (2009, p. 7).
45. La referencia esta vez corresponde a
ZHAO (2006).
46. Nombre honorário (Maestro Zun) de
Xun Kuang, también conocido como Xun
Qing, filósofo confucionano del período
de los Estados Guerreros (481-221 a.
C.). Sostenía que la naturaleza humana
es detestable per se, contradiciendo de
este modo a Mencio.
86
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 63-89
acerca de si el carácter distintivo de una Escuela (s) China reside en sus
métodos, temas, preguntas, conceptos básicos, construcción teórica o en
sus enfoques (KIM, 2016, p. 68)”. NOESSELT (2012, p. 16), por su parte,
hace presente que “la mayoría de los artículos citados en la base de datos
en línea sobre Relaciones Internacionales en China, administrada por la
Universidad de Nankai, no se reeren a la ‘Escuela China” ni a las ‘RI con
características chinas’. En su lugar, utilizan la expresión Zhongguo guoji
guanxi lilun, que puede traducirse como ‘Teoría China de RI’ o como
‘Teoría de RI en China’47.
En todo caso, más allá de la casuística especíca y de los eventuales
obstáculos que estos desarrollos teóricos –todavía en un estado muy in-
cipiente y primario– podrían enfrentar en el futuro48, es evidente que,
como dice Noesselt, los “marcos indígenas de referencia están ya en cons-
trucción. Y también está fuera de discusión que, al intentar revertir lo
apuntado por HOLSTI (1985), uno de los pioneros en esta área de estu-
dios, como uno de los rasgos principales de la etapa inicial de “aprendizaje
y copia, los especialistas chinos del área de las RI han decidido dejar de
ser “pasivos “consumidores” de las categorías conceptuales formuladas
por un aparataje ontológico y epistemogico que les es ajeno, y, en gran
medida, impuesto49, para convertirse en “productores” de teoría, avan-
zando de este modo desde la dependencia a la autonomía.
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47. El propio Noesselt presenta un
gráfico en su paper (fig. 2, p. 15), donde
registra la cantidad de temas vinculados
con esta temática en la literatura
especializada china entre 2000 y 2011
y los subdivide en cuatro categorías:
China + IR Theory, Chinese Characteris-
tics, Chinese School y Indigenization of
IR Theory.
48. Para profundizar al respecto se
sugiere ver KIM (2016, p. 73-76). Para
él, las principales vallas que dificultan
la concreción de una RI china en esta
etapa son: “(i) excepcionalismo; (ii)
dualismo; (iii) la romantización de la tra-
dición, cultura, historia y pensamiento
chinos; (iv) el engreimiento, más allá de
la autoconciencia de ser un gran poder;
y (v) la promoción explícita y directa del
interés nacional”. Una lectura distinta
y divergente en relación a las posibles
vallas para enfrentar esta tarea ofrece
XINNING (2001, p. 71-73).
49. Al menos, desde 1991 en adelante,
para seguir el punto de quiebre marcado
por Yaqing (apud NOESSELT, 2012, p.
16), aunque otros podrían afirmar, con
evidencia documental en la mano, que
el proceso de construcción de un corpus
teórico propio se inicia entre 1986 y
1987.
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90
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Da nova economia do projetamento à
globalização instituída pela China
From new projectment economy to Chinese embedded
globalization
De la nueva economia del proyectamiento e la
globalizacion instituída por China
Elias Jabbour1
Alexis Dantas2
Javier Vadell3
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2021v9.n3.p90
Recebido em: 19 de março de 2021
Aprovado em: 20 de setembro de 2021
R
O artigo propõe uma interpretação da ascenção da China a partir de uma
síntese entre economia política Internacional e geopolítica e tem como objetivo
decifrar dois processos políticos que se entrecruzam. Um de caráter doméstico,
outro global. O primeiro é o surgimento da Nova Economia do Projetamento
na China com seus valores civilizacionais construídos ao longo de 5000 anos de
história que se apresenta hoje como um contraponto geopolítico à globaliza-
ção neoliberal liderada pela grande nança e pelos Estados Unidos. O segundo
processo é a globalização instituida pela China (GIC) que se apresenta como
um constructo histórico institucional e multidimensional que se fortalece com
a Iniciativa do Cinturão e a Rota. A nossa hipótese é que ambos processos se
conjugam, não sem contradições, desaando os fundamentos institucionais
liberais de Ocidente e delineando uma renovada geopolítica híbrida, baseada
num sistema multipolar com traços intercivilizatórios. A partir desta experiência
histórica comum poder-se-á construir um multilateralismo inclusivo.
Palavras-chave: China. Nova Economia do Projetamento. Globalização instituí-
da pela China. Desenvolvimento. Geopolítica.
A
The article proposes an interpretation of the rise of China from a synthesis
between international political economy and geopolitics and aims to decipher
two intertwined political processes. One domestic, the other global. The rst is
the emergence of the New Projecting Economy in China with its civilizational
values built over 5000 years of history that present itself today as a geopoliti-
cal counterpoint to neoliberal globalization led by big nance and the United
States. The second process is the embedded Chinese globalization (ECG), which
presents itself as an institutional and multidimensional historical construct that
1. Professor Adjunto da Faculdade de
Ciências Econômicas da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (FCE-UERJ)
e dos Programas de Pós-Graduação
em Ciências Econômicas (PPGCE) e
em Relações Internacionais (PPGRI) da
mesma universidade.
Email: eliasjabbour@terra.com.br
2. Professor Adjunto da Faculdade de
Ciências Econômicas da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (FCE-UERJ)
e dos Programas de Pós-Graduação
em Ciências Econômicas (PPGCE) e
em Relações Internacionais (PPGRI) da
mesma universidade.
Email: alexis.dantas@gmail.com
3. Professor Adjunto do curso de Rela-
ções Internacionais da PUC-MG.
email: javier.vadell@gmail.com
91
Elias Jabbour, Alexis Dantas, Javier Vadell Da nova economia do projetamento à globalização instuída pela China
is strengthened with the Belt and Road Initiative (BRI). Our hypothesis is that
both processes come together, not without contradictions, challenging the libe-
ral institutional foundations of the West, outlining a renewed hybrid geopolitics,
based on a multipolar system with inter-civilizing characteristics. From this
common historical experience, an inclusive multilateralism could be built.
Key words: China. New Projectment Economy. Chinese embedded globaliza-
tion. Development. Geopolitics.
R
El artículo propone una interpretación del ascenso de China a partir de una
síntesis entre economía política internacional y geopolítica y pretende descifrar
dos procesos políticos entrelazados. Uno doméstico, el otro global. El primero
es el surgimiento de la nueva economia del proyectaminento en China con sus
valores de civilización construidos a lo largo de 5000 años de historia que se
presenta hoy como un contrapunto geopolítico a la globalización neoliberal
liderada por las grandes nanzas y los Estados Unidos. El segundo proceso es
la globalización instituida por China (GIC) que se presenta como un construc-
to histórico institucional y multidimensional que se fortalece con la Iniciativa
Cinturon y Ruta. Nuestra hipótesis es que ambos procesos conuyen, no sin
contradicciones, desaando los cimientos institucionales liberales de Occidente
y perlando una geopolítica híbrida renovada, basada en un sistema multipolar
con rasgos intercivilizantes. A partir de esta experiencia histórica común, se
puede construir un multilateralismo inclusivo.
Palabras clave: China. Nueva economia del proyectamiento. Globalizacion
instituida por China. Desarrojo. Geopolitica.
Introdução
Os condicionantes geopolíticos sobre os acontecimentos de diver-
sas ordens não é uma questão menor, pois – no limite do óbvio – envolve
o papel do Estado nacional, no curso dos aconcecimentos no sistema in-
ternacional. Por outro lado, o lugar do Estado nas mais diversas teorias
do desenvolvimento ainda é algo que demanda síntese. Por exemplo, os
grandes autores – desde Adam Smith – que estiveram ocupados em de-
senvolver teorias descritivas do processo de desenvolvimento econômico
não colocam o Estado no núcleo de suas teorias. Por exemplo, em Schum-
peter (1934 [2012]; 1939; 1942), o Estado está presente em toda sua obra,
assim como em Keynes (1936). Porém, em ambos a separação entre teoria
e história é digna de destaque. Esta relação é mais explicita em autores in-
uenciados pela losoa clássica alemã (Hegel), cabendo destaque a Hir-
shman (1958) e sua noção de desenvolvimento desequilibrado e Rangel
(1959 [2005]; 1981 [2005]) com os desdobramentos à teoria econômica do
conceito de dualidade básica da economia brasileira.
Apesar de ser uma pauta com desenvolvimento ainda inconcluso4,
propomos uma síntese entre a a Economia Política Internacional e a Geo-
política partindo de dois níveis de abstração, a saber:
1. reconhecendo o Estado nacional como o núcleo da teoria econô-
mica e essencial para a discussão do desenvolvimento econômico
2. percebendo que as ações dos Estados são movidas e condicio-
nadas geopoliticamente.
4. Do ponto de vista empírico, Mazzuca-
to (2013) evidencia esta necessidade.
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 90-105
Neste sentido, nenhuma unidade de alise é tão rica quanto a
chinesa para aqueles ocupados sobre as questões que envolvem o Esta-
do nacional moderno e o processo de desenvolvimento como sujeito e
objeto de uma construção geopolítica. Por exemplo, podemos perceber
as reformas econômicas da República Popular da China (RPC) de 1978
como uma síntese da percepção das possibilidades abertas pela nova or-
dem geopolítica inaugurada pelas transformações da economia política
global, que implicou na decadência do fordismo, e de seus “clones” no
antigo mundo socialista, e a ofensiva estadunidenese contra as políticas
macroeconômicas japonesas (GALBRAITH, 1987, p. 247). Ambos os pro-
cessos abriram condições para uma “globalização” guiada pela grande
nança e uma recomposição geogca da grande manufatura (BELLUZ-
ZO, 2012; JABBOUR E DANTAS, 2017). Em resumo, os governantes chi-
neses perceberam a oportunidade que se abria frente a eles e a utilizaram
em benecio de sua própria estratégia nacional.
É de conhecimento público a trajetória chinesa desde então. Entre
1978 e 2019 sua taxa real média de crescimento do PIB foi de 9,1%. A
renda per capita acompanhou similar taxa de crescimento (9,0), saindo
de US$ 280, em 1980 para US$ 8827, em 2018. Entre 1982 e 2011 a taxa de
investimentos x PIB foi de 36,9% e desde 2004 esta taxa opera acima da
casa dos 40% (World Bank Data). Desde 2013 é o país com maior volume
de comércio exterior no mundo, gerando efeitos generalizados sobre a
oferta e demanda de todos os países do mundo. O país já o maior credor
liquido do mundo. Em outras palavras, a trajetória chinesa desde 1978 se-
guiu um roteiro interessante e se caracterizou pela transformação do país
em uma potência comercial, industrial e nanceira. O tamanho de sua
economia, território e população é proporcional aos impactos políticos
e geopolíticos de seu processo de desenvolvimento econômico. Eis um
ponto fundamental.
A construção de imensa base produtiva acompanhada pela incorpo-
ração à economia real de plataformas e/ou instrumentos, como o 5G, In-
teligência Artical e do Big Data, não somente elevou a patamares novos
e superiores a capacidade de planicação e intervenção do Estado sobre o
território. Um patamar superior de desenvolvimento, interno ao núcleo
produtivo da economia (96 grandes conglomerados empresariais estatais)
surge e tem sido nomeado por nós de Nova Economia do Projetamento
(JABBOUR; DANTAS E ESPÍNDOLA, 2020)
O alcance externo do surgimento deste novo paradigma em maté-
ria de gestão e coordenação da produção e de planicação da economia
reete-se e se projeta ao mundo via a “Iniciativa do Cinturão e Rota, ace-
lerando o processo de reestruturação hegemônica global e, consequente-
mente, uma nova globalização e reconguração da divisão internacional
do trabalho agora centrada na China (HENDLER, 2019). A dimica que
levou ao surgimento desta Nova Economia do Projetamento está intrin-
secamente ligada ao surgimento e consolidação econômica e geopolítica
da China que tem suas raízes num novo tipo de formação econômico-so-
cial em fase embrionária: o socialismo de mercado.
Desta maneira, o objetivo deste artigo é fazer uma discussão que
relacione tanto o surgimento da Nova Economia do Projetamento e seus
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Elias Jabbour, Alexis Dantas, Javier Vadell Da nova economia do projetamento à globalização instuída pela China
impactos externos sobre os valores civilizacionais construídos ao longo
de 5000 anos de história da China, levando ao surgimento de um contra-
ponto geopolítico à globalização neoliberal liderada pela grande nança
da hegemonia estadunidense. Adotaremos aqui o conceito desenvolvido
por Vadell, Secches e Burger (2019) de “Globalização Instituida pela Chi-
na”5 (GIC), que se apresenta como um constructo histórico institucional e
multidimensional que se fortalece com a iniciativa do Cinturão e a Rota,
como esqueleto infraestrututral do GIC. A nossa hipótese é que ambos
processos se conjugam, não sem contradições, desaando os fundamen-
tos institucionais liberais de Ocidente numa renovada geopolítica num
sistema multipolar com traços intercivilizatórios que obrigam a reetir a
respeito da construção de um genuíno e inclusivo multilateralismo. Essa
geopolítica intercivilizatória, no plano ideacional, se fundamenta no pen-
samento de comunidade de destino compartilhada para a humanidade
(CDCH) que desaa o sistema westfaliano.
O artigo, além desta introdução está divido em outras duas seções
onde discutiremos a construção intelectual que nos levou ao conceito de
Nova Economia de Projetamento e o contraponto chinês à globalização
neoliberal, o GIC. Nas conclusões serão levantadas algumas sínteses.
Uma dupla disruptura intelectual
Há cerca de três anos temos observado uma série de transforma-
ções qualitativas no seio da economia chinesa. De forma mais detida, em
um primeiro momento observamos que a capacidade do Estado chinês
em programar um imenso pacote scal de cerca de US$ 600 bilhões ao
enfrentamento da crise nanceira de 2008 deveria ser objeto de um estu-
do mais aprofundado do que o convencional. Ou seja, o objeto não seria
o pacote scal em si, mas os mecanismos de elaboração e execução que
foram postos em marcha frente à crise econômica.
Em um primeiro momento percebemos que o fortalecimento dos
Grandes Conglomerados Empresariais Estatais (GCEE) – assim como a
conformação de um capilarizado sistema nanceiro estatal e de institui-
ções capazes de coordenar a ação do Estado na economia de forma efeti-
va, como a SASAC (State-Owned Assets Supervision and Administration
Commission of the State Council) – não era um m em si mesmo.
Esse fenômeno carrega historicidade e outorga sentido conceitual
ao que se conhece como “socialismo de mercado, algo muito distante
de um propalado “capitalismo de Estado. Em outros termos, na Chi-
na está emergindo uma nova formação econômico-social (JABBOUR E
DANTAS, 2018) que denominamos de “socialismo de mercado. Consi-
deramos a formação econômico-social como uma categoria central do
materialismo histórico, como a “totalidade e unidade de todas as esferas –
estruturais, superestruturais ou outras – da vida social, na (des)continui-
dade de seu desenvolvimento” (SERENI, 2013, p. 319). Nesse sentido, uma
formação econômico-social é uma “estrutura concreta, organizada, ca-
racterizada por um modo de produção dominante e pela articulação em
torno dele de um complexo conjunto de modos de produção subordina-
dos” (AMIN, 1974, p. 64). Gabriele (2020) chega a conclusões semelhantes
5. Em inglês: “Embedded Chinese
Globalization” (ECG)
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 90-105
colocando o socialismo de mercado chinês como a primeira experiência
de uma nova classe de formações econômico sociais contemponeas. O
Vietnã seria a segunda experiência.
Essa nova formação econômico-social é fruto de uma série de mu-
danças institucionais que foram se demarcando ao longo das últimas
quatro décadas na conformação de um modo de produção socialista do-
minante, embora embrionário, àquela formação. Seu núcleo são os 96
GCEE, as dezenas de bancos estatais de desenvolvimento e o próprio
poder político exercido pelo Partido Comunista da China (PCCh) que
confere os contornos estratégicos a um poder de novo tipo que surge no
mundo com a Revolução de 1949.
No interior desta nova formação econômico-social, há um modo de
produção capitalista cuja musculatura é formada ao longo da década de
1990, mediada por um intenso processo de privatizações e estímulo esta-
tal às relações de mercado e ao desenvolvimento das forças produtivas..
As reformas rurais de 1978, além de fazerem surgir uma classe de empre-
sas não-capitalistas orientadas ao mercado, também foi um fator de proa
ao surgimento de milhares de empresários, outrora camponeses médios.
Mas a contradição entre a alise e a realidade se impõe. Pesquisas
recentes zeram apontamentos interessantes e acertados sobre a partici-
pação e controle estatal sobre a riqueza e os uxos de renda na China. Pi-
ketty et al (2017) e Naughton (2017) têm conclusões semelhantes demons-
trando que o Estado chinês controla atualmente cerca de 30% da riqueza
produzida no país, enquanto que em 1978 esse controle alcançava 70%.
Porém, devemos destacar o aspecto qualitativo crucial que não se mencio-
na nessas pesquisas de foco mais quantitativo. Atualmente o Estado chinês
conta com uma capacidade muito maior de intervenção sobre a realidade
do que o tinha no nal da década de 1970. Como destaca He (2021), o pa-
pel do PCCh é mais proeminente hoje do que na década de 1990, embora
observemos que hoje as empresas privadas representam mais de 60% do
PIB da China e empregam mais de 80% da população ativa urbana. Como
se entende esse paradoxo? Uma pesquisa recente mostra que as células do
partido estão presentes e são cruciais nas empresas de propriedade não
públicas. De acordo com He (2021), baseado numa pesquisa de acompa-
nhamento nacional, a campanha de reconstrução do PCCh obteve alguns
resultados positivos. A proporção de empresas privadas com células par-
tidárias passou de 27% em 2002 para 48% em 2018. Isto é, quase a metade
das empresas não públicas possuem células do PCCh. Essa característica e
evolução da relação partido-empresas permitu que organizações partidá-
rias de base forneçam um canal para que as rmas alcancem os formulado-
res de políticas, os planejadores, dando aos proprietários acesso a melhores
informações sobre as políticas de desenvolvimento recentes e ajudando-os
a evitar tomar decisões equivocadas no ambiente de nogócios.
Concluímos, desta maneira, que a elevação da capacidade do Esta-
do em intervir na realidade qualitativamente novedosa impõe uma ne-
cessária revisão conceitual e teórica para compreender o fenômeno novo.
Faz-se necessária uma verdadeira disruptura intelectual.
A nossa primeira disrupção inicia-se com a percepção de a China
ter-se tornado o berço de uma nova formação econômico-social. Para o
95
Elias Jabbour, Alexis Dantas, Javier Vadell Da nova economia do projetamento à globalização instuída pela China
nosso propósito, a retomada do conceito de formação econômico-social
tem sido fundamental. Neste sentido a contribuição de Sereni (1971 [2013])
deve ser assinalada por trazer à tona uma totalidade histórica muito cara
a marxistas como Lênin, Mao Zedong, Milton Santos, Althusser e Ignacio
Rangel. Concordamos com Silva (2009, p. 1), para quem a categoria de
formação econômico-social teve em Emilio Sereni “a sua mais acabada e
rica compreensão, citando a seguinte passagem: (...) a noção (...) se coloca
inequivocamente no plano da história, que é (...) o da totalidade e unidade
de todas as esferas (estruturais, supra estruturais e outras) da vida social
na continuidade e ao mesmo tempo na descontinuidade do seu desenvol-
vimento histórico (SERENI, 2013 p. 316).
A retomada do conceito de formação econômico-social é apenas
a ponta do iceberg que nos permitiu observar a totalidade e suas partes,
percebendo a unidade de contrários que marca o surgimento e o desen-
volvimento histórico de uma formação econômico-social, assim como as
tendências em desenvolvimento em seu modo de produção dominante,
que também é o mais avançado. Desta maneira, abre-se a possibilidade
de outra disruptura intelectual com a percepção de novas regularidades
internas ao núcleo produtivo e de planejamento da China, as GCEE.
Essas novas regularidades às quais nos referimos estão diretamente
relacionadas às políticas industriais mais proativas em matéria de inovação
tecnológica que tem tomado lugar na RPC desde o lançamento do 10º
Plano Quinquenal6. Ao lado disso, a formação da SASAC em 2003 foi fun-
damental na consolidação do processo de corporatização das antigas em-
presas estatais e sua transformação em GCEE altamente ecientes e ino-
vadoras7. Elas estão diretamente relacionadas com pelo menos três fatores:
1) o surgimento de novas e superiores formas de planicação econômica:
que é causa e consequência do progresso técnico percebido nas GCEE e da
incorporação à economia real de todas as possibilidades abertas, à elevação
da capacidade de planicação, pela plataforma 5G, a Inteligência Articial
e o Big Data; 2) a China completou a construção de um poderoso setor
produtivo, amplamente baseado na geração de valor, criando condições de
gerar o que Marx chamou de setor improdutivo da economia8 e; 3) pres-
sões sociais e a emergência de uma combativa classe trabalhadora urbana
levou o governo chinês a ser mais responsivo em relação às demandas
populares e as imensas contradições sociais e ambientais acumuladas ao
longo das reformas econômicas9. Nesse rumo a China parece estar transi-
tando de uma economia voltada à construção de valores de troca a outra
baseada nos chamados valores de uso sob forma de imensos bens públicos.
O aparecimento de um imenso setor produtivo na economia chi-
nesa ladeado por uma série de instrumentos políticos, nanceiros e ins-
titucionais têm possibilitado mais um salto qualitativo dessa dinâmica
sociedade. Por um lado a predomincia do planejamento estatal sobre
os gânglios vitais da grande produção e da grande nança ao lado de
uma soberania monetária particular permite ao Estado gerir um proces-
so que entrelaça tanto uma maior restrição à ação da lei do valor quanto a
transição de uma planicação orientada à geração de valor e ao mercado
para o que chamamos de planejamento baseado no projeto (GABRIELE
E JABBOUR, no prelo).
6. Sobre isso ler Lo e Wu (2014).
7. A última lista Forbes das 500 maiores
companhias do mundo aponta para
uma, ainda lenta, transição de poder
sistêmico no mundo: pela primeira vez
na história desde seu lançamento em
1990 a referida lista não tem mais os
Estados Unidos como o país com o
maior número de empresas na lista; foi
ultrapassado pela China que conta com
129 companhias na lista (sendo delas
seis de Taiwan) contra 121 dos Estados
Unidos
8. Marx, como Smith, separava todas as
atividades econômicas entre produtivas
e improdutivas. As atividades produtivas
estão relacionadas aos setores de bens
e equipamentos geradores de valor, en-
quanto as atividades improdutivas estão
relacionadas à manutenção da ordem
social. A nosso ver o desenvolvimento
recente do capitalismo deve nos obrigar
a rever estes dois conceitos. Por outro
lado, a fim de compreender o socialismo
em nosso tempo, estendemos ao setor
improdutivo aquele apontado por Marx
em “A Crítica ao Programa de Gotha”
(1891) como parte dos chamados “fun-
dos de consumo”, para onde deveriam
ser dirigidos crescentes excedentes
do setor produtivo da economia. Tais
fundos de consumo teriam expressão
no desenvolvimento dos setores como
de educação, saúde, cultura, esporte,
recreação etc.
9. Yu (2015) discorre sobre a formação e
desenvolvimento de um amplo sistema
de saúde pública na China. O Global
Wage Report 2018 da Organização
Internacional do Trabalho atesta a
duplicação dos salários médios na China
entre 2008 e 2017.
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 90-105
É esta transformação operada ao longo dos últimos vinte anos que
explica, em grande medida, a crescente capacidade de intervenção do
Estado chinês sobre o território e a economia do país, independente da
queda da participação do Estado no que tange ao controle dos uxos de
renda no país.
Face a experiência sui generis da China, acumulamos evidências
sucientes que apontam a uma segunda disruptura intelectual, que se
faz necessária diante da mudança orgânica do sistema econômico chinês
em direção a algo complemente superior em matéria de organização da
produção. A nossa premissa é que as teorias convencionais ortodoxas e
heterodoxas não são mais sucientes para explicar a natureza do fenôme-
no em marcha na China.
Algumas das categorias fundamentais de alise lançadas pelo eco-
nomista brasileiro Ignacio Rangel em seu esquecido livro “Elementos de
Economia do Projetamento” (1959) lançaram as luzes fundamentais para
a elaboração de um novo corpo conceitual e categorial capaz de dar conta
da nova realidade econômica e social da China contemponea. Com essa
inspiração, surge assim o que temos chamado desde então de “Nova Eco-
nomia do Projetamento, conceito que pode ser resumido, em princípio,
como um estágio superior de desenvolvimento alcançado pela China, re-
sultado do acúmulo de todo um novo acervo em matéria de planicação
econômica e organização e racionalização da produção em grande escala.
Sob o prisma de uma base material que avançou de forma rápida
nas últimas décadas, de uma sociedade que demanda agilidade de ação
estatal, construção de grandes bens públicos e enfrentamento a uma série
de desaos colocados pela própria conjuntura política, uma leitura atenta
de “Elementos de Economia do Projetamento” é necessária para, nas pa-
lavras de Castro (2014, p. 206), perceber que:
(...) o projetamento é uma prática que se desenvolve em paralelo com uma teoria
que evolui no tempo e se alimenta com os problemas e soluções enfrentadas por
aproximações sucessivas e sistematizando (...) experiências dos analistas que,
naturalmente, são de diferentes escolas teóricas e de diferentes prossões.
No caso especíco da China, o projetamento se expressa não so-
mente na elevada capacidade de ação estatal diante de emergências como
o da pandemia de Covid-19, mas principalmente a partir da percepção de
algumas especicidades voltadas ao bem-estar geral da sociedade. Neste
sentido, na China – como em qualquer lugar – as categorias fundamentais
do projeto sintetizadas no custo e benefício podem ser percebidas como
extensão da visão prometeica rangeliana. A proposta por Rangel recoloca
os termos da relação custo-benefício da seguinte forma:
(...) os conceitos de custo e benefício devem ser reformulados, no sentido de que
comportem não apenas o custo e o benefício diretos, mas também os indiretos.
Nosso critério deve ser o custo benefício para a sociedade, não para a empresa
(RANGEL, 1956 [2005], p. 257).
Uma economia e uma sociedade capazes de restringir a ação da lei
do valor e se voltar a consecução de grandes projetos levou a China e se
caracterizar por ser uma economia voltada, como já dito, à construção
de grandes bens públicos, o que nos remete a Marx e à formação do setor
improdutivo da economia. Por outro lado, o avanço chinês no rumo de
97
Elias Jabbour, Alexis Dantas, Javier Vadell Da nova economia do projetamento à globalização instuída pela China
uma economia controlada pela razão humana condiz com a construção
de algumas categorias de alise e que tem servido de sustentação ao
conceito renovado de projetamento como forma histórica mais avançada
do socialismo com características chinesas. A constrão destas catego-
rias tem seguido rigor histórico e complexa base de dados.
Do ponto de vista da “Economia Política da Nova Economia do
Projetamento” podemos apontar para quatro categorias de alise: 1) a
possibilidade aberta de superação da incerteza keynesiana, fruto do do-
mínio público sobre os elementos fundamentais do processo de produ-
ção e nanciamento da economia do país; 2) a plena soberania moneria
como fundamento material essencial à explicação de uma economia que
não somente tem tido êxito à restrição da ação da lei do valor, mas que
não sofre de nenhum grau de restrição nanceira, dada a utilização cons-
ciente da criação de moeda para ns de execução de grandes projetos;
Um ponto a ser destacado, e que tem relação direta com o papel do
processo produtivo sob controle da razão humana, está na terceira catego-
ria de alise sintetizada na: 3) ação consciente de milhares de projetistas
ligados tanto às necessidades de catching-up quanto à subordinação da exe-
cução de projetos visando a superação do desemprego. Tal subordinação foi
a circunstância que levou a China a lograr o êxito de planicar a destruição
criativa de forma que uma queda no crescimento econômico recente não
impactasse na geração anual de cerca de 13 milhões de empregos urbanos.
Em quarto lugar: 4) o papel de vanguarda do PCCh condicionado
por melhoras substanciais nos padrões de vida do povo, a elevação do po-
derio nacional e a instituição de mega-projetos voltados ao bem estar da
sociedade. A contraparte subjetiva pode ser sintetizada na categoria que
chamamos de pacto tácito de adesão. O caso da prontidão nacional, que
se observou no combate à então epidemia de COVID-19 em Wuhan – que
depois viria a ser declarada pandemia – quando o PCCh levou 450 mil vo-
luntários e o Estado priorizou vidas em detrimento do lucro empresarial,
foi a cabal demonstração de que novos marcos de sociabilidade operam
sobre o concreto. O pacto tácito de adesão fez-se sentir, suplantando as
sociabilidades de formações econômico-sociais capitalistas, pela via do
ressurgimento de vozes de Estado-sociedade proclamando uma “Guerra
Popular” contra o vírus10.
Dois processos que se entrecuzam
Uma questão, quase em nível de senso comum, é relacionada ao
que seria uma “geopolítica da China”. Ou seja, qual seria a estratégia na-
cional chinesa diante de seus objetivos internos de curto, médio e longo
prazos? Propomos uma resposta inicial que abarque dois níveis distintos
de alise. A primeira relacionada a uma visão geopolítica centrada na so-
brevivência, manutenção, defesa e desenvolvimento de seu Estado nacio-
nal e civilização milenares, um “Estado civilizacional” (ZHANG, 2012).
Esta visão deve entender-se a partir de uma clara fusão entre teoria e his-
tória no processo de construir marcos teóricos, conceituais e categoriais
que sirvam de base à compreensão do que podemos chamar, também, de
geopolítica da Nova Economia do Projetamento.
10. Lo e Shi (2020) fazem interessante
análise comparativa entre China e
Estados Unidos no combate à pandemia
baseada nos conceitos de saída, voz
e lealdade desenvolvidos em famoso
livro de Hirschman (1970). Segundo os
autores, o caso chinês seria um “tough
model” e os EUA, um “loose model”.
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 90-105
No segundo nível de alise, dialeticamente relacionada com a
primeira, está a própria globalização que o processo expansivo da China
impulsa, tendo por base os avanços econômicos atrelados às novas e supe-
riores formas de planicação econômica que surgem no país. Em outros
termos, a sua projeção de poder. É nesse momento que adotamos a abor-
dagem desenvolvida por Vadell, Secches e Burger (2019), que contrapõe a
presente globalização (neoliberal) com a “Globalização Institucionalizada
pela China” (GIC), tendo como marco infraestrutural a Iniciativa Cinturão
e a Rota (Belt and Road Initiative). Em termos mais diretos, signica que:
La crisis económica de 2008 y el rol protagonista de China promovieron el pro-
ceso dialéctico del “doble movimiento”, (...) donde el neoliberalismo económico
y su modelo de globalización dio lugar a este proceso de contra-movimiento
encabezado por China. En este sentido, nuestra hipótesis es que en esta etapa
está ocurriendo un proceso de globalización institucionalizada con caracterís-
ticas chinas a escala global, que no abandona los principios liberales, como fue
destacado por Xi Jinping, especialmente después de la radicalización del discurso
proteccionista del presidente de los EEUU, Donald Trump (VADELL, SECCHES
E BURGER, 2019, p. 51)
o consideramos prudente relacionar a GIC como um construto
que tem operado na prática como uma alternativa à globalização proposta
pelo Atlântico Norte sem nos remetermos a alguns contornos históricos
fundamentais e que servem de poderosa base analítica aos interessados
na chamada “Geopolítica da China”. Uma teoria das relações internacio-
nais chinesas, necessariamente, deve ter como ponto de partida caracte-
rísticas histórico-civilizacionais que não só demarcam até os dias de hoje
o horizonte espiritual do povo chinês, mas que também estão presentes
no modus operandi da estratégia internacional chinesa. Essa GIC, embo-
ra embrionária, está condicionando os contornos de uma nova geopolíti-
ca especíca que, ancorada no BRI, An, Sharp e Shaw (2020) categorizam
como uma “geopolítica confucionista híbrida”. Essa proposta teórica re-
conhece o forte papel do confucionismo na continuidade da cultura chi-
nesa antiga até o presente e também enfatiza a adaptabilidade estratégica
do confucionismo para permitir que a cultura política chinesa dominante
responda de novas maneiras aos contextos em mudança (AN; SHARP,
SHAW, 2020, p. 13). Em outros termos, uma geopolítica de caráter inter-
civilizatória embrionária que está se congurando a partir del GIC.
Por outro lado, determinados apontamentos históricos devem ser
postos no debate. Diante de uma nova vaga histórica caracterizada pela
comparação entre Estados e instituições, muitos analistas foram levados
a ressuscitar, de forma vulgar, expressões como o “despotismo asiático”.
Abrindo parêntese, na verdade, a história das relações entre ocidente e
oriente são muito marcadas de idas e vindas. Se de um lado Heródoto,
pai da história e da geograa, referiu-se ao Egito como a “dádiva do Nilo”,
Aristóteles foi o primeiro a se referir à China como “despotismo orien-
tal. O pós-iluminismo marcou o rompimento de uma necessária era de
convergência civilizacional entre a China e a Europa, levada a cabo por
jesuítas (SPENCE, 1985; XIANG, 2020). Desde então, a democracia liberal
transformou-se em uma religião reveladora de um complexo de superio-
ridade ocidental que perdura até os nossos dias, mesmo entre círculos de
pensadores progressistas.
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Elias Jabbour, Alexis Dantas, Javier Vadell Da nova economia do projetamento à globalização instuída pela China
A China é uma civilização milenar, nascida após o processo de
sedentarização de tribos nômades nos grandes vales dos rios Yangtsé e
Amarelo. Com cerca de 5000 anos de existência, esta civilização passou
a orbitar em torno de milhares de famílias camponesas cuja produção
em larga escala de arroz e demais cereais foi-se tornando a principal ocu-
pação laboral. As possibilidades abertas pela abundância de água e solo
fértil levou a um rápido desenvolvimento de suas forças produtivas ma-
teriais, criando condições ao precoce surgimento de uma larga economia
de mercado11. Neste aspecto:
Antes de 2000 a. C. surgiram, em vários pontos distintos, elites gover-
namentais com o papel principal de construir pequenas obras regionais
de engenharia de irrigação, ao mesmo tempo em que nasceram cida-
des amuralhadas, trocas comerciais e especializações artesanais (...). As
aldeias camponesas eram fontes de mão-de-obra compulsória para os
trabalhos de engenharia mais amplos (...). Pouco a pouco foi nascen-
do e se consolidando o modo de produção asiático (MAMIGONIAN,
2008, p. 149).
O modo de produção tributário centralizado, como destaca Amin
(1976) – conceptualizando de maneira precisa o modo de produção asiá-
tico – consolidou-se sob as bases de uma organização de caráter admi-
nistrativo que estabelecia relações de vassalagem direta com as famílias
camponeas. Essa unidade administrativa tinha como base as já citadas
milhares de famílias camponesas cuja subjetividade espelhavam fortes
estruturas igualitárias dando margem a um precoce espírito tanto demo-
crático quanto insurgente diante de estruturas administrativas corrompi-
das, conforme as inúmeras revoltas camponesas comprovam12. No limite,
a administração pública e as famílias camponesas formavam dois polos
que entravam contradão, ciclicamente. Por outro lado e como amalga-
ma ideogica, o confucionismo foi crucial na consolidação da civilização
chinesa e os nervos do governo da administração burocrática secular que
impressionou intelectuais ocidentais como Leibniz y Weber. A diferença
de ocidente, na arte de governo no decorrer das dinastias chinesas, o sa-
grado não primou sobre o secular, mas o secular tornou-se sagrado13.
A disciplina envolvida no autocultivo assume um elemento contemplativo no
Neo-Confucionismo que está amplamente ausente na tradição clássica, mas a ên-
fase no autocultivo e na disciplina pessoal é constante. O secular pode se tornar
sagrado” (LEIBNIZ, 1994, p. 32)14
Guardadas as devidas proporções históricas, a China já surge como
uma forma primitiva de Estado desenvolvimentista secular (JABBOUR,
2012)15. Essa característica é resultado de um Estado nacional que nasce
tendo diante de si a tarefa de organizar, elaborar e executar milhares
de intervenções sobre o território diante da necessidade de contenção
de enchentes e de construção de cidades comerciais e administrativas.
o somente isso, observando a história da civilização e seu “Estado
criatura” percebendo a existência de ciclos expansivos e depressivos. Por
exemplo, em sua primeira fase descendente (770 a 71 a.C.) a metalurgia
de bronze espraiou-se sobre o território, sendo fator fundamental à ele-
vação da produtividade do trabalho no campo. Com isso, abriu-se uma
nova fase ascendente com a formação do Estado nacional, momento que
11. Importante salientar que os
camponeses chineses nunca viveram
sob o regime de servidão, ao contrário
do campesinato russo (MAMIGONIAN,
2008, p. 149)
12. Sobre o modo de produção asiático,
ler: Marx (1975) e Marx e Engels (1969).
13. A dinastia Han (206 a.C.- 220 d.
C.) montou um sofisticado aparelho de
Estado, incluindo a introdução de con-
cursos públicos à seleção de burocratas
do Estado.
14. No original: “The discipline involved
in self-cultivation takes on a contempla-
tive element in Neo-Confucianism that
is largely absent in the classical tradi-
tion, but the emphasis on self-cultiva-
tion and personal discipline is constant.
The secular can become sacred”.
15. Segundo Mamigonian (2008, p.
150): (...) As monarquias se consoli-
daram, suas capitais administrativas
fortificadas chegavam a alcançar 35 km
quadrados, seus maiores palácios 10 mil
metros quadrados, as forças militares se
tornaram permanentes, surgiu um siste-
mas de leis e a escrita se consolidou.
100
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 90-105
marcou – por exemplo – a imediata retomada da construção da Grande
Muralha com mais de 4.400 quimetros de extensão e contruída em
apenas dez anos.
É útil assinalar algo sobre as perspectivas subjetivas do povo chinês
e suas origens. A noção desenvolvida por Marx, ainda no livro 1 de “O
Capital, de trabalho necessário e trabalho excedente nos permite pensar
nas relações homem x natureza e a formação de subjetividades derivadas
desta relação. Se um ambiente natural marcado pela existência de vales
fertéis tornam o trabalho necessário menor em relação a pontos do globo
onde a hostilidade da natureza leva a um árduo trabalho humano para
seu domínio, não seria nenhum exagero armar que uma civilização chi-
nesa possa produzir losoas de cunho civilizatórias e tolerantes como
o confucionismo e o taoísmo. O oposto pode ser observado nos Esta-
dos Unidos da América (EUA), onde o horizonte espiritual é fortemente
inuenciado por ideologias de cunho religiosa nascidas nos ambientes
desérticos no Mediterrâneo oriental. Noções como o “destino manifes-
to” ou “Nova Can” são muito presentes nas políticas externas norte-
-americanas desde seu nascimento como nação. Por outro lado, não é de
estranhar que uma linha reta entre as lições de tolerância típicas de Lao
Tsé e Confúcio estejam amplamente presentes nos processos de inserção
internacional chinesa.
Nos dias de hoje, a China se apresenta historicamente como ponto
focal do sistema global multipolar do século XXI, reforçando uma parti-
cular GIC. Institucionalmente, ela deve ser entendida a partir de círculos
concêntricos que se reforçam simultaneamente: 1) o primeiro é a promo-
ção da assistência e cooperação às instituições multilaterais existentes (sis-
tema das Nações Unidas, FMI, Banco Mundial, etc.) com demandas por
um papel mais proeminente para os países em desenvolvimento e emer-
gentes com forte defesa ao multilateralismo; 2) o segundo círculo con-
cêntrico se fundamenta na promoção das relações minilaterais (Wang,
2014) em dois sentidos: realizando acordos entre a RPC com regiões es-
pecícas, via “política de fóruns” com países em desenvolvimento e, em
segundo lugar, acordos de comércio e investimento que a China assinou
com diferentes regiões do mundo (ex. da Parceria Regional Econômica
Abrangente – RCEP – e do Acordo integral de investimentos com a UE);
3) o núcleo deste círculo concêntrico são as relações bilaterais cssicas
com acordos mais ou menos abrangentes.
Esse constructo histórico-institucional multidimensional se conso-
lida com a inauguração da Iniciativa do Cinturão e a Rota ou Belt and
Road Iniciative (BRI), em inglês, em 2013, por parte do presidente Xi
Jinping (VADELL, SECCHES E BURGER, 2019), como uma espinha dor-
sal da rede de infraestrutura e tecnologia que interliga os ts círculos,
dando sentido material ao GIC y conformando uma renovada geopolítica
intercivilizatória.
O poder econômico e a expansão das relações internacionais da
China a obrigam necessariamente a reforçar o seu poder brando (soft po-
wer) que se apresenta, não só com o estímulo ao conhecimento da cultura
chinesa e das relações entre os povos, mas, sobretudo, a partir da ideia
de Comunidade do Destino Compartilhada pela Humanidade (CDCPH)
101
Elias Jabbour, Alexis Dantas, Javier Vadell Da nova economia do projetamento à globalização instuída pela China
que, em grande medida, questiona os paradigmas do capitalismo e do
universalismo ocidental.
Como destacam Vadell e Staiano (2020), a ideia geral de CDCPH16
aparece em setembro de 2011 no Livro Branco sobre o Desenvolvimento
Pacíco e posteriormente no discurso de Wen Jiabao durante a XIV Cú-
pula China-ASEAN. Essa expressão é retomada por Hu Jintao no discurso
de abertura do XVIII Congresso Nacional do Partido Comunista em 2012
(Hu, 2012), onde se aperfeiçoa o termo como: “comunidade humana com
um futuro compartilhado”. Não obstante, foi Xi Jinping, no seu famoso
discurso de 2015 à raíz do 70º aniversário das Nações Unidas, que expres-
sou a ideia da construção de “uma comunidade de destino compartilha-
da para a humanidade” (Xi, 2015), que inclui cinco conteúdos: associação
política, segurança, desenvolvimento econômico, trocas culturais e meio
ambiente. Essa perspectiva foi retomada no discurso nas Naciones Unidas,
em janeiro de 2017 (Xi, 2017b) e conrmada em outubro do mesmo ano no
relatório do XIX Congreso Nacional do Partido Comunista: a necessidade
essencial de “construir uma comunidade de futuro compartilhada” (Xi,
2017a). Na reforma de 2018, a noção: “comunidade de destino compartilha-
da para a humanidade”, 人类命运共同体 (Rénlèi mìngyùn gòngtóngtǐ)
foi incorporada à Constituição da China como parte do pensamento de
Xi Jinping sobre o socialismo com características chinesas para uma nova
era. Desta manera, torna-se um objetivo chave das relações internacionais
de China rumo à criação de uma nova orden internacional que inclui a
relacionalidade, a autoridade humana e a simbiosis” (STAIANO, 2018).
É sugestiva, neste sentido, a própria concepção de “Comunidade de
Destino Compartilhado para a Humanidade” como a ideia-força proposta
desde o governo Hu Jintao e reforçada por Xi Jinping. A CDCPH surge
como amalgama ideológica da GIC e se apresenta como a resposta chinesa
aos desaos comuns de um planeta instável, crescentemente perigoso e
vivendo sob uma forte crise ambiental. A CDCPH representa “uma nova
solução de governanza global proposta pela China”, que prevé a criação
de “uma comunidade global ve-in-one”, incluíndo “política, segurança,
economia, cultura e ecologia” (XUE, 2017: 337). A “comunidade” se refere
ao conjunto dos Estados, pequenos e grandes, que coexisten pacícamente
entre eles através de valores comunes inspirados pelos países líderes, res-
ponsáveis da ordem internacional (autoridad humana), respetando-se e aju-
dando-se mutuamente (simbiosis) e que dão sentido teórico prático à GIC
Esta construção é parte de um processo histórico cuja síntese é
uma decadência, mesmo que relativa, dos EUA em comparação com a
ascensão da China, que está se constituindo como parte de um polo de
poder, como um núcleo gravitacional chinês num espaço chamado de
“Sul Global. Segue uma interessante síntese:
A transição histórica em sua dimensão geopolítica começa a ser percebida com cla-
reza a partir de 1999-2001, quando brota germinalmente a situação de relativa multi-
polaridade que vivemos hoje, como uma reação à globalização nanceira neoliberal
anglo-americana e sua expansão política e militar. O declínio relativo dos Estados
Unidos e do “Ocidente”, de um lado, e o ressurgimento da China e da Ásia-Pacíco,
do outro, é uma das características centrais da mudança de época que vivemos, que
não pode ser interpretado apenas como mais uma transição hegemônica dentro do
sistema mundial moderno. Ou seja, como parte da sucessão de ciclos de hegemonia
do sistema mundial moderno iniciada no século XV. (...). (MERINO, 2020, p. 46).
16. A ideia não é alheia a Ocidente,
especícamente a uma tradição de
pensamento européia. Edgar Mo-
rin foi o primeiro que aprofundou
na noção “comunidade de destino”
teorizada por Otto Bauer (Schick-
salgemeinschaft), posteriormente
adotada pelo governo chinês com
a noção “comunidade de destino
compartilhada para a humani-
dade” 人类 命运 共同体 (Rénlèi
ngyùn gòngtóngtǐ). (Morin,
2001).
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 90-105
A decadência no âmbito político e produtivo do ocidente em rela-
ção ao avanço da China rumo a construção de uma “Nova Economia do
Projetamento” é parte das grandes marcas do presente quadro histórico.
Evidente que não podemos nos esquecer do grau crescente da violência
imperialista, como resposta à sua própria decadência, sob qualquer ângu-
lo de análise17. Desta maneira, a violência imperialista é um fator que deve
ser observado historicamente como expressão da crença dos EUA nos ci-
tados valores importados do Mediterneo Oriental, tornando o mundo
um local cada vez mais perigoso, imprevisível. O processo tornou o he-
gemon como o principal elemento de instabilidade mundial. A nanceiri-
zação, como dimica dominante de acumulação, reduz as possibilidades
dos Estados Unidos em se colocar como alternativa aos povos diante da
capacidade produtiva construída pela China nas últimas quatro décadas.
As condições histórico-conjunturais apontam para a possibilidade
de uma abordagem que relaciona a GIC com as capacidades estatais, colo-
cadas em teste com sucesso e amplamente resilientes à pandemia do Co-
vid-19. Tais capacidades estatais são sintetizadas em uma Nova Economia
do Projetamento e um horizonte construído no desenrolar da construção
losóca-espiritual da civilização chinesa, baseada em princípios tole-
rantes, coletivistas e de respeito à soberania dos povos. Talvez o termo
Tianxá consiga sintetizar esse espírito, como destaca Zhao (2019). Nesse
sentido, consideramos muito feliz a seguinte interpretação:
(...) o Tiānxià (天下) está associado à civilização e ordem na loso-
a chinesa cssica, formando a base para a visão de mundo deste povo e
nação. Ele consiste na representação de um sistema que permite a garan-
tia da ordem universal como objetivo maior da política, e cuja centralida-
de da estratégia do Zhōngg (中国) estaria atravessada pelo respeito à
noção de soberania dos demais países, uma vez que a harmonia é a con-
dição ontológica para a existência e desenvolvimento das coisas (...). De
outro modo, este é um conceito de um desenvolvimento compartilhado
e antiimperialista, que forma a cosmovisão de mundo de centralidade e
grandeza da China vis-à-vis sua interação com o restante do sistema in-
ternacional. (RODRIGUES E MARTINS, 2020, p. 168-169)
O que estamos a assistir é um movimento de longa duração onde
se inverte uma lógica de hegemonia ocidentalizante com uma duração
de cinco séculos e onde a própria China fora arrastada pela força e de for-
ma submissa à ordem westphaliana. Interessante notar que a solução chi-
nesa a sua questão de soberania passou pela incorporação do marxismo
importado criticamente pelo sucesso da Revolução Russa de 1917. Bom
lembrar que o Manifesto Comunista de Marx e Engels fora traduzida ao
mandarim em 1919, o PCCh foi fundado em 1921 e apenas 28 anos depois
assumiu o poder do país, restabelecendo a soberania nacional, colocando
no centro de sua “geopolítica” a proteção de seu berço territorial, ventre
de sua civilização18 e livre do colonialismo.
Dialeticamente a China assume uma posição na arena internacio-
nal onde seu desenvolvimento econômico se desdobra para muito além
de suas fronteiras. As possibilidades abertas por um estágio único e novo
de desenvolvimento (Nova Economia do Projetamento) colocam o país
em condições de destravar os investimentos em infraestrutura em escala
17. Segundo Fiori (2007, p. 88), durante
a era Clinton, os Estados Unidos se en-
volveram em 48 intervenções militares,
muito mais do que em toda a Guerra
Fria, período em que ocorreram 16
operações. Atualmente esse número já
ultrapassou a casa das 70 intervenções
militares.
18. Evidente que a percepção de Mao
Tsétung do potencial revolucionário
dos camponeses, atestado historica-
mente por violentas revoltas campo-
nesas contra dinastias decadentes, foi
fundamental ao sucesso da empreitada
revolucionária. Alegamos que o mesmo
instinto de “formação social” teve Deng
Xiaoping ao perceber que a milenar
capacidade comercial e empreende-
dora do camponês médio chinês seria
fundamental ao processo de reformas
econômicas iniciadas em 1978. O so-
cialismo chinês foi reinventado a partir
do desenvolvimento de instituições de
mercado que ligaram o projeto nacional
chinês às suas origens milenares.
103
Elias Jabbour, Alexis Dantas, Javier Vadell Da nova economia do projetamento à globalização instuída pela China
global. Suas instituições nanceiras, a capacidade instalada de sua indús-
tria, uma governança baseada na razão (Science-Based Government) e
a velha bandeira que um dia sacudiu a periferia colonial em nome do
direito ao desenvolvimento e planejamento das políticas nacional são os
cordéis da GIC.
O projetamento como um braço da GIC neste caso seria a expres-
são de uma moderna geopolítica híbrida, popular, de contornos antico-
lonialistas e de libertação nacional (SILVA, 2018) que tanto interessou a
intelectuais da estatura tanto de Ignacio Rangel19 quanto Domenico Lo-
surdo20. Eis o sentido da “Geopolítica da China” contemponea que está
em movimento e irá se constituir como consecuencia material (infraes-
trutura via BRI) e ideacional (CDCH) da GIC.
Considerões finais
Neste artigo buscamos levantar alguns apontamentos no sentido
de compreender o que comumente se chama de “Geopolítica da China”.
Para tal, lançamos mão de alguns pressupostos teóricos amplamente re-
lacionados com a necessária fusão entre teoria e história, tão cara tanto
a Hegel quanto a Marx, condensados no conceito de formação econô-
mico-social. Desta forma, situamos a Geopolítica da China a partir da
compreensão interrelacionada entre os conceitos de Nova Economia do
Projetamento e a Globalização Institucionalizada pela China (GIC), além
de destacar aspectos históricos fundamentais que ajudam a entender o
horizonte espiritual e a própria governança chinesa.
A GIC, amparada por sólidos instrumentos políticos, nanceiros,
institucionais e pelo BRI, gerados pela entrada da China em um inédi-
to estágio de desenvolvimento – Nova Economia do Projetamento – são
uma antessala de uma moderna geopolítica popular e anticolonialista,
em processo de evolução histórica.
Concluímos que a “Geopolítica da China”, enquanto expressão da
manutenção e reprodução dos valores civilizacionais do país, guarda di-
ferenças profundas em relação à geopolítica gestada pelo globalização -
nanceira levada a cabo pelo imperialismo nancierizado via globalização
neoliberal. Em outros termos, a denominada “geopolítica da China” se
expresa como um processo onde as relações internacionais são subsumi-
das muma geopolítica intercivilizatória, num movimento de hibridização
em aberto.
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Novo momento geopolítico mundial: a
pandemia e a aceleração das tendências
da transição histórico-espacial
contemporânea
New world geopolitical moment: The Pandemic and
the acceleration of the tendencies of the contemporary
historical-spatial transition
Nuevo momento geopolítico mundial: La Pandemia y la
aceleración de las tendencias de la transición histórica-
espacial contemporánea
Gabriel Esteban Merino1
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2021v9.n3.p106
Recebido em: 30 de março de 2021
Aprovado em: 01 de setembro de 2021
R
Pandemia acelerou um conjunto de tendências na transição histórico-espacial
mundial contemporânea, a partir da qual um novo momento dessa transição
se estabeleceu, manifestando-se como uma nova situação no mapa do poder
mundial. As tendências centrais incluem o ascensão relativa da China e da
Ásia-Pacíco e o declínio relativo dos Estados Unidos; crescentes contradições
político-estratégicas que alimentam guerras em múltiplas frentes e territórios; a
crise da hegemonia anglo-saxã americana e sua evolução no estágio de “desor-
dem mundial”; uma crise econômica estrutural; transformações nas relações de
produção articuladas a um novo paradigma tecnológico. Neste artigo é abor-
dado esse novo momento da transição histórico-espacial, em relação às tendên-
cias citadas e em duas dimensões articuladas: a crise econômica acelerada pela
pandemia em relação à transformação geoeconômica global e, por outro lado,
as características do novo momento geopolítico.
Palavras-chave: Pandemia. Transição histórico-espacial. Geopolítica. Transfor-
mação geoeconômica global.
A
The Pandemic accelerated a set of trends in the contemporary world historical-
-spatial transition, from which a new moment of said transition was established,
manifesting itself as a new situation on the world power map. Central trends
include the relative rise of China and Asia Pacic and the relative decline of the
1. Doctor en Ciencias Sociales, Instituto
de Investigacion en Humanidades y
Ciencias Sociales. Instituto de Rela-
ciones Internacionales, Universidad
Nacional de La Plata, Consejo Nacional
de Investigaciones Cientificas y Tecnicas
y Consejo Latinoamericano de Ciencias
Sociales. La Plat, Argentina. https://
orcid.org/0000-0002-7802/4307. Email:
gabrielmerino23@gmail.com
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Gabriel Esteban Merino Novo momento geopolíco mundial: a pandemia e a aceleração das tendências da transição histórico-espacial contemporânea
United States; growing political-strategic contradictions that fuel wars on mul-
tiple fronts and territories; the crisis of the American-Anglo-Saxon hegemony
and its evolution in the stage of “world disorder”; a structural economic crisis;
transformations in the relations of production articulated to a new technologi-
cal paradigm. In this paper this new moment of the historical-spatial transition
is approached, in relation to the aforementioned trends and in two articulated
dimensions: the economic crisis accelerated by the pandemic in relation to the
global geoeconomic transformation and, on the other hand, the characteristics
of the new geopolitical moment.
Keywords: Pandemic. Historical-spatial transition. Geopolitics. Global geoeco-
nomic transformation.
R
La Pandemia aceleró un conjunto de tendencias de la transición histórica-espa-
cial mundial contemporánea, a partir de lo cual se estableció un nuevo momen-
to de dicha transición, manifestándose como una nueva situación en el mapa del
poder mundial. Entre las tendencias centrales se destacan el ascenso relativo de
China y Asia Pacíco y el declive relativo de Estados Unidos; crecientes con-
tradicciones político estratégicas que alimentan guerras en múltiples frentes y
territorios; la crisis de la hegemonía estadounidense-anglosajona y su devenir
en la etapa de “desorden mundial”; una crisis económica con rasgos estructu-
rales en algunas regiones; transformaciones en las relaciones de producción
articulado a un nuevo paradigma tecnológico; e importantes dilemas sobre los
rumbos estratégicos a seguir en los países del Sur Global. En el presente trabajo
se aborda este nuevo momento de la transición histórica-espacial, en relación
a las tendencias mencionadas y en dos dimensiones articuladas: la crisis econó-
mica acelerada por la pandemia en relación a la transformación geoeconómica
mundial y, por otro lado, las características del nuevo momento geopolítico.
Palabras clave: Pandemia. Transición histórico-espacial. Geopolítica. Transfor-
mación geoeconómica global.
Introducción
En el mes de febrero de 2020, cuando la pandemia se concentraba
en la provincia china de Hubei, los analistas y editorialistas de la gran
prensa “occidental” perteneciente a los países que lideran la OTAN ha-
blaban del “Chernóbil chino. La interpretación era que el estallido del
covid-19 mostraba, al igual que el accidente nuclear en la URSS, la crisis
del régimen chino y la posibilidad de su desmoronamiento. Dos meses
después, la situación había dado un giro de 180 grados. Beijing desplega-
ba todas sus capacidades económicas, sanitarias, diplomáticas y coope-
rativas a nivel mundial, mientras las igenes de las fosas comunes en
Hart Island, New York, contrastaba con las imágenes de la construcción
de un hospital en diez días en Wuham o la llegada de donaciones chinas
y equipos médicos a distintas partes del mundo. En lugar de analizar el
Chernóbil chino”, la famosa revista inglesa The Economist (2020) se pre-
guntaba en su tapa y en referencia a las consecuencias geopolíticas de la
pandemia, “¿China está ganando?”.
La Pandemia sirvió como catalizador para acelerar un conjunto de
tendencias de la transición histórica-espacial mundial en que nos encon-
tramos, a partir de lo cual se establece un nuevo momento de dicha tran-
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sición, manifestándose como un nuevo momento geopolítico. En este
sentido, Qiao Liang, general chino retirado y teórico militar, ar:
No es la primera vez que el hombre se enfrenta a una epidemia y no todas las
epidemias provocaron un cambio tan signicativo. Para cualquier cambio, la
causa externa es el factor desencadenante y la causa interna es el factor decisivo.
Esta epidemia es sólo la gota que colmará el vaso de este ciclo de globalización y
la fuerza motriz que lo impulsa. (DANGDAI, 2020)
Las tendencias principales son:
El ascenso de Asia Pacíco y de China en particular y, por otro lado,
el declive relativo del Occidente geopolítico y de Estados Unidos en par-
ticular. Asistimos a la conguración de un mundo multipolar y al mismo
tiempo con rasgos bipolares, junto a crecientes contradicciones entre el
Norte Global y el Sur Global.
Crecientes contradicciones político estratégicas, donde predo-
mina un patrón de conicto entre las fuerzas y potencias dominantes
del anterior orden unipolar contra las fuerzas y potencias emergentes
que apuntan a un orden multipolar, presionando para redistribuir el
poder y la riqueza mundial. Este es el trasfondo de la mundialización
y generalización de la guerra híbrida y fragmentada: guerra comercial,
guerra nanciera a través de sanciones y bloqueos, guerra de informa-
ción, guerras en distintos escenarios combinando formas regulares con
irregulares, etc.2, profundizando el devenir de la crisis de hegemonía
a caos sistémico, según la conceptualización propuesta por Arrighi y
Silver (2001).
Una crisis de hegemonía que se expresa, a su vez, como una crisis
del orden mundial (establecido a partir de la posguerra y recongurado
en 1980-1990), de sus instituciones multilaterales y de su legitimidad.3
Una crisis económica estructural que se observa con claridad desde
2008, especialmente en el Norte Global, y que está en relación a la crisis
del capitalismo nanciero neoliberal y su globalización.
Una transformación en las relaciones de producción en articula-
ción a un nuevo paradigma tecnológico (inteligencia articial, internet
de las cosas, salto en el proceso de robotización, etc.), que se conoce como
cuarta revolución industrial” o la “digitalización de la industria” – vis-
lumbrando en China un nuevo desarrollo en la combinación de modos
de producción que da lugar a un nuevo salto del modelo de “socialismo
de mercado”.
Procesos disruptivos en los países periféricos y semiperiféricos, en
donde se agudiza la tensión entre declive periférico o, por el contrario, el
desarrollo de capacidades y procesos de insubordinación para enfrentar
estas tendencias presentes acelerando la transición geopolítica.
En la búsqueda de comparaciones históricas para comprender el
presente –que siempre deben tomarse más como metáforas explicativas e
ilustrativas más que como teleológicas repeticiones—, dentro de los Esta-
dos Unidos hay autores que denen el momento actual como semejante
al momento “Suez” (CAMPBELL Y DOSHI, 2020), comparándolo con la
intervención fallida en Suez en 1956 que marcó el nal del Reino Unido
como el principal imperio/potencia mundial. También desde la visión
liberal crecen las voces sobre el nal de la hegemonía estadounidense,
2. En Merino (2020b) se avanza en la de-
finición del concepto de guerra mundial
híbrida y fragmentada.
3. El concepto de hegemonía que se
utiliza está en diálogo con lo desarrolla-
do por Cox (2016), Arrighi y Silver (2001)
y Arrighi (2007).
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como expresan Cooley y Nexon (2020), para quienes el liderazgo global
de Estados Unidos no está simplemente en retirada sino que se está desha-
ciendo y observan que este descenso no es cíclico, como fue el de los años
setenta del siglo XX, sino permanente.
No resulta casual que esta crisis se compare con el colapso de 1929
o las caídas económicas de la Segunda Guerra Mundial, aunque a pri-
mera vista sus causas parezcan distintas. El crack de 1929 y la depresión
económica subsiguiente se corresponden con el período de entreguerras
en plena transición histórica del sistema mundial, con la crisis del orden
mundial y con la agudización de la lucha interimperialista que devendría
en guerra comercial y económica, carrera armamentística y tecnológica,
guerra en escenarios secundarios y nalmente guerra mundial. El aire
de familia entre la situación del pasado y la presente es que el mundo
atraviesa por procesos de transición con profundas transformaciones en
la cartografía del poder. En este sentido, si en la crisis de 1929 Estados
Unidos fue el epicentro, pero el golpe más fuerte se sintió en Europa y
destruyó algunos de los pilares fundamentales de la hegemonía británica,
ahora la pandemia tuvo como primer epicentro China –provocando un
signicativo golpe sanitario, económico y político— pero los principales
impactos se están viendo en el Occidente geopolítico y en particular en
Estados Unidos, acelerando su declive relativo y, en consecuencia, la crisis
de hegemonía y su devenir en caos sistémico.
En el presente trabajo se aborda este nuevo momento de la transi-
ción histórica-espacial, en relación a las tendencias mencionadas y en dos
dimensiones articuladas: la crisis económica acelerada por la pandemia
en relación a la transformación económica mundial y las características
principales de la crisis del orden mundial en relación a la transición geo-
política y al nuevo momento geopolítico mundial que se establece a partir
de la pandemia.
Crisis en el Norte Global y transición geoeconómica
La pandemia produjo un enorme golpe recesivo global. En China,
el principal centro dimico de la economía mundial desde 2008 –dato
que ya indica una transformación geoeconómica estructural—, durante
el primer bimestre de 2020 la producción industrial cayó 13,5% interanual
(primera contracción desde enero de 1990) y las ventas minoristas se des-
plomaron 20,5%, mientra que en el primer trimestre su PIB cayó el 6,8%
anual. Sin embargo, terminó el año con 2,3% de crecimiento. En el de-
nominado Norte Global, el golpe se sintió a partir del segundo trimestre,
pero fue mucho más profundo y signicó un año con caídas históricas:
Estados Unidos -3,5% de PIB en 2020, la eurozona -6,6%, el Reino Unido
-9,9% y Japón -4,8%.
El coronavirus actuó como catalizador, acelerando la crisis econó-
mica mundial. Desde 2008 buena parte del mundo ingresó en una fase
de bajo crecimiento, que particularmente se acentúo en el núcleo orgá-
nico de la economía capitalista mundial. Ello coincide con que desde
ese año se produjo un freno al denominado proceso de “globalización
económica por el cual, desde los años ochenta, por cada punto de cre-
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cimiento del PBI mundial, creció dos puntos el comercio y tres puntos
la inversión extranjera directa. Esta realidad se reforzó con la llegada
al poder de Donald Trump en Estados Unidos y los intentos por llevar
adelante un proceso de desacoplamiento con la economía china, ligados
a una política proteccionista e industrialista de inspiración neo hamilto-
niana (MERINO, 2019).
Como vemos en el gráco 1, Europa y Japón tenían en 2019, ya
antes de la pandemia, un PIB en dólares (nominales) inferior al de 2008.
Sólo Estados Unidos muestra crecimiento, el cual en parte se debe a que
exacerbó los privilegios de emitir la principal moneda de reserva mun-
dial y nanciar junto con la emisión de deuda, sus décits estructurales
(comercial y scal), y sus salvatajes nancieros. Entre 2008 y 2014 la Fed
emitió 3,5 billones de dólares y su deuda pública pasó de 64,64% (2007)
al 104,26% (2018) de su PIB. Además, Estados Unidos todavía puede be-
neciarse de sus capacidades estratégicas, su poder nanciero y los mo-
nopolios tecnológicos que conserva imponiendo su poder sobre aliados y
adversarios, aunque dicha situación se encuentre cada vez más difícil de
sostener porque el costo geopolítico es, justamente, el resquebrajamiento
del sistema de alianzas y de las instituciones del orden mundial que sos-
tenían su hegemonía.
1. PIB en dólares a precios actuales
Fuente: elaboración propia en base a datos del Banco Mundial.
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2. Tasa de crecimiento por países y regiones seleccionadas 2000-2019
Fuente: elaboración propia en base a datos del Banco Mundial
Autores neokeynesianos como Summers (2014) comenzaron a deno-
minar hace unos años a esta situación como de estancamiento secular. Por
su parte, Nouriel Roubini —asesor del Secretario del Tesoro durante el
gobierno de Barack Obama— explicaba en 2015 las razones por las cuales
lo extraordinario deviene en ordinario en tiempos de estancamiento:
Con el tiempo los rendimientos nominales y reales negativos pueden mover a
los ahorradores a ahorrar menos y gastar más y ése es el objetivo de los tipos de
interés negativos: en un mundo en el que la oferta supera a la demanda y un exce-
so de ahorro se disputa unas pocas inversiones productivas, el tipo de interés en
equilibrio es bajo, si no negativo. De hecho, si las economías avanzadas padecie-
ran un estancamiento largo, un mundo con tipos de interés negativos tanto a cor-
to como a largo plazo podría llegar a ser la nueva normalidad. (ROUBINI, 2015)
Este mismo economista liberal analizando los efectos de la Pande-
mia (ROUBINI, 2020) sostiene que a partir de la Pandemia pasaremos del
estancamiento a la fase de la Gran Depresión.
Por otro lado, Chesnais (2019) observa que la imposibilidad de la
economía mundial de retomar el crecimiento una década después de la
crisis de 2007-2008, reeja la avería del motor de la acumulación de capital
a largo plazo, en el marco de la nanciarización y la globalización. Una de
las características de la globalización, señala el autor, es la brecha existen-
te entre la tasa de crecimiento de los derechos de giro sobre el valor aña-
dido producido y la de este último, medida por el producto interior bruto
(PIB) mundial. La nanciarización se vincula, entonces, con la pérdida de
mejoras en la productividad y el estancamiento. “Un nivel de inversión
inferior al de los benecios en términos del porcentaje del PIB es la causa
tanto de un aumento relativo de la masa de capital monetario que busca
valorizarse en los mercados nanciero como de una pérdida de mejoras
de la productividad, pues estas solo pueden materializarse mediante nue-
vas inversiones.” (CHESNAIS, 2019: 10)
Roberts (2018) analiza que la productividad no crece porque no cre-
ce la inversión –especialmente la inversión en alta tecnología— y ello a su
vez se debe a la caída en la tasa de ganancia y el exceso de deuda – espe-
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cialmente corporativa –, lo que consolida un escenario en el que la econo-
mía capitalista mundial no ha podido volver a las tasas de crecimiento de
tendencia anteriores desde el nal de la Gran Recesión en 2009. Esto con-
rma, para Roberts, que existía una “depresión” ya antes de la Pandemia
o lo que Ross (2019) denomina nueva “mediocridad Occidental, donde el
crecimiento de los países del G7 post 2008 es incluso inferior al de la Gran
Depresión de la década de 1930, lo que contrasta con las exponenciales
tasas de crecimientos chinas.
La cuestión de la nanciarización y el estancamiento debe articu-
larse con el alisis a largo plazo, ya que se encuentra estrechamente re-
lacionado a la crisis de hegemonía y los procesos de sobre-acumulación
de capital propios de estas transiciones geopolíticas (ARRIGHI Y SILVER,
2001). Desde esta perspectiva, las expansiones nancieras en todo el sis-
tema son el resultado de dos tendencias complementarias: una sobreacu-
mulación de capital (capital que no encuentra inversiones rentables en la
producción y el comercio) y una intensa competencia interestatal por el
capital móvil –competencia que necesariamente está en relación a una
agudización de las disputas geopolíticas. Para Arrighi, tomando palabras
de Braudel, las expansiones nancieras del sistema son un signo de otoño
de una hegemonía.
Integrando algunos de los elementos mencionados, aquí se sostiene
que desde 2008 en el núcleo orgánico de la economía capitalista mundial
hay una crisis de sobreacumulación del capital (“el exceso de ahorro en-
cuentra unas pocas inversiones productivas” leímos de Roubini en una
cita anterior); una crisis de sobreproducción y, por lo tanto, de realización
(“la oferta supera a la demanda”), en gran medida como producto de la
estrategia neoliberal que deprimió salarios (y multiplicó la desigualdad)
para aumentar las ganancias, apropiadas fundamentalmente por las redes
nancieras globales; y hay un proceso sistémico de nanciarización que
la pandemia no hizo más que exacerbar. En plena Pandemia, el endeuda-
miento y la llamada “hiperliquidez” sostenidas por la gran emisión y la
tasa de interés casi al 0% o incluso negativa en las principales potencias
han dado un nuevo salto, alimentando una enorme burbuja. En 2020 la
Reserva Federal emitió en tres meses 3 billones de dólares (casi todo lo que
había emitido en seis años de extraordinaria hiperliquidez) y ha comprado
una gran masa de activos, lo que a su vez estuvo acompañado por fuertes
emisiones de bonos del Tesoro de Estados Unidos. Todo un nuevo nivel
del privilegio exorbitante del dólar. Incluso algunas voces en los princi-
pales medios de comunicación nancieros llegaron a denir la situación
como una nacionalización de facto del mercado de bonos.4 Por su parte,
el balance del Banco Central Europeo se expandió en 1 billón de dólares,
mientras que el de Japón en 0,7 billones. El resultado es que se ha profun-
dizado la brecha, entre la economía real y el mercado de valores inado
por la nanciarización –que se exacerba especialmente en las empresas
tecnológicas de punta como Alphabet, Amazon, Apple, Facebook y Mi-
crosoft, las cuales representan ahora una quinta parte del índice S&P 500.
El problema es que se trata de un proceso difícil de frenar, menos
en las actuales condiciones geopolíticas, lo cual se corresponde con el he-
cho de que la deuda pública esté en niveles cercanos a los de la Segunda
4. “Córrete a un lado Bill Gross. Fuera
de acá Jeffrey Gundlach (…) Hubo
muchos aspirantes a la corona que
alguna vez pertenecieron al fundador
de Pimco. Pero sin duda el nuevo mo-
narca del mercado de bonos es Jerome
Powell, el presidente de la Reserva
Federal.” Robin Wigglesworth, “Larga
vida a Jerome Powell, el nuevo rey del
mercado de bonos”, Financial Times, 23
de junio de 2020.
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Guerra Mundial en Estados Unidos. Además, el riesgo de frenar el pro-
ceso de nanciarización es el de profundizar la lucha entre capitales o
interempresarial y que ello alimente aún más la polarización política y
las fracturas en el llamado establishment. De hecho, como también se ad-
vierte en The Economist (2020), la pandemia ha agudizado una situación
que ya era explosiva: “La caída perjudicará a las empresas más pequeñas y
dejará a los sobrevivientes corporativos más grandes en una posición más
fuerte, aumentando la concentración de algunas industrias que ya eran
un problema antes de la pandemia. Una crisis exige sacricio y dejará una
gran factura.5 La propia expansión nanciera instrumentada para evitar
una depresión profunda que exacerbaría las tensiones políticas y sociales,
implica o refuerza procesos de “acumulación por desposesión” que tiende
a polarizar aún más a la sociedad. A su vez, la creciente transferencia de
riqueza hacia el capital nanciero concentrado tiende a provocar una in-
cluso mayor sobreacumulación del capital y las recurrentes crisis de renta-
bilidad. Ello crea una profunda crisis de legitimidad y exacerba las tensio-
nes entre las clases populares y el gran capital nanciero, alimentando las
luchas de clases, resquebrajando aún más el contrato entre el gran capital
y las clases trabajadoras del centro (ya en crisis por las transformaciones
del capitalismo en las últimas décadas) y exacerbando las características
plutocráticas de las repúblicas occidentales. También se polariza aún más
la relación centro- periferia, alimentando las luchas Norte Global – Sur
Global y dejando más en evidencia el dilema entre periferialización o in-
subordinación En resumen, el estancamiento, la depresión económica y
la nanciarización inevitablemente agudizan la lucha entre capitales, las
luchas económicas mediadas por los estados (por recursos naturales, mer-
cados, monopolios tecnológicos y nancieros, etc.) y las luchas de clases
articuladas con luchas identitarias.
La imposibilidad del viejo orden mundial de contener-subordinar
a los polos de poder emergentes, en los que sobresale China, a su vez
implica la imposibilidad de establecer una estrategia para la superación
de la crisis económica del Norte Global (MERINO, 2016). Estos territo-
rios semi-periféricos –fundamentales para la expansión del capital trans-
nacional y solución espacial de la dimica de acumulación a partir de
los años 80’— en la medida en que desarrollaron mayores niveles de au-
tonomía relativa, rechazaron las recetas del Consenso de Washington y
aprovechan la crisis y luchas internas del viejo “centro” mundial para im-
pulsar sus propios proyectos nacionales de desarrollo, se convierten en
obstáculos para las fuerzas dominantes del núcleo orgánico. Las acciones
imperialistas para intentarlo, pueden dar resultados coyunturales pero
en general aceleran el declive relativo y con ello la crisis. A ello hay que
sumar que incluso dentro del propio Norte Global emergen los naciona-
lismos conservadores articulados con las fracciones de capital retrasadas
y distintos grupos privilegiados golpeados por la crisis, que impugnan al
globalismo y, también, por otro lado, un creciente malestar y despertar
político de las clases populares.
En otras palabras, frente a la crisis de la globalización nanciera
neoliberal conducida por las grandes redes nancieras y transnaciona-
les del Norte global, se le opone tanto la reacción nacional conservadora
5. Datos actuales sobre este proceso
pueden leerse también en Orlik, Jime-
nez and Sam (2021), en dónde no sólo
se puede observar el acelerado proceso
de concentración y centralización de
capital, y la centralidad de las grandes
tecnológicas, sino también la presencia
cada vez más importante de empresas
chinas.
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del centro (expresada políticamente en Donald Trump y el Brexit, entre
otros), como la reacción de las clases populares del centro y procesos de
resistencia e insubordinación en el Sur global. A su vez, a la globaliza-
ción en versión occidental se le enfrenta la nueva mundialización china
comandada por los grandes conglomerados estatales y la política exterior
multilateral dual de Beijing: participa de las viejas instituciones multila-
terales diseñadas por Estados Unidos y Occidente a la vez que crea nue-
vas instituciones e impulsa la dimica multipolar. Como observa Vadell
(2019), asistimos también a la emergencia de otra globalización, con carac-
terísticas chinas. Ello se refuerza con el hecho de que China cuente con
124 de las 500 principales empresas a nivel mundial medidas por ingresos
(90% de las cuales son estatales), cuando en 2007 tenía sólo 25, superando
por primera vez a Estados Unidos (121), según el índice Fortune Global
500 de 2020, aunque en gran parte la magnitud de las empresas chinas se
explique todavía por la propia escala de su mercado interno6 – como suce-
día en gran medida en la comparación entre empresas estadounidenses y
británicas a nes de siglo XIX.
La cuestión es qué tipo de mundialización se impone, desarrolla
su territorialidad y subsume-subordina a las demás, lo cual también se
juego dentro del propio territorio chino – como también en el conjunto
de los territorios nacionales con sus situaciones y contradicciones parti-
culares – en un mundo en donde no existe la exterioridad sino grados de
autonomía relativa.
Transición geoeconómica
El centro dimico de la acumulación mundial se ha trasladado de
Occidente hacia Asia Pacíco, produciéndose una transformación geoe-
conómica secular iniciada por Japón y protagonizada ahora por China
que, contando con casi una quinta parte de la población mundial y un
cuarto de la fuerza de trabajo mundial (940 millones de personas), crece
hace 40 años de forma continuada y a una tasa de 9,5% anual, mientras
que la media mundial fue de 3%. Ya a nes de 2014 Estados Unidos fue
superado por China por primera vez desde 1872 como la mayor econo-
mía estatal medida en PIB (PPA), país que ya en 2013 se había convertido
en el mayor país exportador de bienes y servicios. Por otro lado, hace
años EEUU también perdió el primer lugar como principal plataforma
industrial mundial: en 2019 su PIB industrial fue de 2.3 billones de dólares
(16.7% del total mundial) mientras que el de China llegó a 4 billones de
dólares (28,4%), igual a la suma de EEUU, Alemania y Japón.
China ya no se limita a ser la gran fábrica del mundo en tanto se-
mi-periferia industrial del núcleo orgánico del capitalismo mundial --que
en la nueva división del trabajo “posfordista” y la transnacionalización
económica a partir de 1970-80 deslocaliza de forma directa o indirecto los
eslabones de menos complejidad a la vez que se especializa y monopoliza
el diseño, las altas nanzas, la tecnología de punta y la administración es-
tratégica, comandando desde las redes nancieras globales y sus transna-
cionales los ujos de dinero, mercancías, servicios e información. Un dato
clave es que China ya superó a Estados Unidos en solicitudes de patentes,
6. Desde otra perspectiva, algunas
de estas debilidades de China en la
comparación económica con Estados
Unidos y otras potencias económicas
son resumidas en Mercatante (2021, p.
191-196)
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incluso en lo que reere a tecnologías de vanguardia (aunque ciertos aná-
lisis cualitativos puedan relativizar este hecho cuantitativo). En ese con-
texto, la empresa china de alta tecnología Huawei –el mayor proveedor
mundial de equipos de telecomunicaciones con un 28% de participación
del mercado— obtuvo en 2019 un total de 4144 patentes y encabezó este
índice, seguida de lejos por la estadounidense Qualcomm, con 2127 paten-
tes (HIRO, 2020).Además, esta potencia re-emergente que converge hacia
el núcleo tecnológico-productivo mundial, ya está en liderando algunas
tecnologías de vanguardia de la llamada “cuarta revolución industrial,
como en inteligencia articial, internet de las cosas y 5G sobre una masa
de datos (Big Data) muy superior a la de Estados Unidos. También lide-
ra la transición energética junto a otros países de Asia Pacícoy planea
achicar su retraso tecnológico relativo en otras ramas como la robótica,
los semiconductores y la industria aeroespacial a través del Plan Made in
China 2025 y otras iniciativas. Esta es una de las razones principales de
por qué el Estados Unidos de Donald Trump lanzó la guerra comercial
contra China –pero también contra sus aliados y “vasallos” tradicionales,
a los que les demanda sostener la primacía estadounidense.
China se encuentra en pleno devenir de gran taller manufacturero
mundial hacia la conformación del centro económico productivo-tecnoló-
gico de mayor magnitud global, avanzando en todos los niveles de com-
plejidad a una escala que plantea un nuevo umbral de poder estatal. Sus
productos industriales de alta tecnología pasaron de constituir el 7% del
valor mundial en 2003 a un 27% en 2014, aunque la debilidad era que di-
chas exportaciones se hacían desde China pero protagonizadas por trans-
nacionales del Norte. Ahora y en pocos años, también ha desarrollado y/o
adquirido sus propias empresas que comandan dichos procesos, así como
sus marcas y diseños. Frente al GAFA estadounidense (Google, Amazon,
Facebook y Apple) emerge el BATX chino (Baidu, Alibaba, Tencent y Xiao-
mi), que achica año a año distancia e incluso es superior en algunos puntos
especícos. Una expresión territorial de esta transformación geoeconómi-
ca es lo que acontece en el delta del río de las Perlas, donde se está confor-
mando una megalópolis de 70 millones de personas, que posee un PIB de
1,5 billones de dólares y se desarrolla como centro de alta tecnología mun-
dial, en donde se destacan las ciudades de Guangzhou, Shenzhen (base de
Huawei, Tencent y ZTE), Zhuhai, Macao, Hong Kong y Dongguan. Allí se
producen el 20% de los teléfonos “inteligentes” del mundo y se construyó
el puente marítimo más largo del planeta que une a Hong Kong, Zhuhai y
Macao. Estas son algunas de las razones por las que en China se consum
en tres años (2011-13) la misma cantidad de cemento que en Estados Unidos
en un siglo (ROSALES, 2020). Por otra parte, ahora también compite por
primera vez al máximo nivel junto a otros centros tecnológicos mundiales
en el desarrollo de medicamentos y de la vacuna para el covid-19, a lo que
debemos agregar que el 90 por ciento de los antibióticos se hacen en China
y que este país provee el 80 por ciento de materias primas para todos los
medicamentos del mundo. La otra cara de la moneda es que los salarios casi
que se triplicaron en los últimos doce años, a partir del giro político que se
produjo en parte por la presión de sus movilizadas clases trabajadoras que
obligaron a importantes transformaciones en el modelo de desarrollo.
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Además de lo mencionado en el plano productivo-tecnológico, Bei-
jing también ha quebrado los monopolios comerciales mundiales en ma-
nos del Norte Global y disminuyó relativamente su debilidad en el plano
nanciero. En este último punto, se destaca un dato central a partir de
la pandemia, que se agrega al lanzamiento en 2018 de la una plaza de
comercialización de petróleo en yuanes: China se está convirtiendo en
una plaza de reserva de valor en plena crisis, destacándose como segundo
mercado bursátil mundial y el principal destino de la IED en 2020. Un
dato nanciero que muestra el poderío de Beijing es que los tres primeros
bancos más importantes del mundo y el quinto según activos son chinos
(y son estatales).
Que China haya conseguido la primacía productiva, quiebre par-
cialmente los monopolios tecnológicos del Norte Global, dispute el acce-
so-producción-comercialización mundial de las materias primas, o que
junto a Rusia termine con el monopolio de la supremacía militar absoluta
de Washington y el polo de poder anglo-estadounidense, son indicadores
de un nuevo mapa de poder mundial. Ello alimenta la situación económi-
ca de disputa: guerra comercial, guerra nanciera (a través de sanciones
y otros mecanismos) y guerra por la supremacía tecnológica (con Huawei
y el 5G como punta del iceberg), que constituyen tres frentes en lo que se
libra la actual Guerra Mundial Híbrida y Fragmentada iniciada en 2014.
La crisis, acelerada por la pandemia, implica una gran destrucción
de valor y, por otro lado, desde el punto de vista de la producción, se
acelera el proceso de “cuarta revolución industrial. Se trata de dos caras
de un mismo proceso de destrucción creativa, que conlleva a una trans-
formación y reingeniería social que hoy vivimos bajo una situación de
emergencia, y cuyo desarrollo es aún incierto. Se aceleran los procesos
de racionalización y transformación tecnoproductiva en los núcleos más
dimicos de la economía mundial y en Asia-Pacíco en particular, lo que
desplaza, devalúa o lleva a la ruina a las unidades menos productivas; lo
cual se traslada a la lucha político-estratégica.
Mientras los estados de las economías capitalistas centrales toda-
vía no parecieran poseer las herramientas para destrabar la dimica del
estancamiento y declive relativo, donde la rentabilidad gobierna y la pro-
ductividad crece lentamente, China parece tener una ventaja estratégica
en su modelo de desarrollo híbrido o combinado: se mantiene propiedad
colectiva de la tierra, los núcleos centrales de la economía están en manos
de grandes empresas estratégicas estatales que planican e invierten con-
tra-cíclicamente para enfrentar las situaciones globales de crisis, y existe
un fuerte desarrollo de las empresas de pueblos y aldeas de propiedad co-
lectivas y semi-privadas, que son una de las principales empleadoras de la
economía (AMIN, 2013) y que funcionan dentro de la lógica del mercado
pero no bajo la modalidad capitalista7. En este escenario, mientras los es-
tados de las economías capitalistas centrales no poseen las herramientas
sucientes para destrabar el proceso descrito anteriormente y quebrar la
dimica del estancamiento, Beijing tienen el poder de lanzar un progra-
ma de inversión masiva, como se hizo en la Gran Recesión de 2008-2009
(aunque existen alertas de sobreendeudamiento y burbujas en algunos
sectores), para sostener el crecimiento y aumentar constantemente la
7. Para Arrighi (2007, p. 363), estas
empresas pueden haber desempeñado
un papel tan crucial en el ascenso
económico chino como lo hicieron las
corporaciones verticalmente integradas
y administradas burocráticamente en el
ascenso de los EE.UU. un siglo antes.
117
Gabriel Esteban Merino Novo momento geopolíco mundial: a pandemia e a aceleração das tendências da transição histórico-espacial contemporânea
productividad, porque el estado controla las nanzas nacionales (desde
las cuales dirige el excedente a asegurar el empleo y el crecimiento) y
comanda públicamente los núcleos de su economía; además de contar
con una población comprometida en el desarrollo productivo a través de
distintas formas de propiedad y/o participación económica. Ese poder no
existe para los gobiernos de las principales economías capitalistas, donde
la rentabilidad gobierna y la productividad se estanca (Roberts, 2018).
Así, en la formación social china se ha desarrollado una combina-
ción de relaciones de producción capitalistas y no capitalistas, en dónde
estas últimas pesan más en el empleo (GABRIELE Y JABBOUR, 2020); de-
sarrollándose a una escala extraordinaria una combinación de modos de
producción, denominada “socialismo de mercado”8 y conducida desde un
cleo de 95 conglomerados estatales. En ella se mixturan una profunda
economía de mercado, con su capacidad para asignar recursos y denir
precios en función de la ley del valor (que además opera en el mercado
mundial), junto con la planicación estratégica estatal y comunitaria con
su capacidad para asignar ecazmente recursos de acuerdo a objetivos
de desarrollo de las fuerzas productivas y empleo, y también las formas
comunitarias con su capacidad para asignar recursos de acuerdo al bie-
nestar social relativo. Elementos que se combinan no sin profundas con-
tradicciones, las cuales se expresan dando lugar a importantes choques de
tendencias políticas y horizontes complejos, entre los que se destacan las
implicancias de la profundización de la desigualdad, los contrastes territo-
riales, el problema ambiental o el avance de las tendencias capitalistas que
podrían imponerse desequilibrando el modelo de “socialismo de merca-
do”. El desarrollo de estas contradicciones y sus resultados denin ras-
gos fundamentales del devenir de la actual transición histórico-espacial.
Nuevo momento geopolítico mundial
Actualmente estamos en el proceso inverso del que sucedió a nes
del siglo XVIII y principios del siglo XIX, en donde el imperialismo capi-
talista occidental encabezado por Gran Bretaña logró subordinar y peri-
ferializar las economías más importantes del mundo, China y la India.
Luego del vertiginoso ascenso de Japón y de los tigres asiáticos durante
el siglo XX, re-emerge China, el centro histórico de Asia Pacíco, que
hasta principios del siglo XIX explicaba una tercera parte de la economía
mundial. Si bien la re-emergencia de China tiene una larga historia que se
inicia con la revolución de 1949, cuando se resuelve el proceso de libera-
ción nacional iniciado en 1912 con la República, en el siglo XXI podemos
señalar, por lo menos, cinco momentos claves9, que marcan cambios fun-
damentales en el mapa del poder mundial.
1. 1997-2001. Después de recuperar Hong Kong en 1997 y Ma-
cao en 1999, últimos grandes vestigios coloniales territoriales
de occidente, en 2001 se consolida nalmente la Organiza-
ción para la Cooperación de Shanghái (OCS) una especie de
OTAN defensiva en Eurasia cuyo desarrollo se había inicia-
do en 1997, en alianza con Rusia y los países de Asia Central
Kazajistán, Kirguistán, Tayikistán, Uzbekistán. Tres meses
8. Jabbour, Dantas y Espíndola (2020)
definen que en China el nuevo modo de
producción que emerge debe conceptu-
alizarse como una “economía de proyec-
tamiento” a partir de la fusión entre la
economía monetaria, el keynesianismo y
la planificación estatal.
9. En Merino (2016) se añade un
momento más en 2011 a partir de las
Guerras de Libia y Siria. En este caso,
se prefiere incluir dicho momento dentro
de la periodización que se abre a partir
de 2008 con las gran crisis económica
mundial.
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después de fundar la OCS y luego del ataque terrorista cono-
cido como 11/S, Estados Unidos y aliados deciden justamente
entrar en guerra en Afganisn, territorio sur de Asia central.
Además, en aquel año China ingresa a la Organización Mun-
dial del Comercio. Por otro lado, marca todo un hecho de
rearmación soberana al derribar un avión espía norteameri-
cano en su territorio. Por su parte, el gobierno de George W.
Bush pone n al encuadramiento geopolítico de “asociación
estratégica en el siglo XXI” y pasa al de “competencia estraté-
gica”. A su vez, la administración estadounidense comienza a
ver muy negativamente la incipiente pero creciente inuen-
cia económica de China en América Latina.
2. 2008-2009. El segundo momento se produce a partir de la cri-
sis nanciera y económica global, con epicentro en Estados
Unidos. Beijing produjo a partir de allí un gran giro apuntan-
do sus enormes recursos excedentes al mercado interno. Para
ello disminuyó en más de 60% el nanciamiento a Estados
Unidos a partir de la compra de bonos del tesoro (MARTINS,
2019). Ello modicó en buena medida la dimica de trans-
ferencia de excedente hacia Estados Unidos, que absorbe el
ahorro global y nancia su doble décit estructural (scal y
comercial). Además, expandió la inversión en ciencia y tec-
nología, y avanzó en la adquisición de activos estratégicos y
la expansión global de sus empresas, convirtiéndose en un
jugador principal en la inversión extranjera directa, especial-
mente en el Sur Global y en la compra de activos tecnológicos
clave del Norte. Hacia el 2009 se produjo el lanzamiento del
BRICS (Brasil, Rusia, India, China y Sudáfrica), articulando
en un bloque a las potencias industriales de la semi-periferia
en la búsqueda de recongurar el Orden Mundial, a partir
de la democratización de la riqueza y el poder global. No es
casual que desde 2008 se haya cuadruplicado nominalmente
el PIB de China: acumulación económica y fortaleza política
van de la mano, manifestándose en este caso y nuevamente,
en la capacidad de ruptura de los dispositivos y mecanismos
de la dependencia. 
3. 2013-2014. En 2013 Beijing lanza la revolucionaria Iniciativa
de la Franja y la Ruta (Belt and Road Initiative -BRI-) frente a
las estrategias de contención impulsadas por Washington y
sus aliados (Merino, 2020). Junto a esta iniciativa, China im-
pulsa una nueva arquitectura nanciera de escala mundial,
como el Banco Asiático de Inversión e Infraestructura (BAII)
y el Banco de los BRICS, que ensombrecen al FMI y el Banco
Mundial. A su vez, se profundizan las alianzas con Rusia en
todos los planos para consolidar una estructura de poder en el
continente Euroasiático que contrarresta la superioridad del
“Imperio de Mar”. Estos movimientos aumentan las reaccio-
nes de Estados Unidos y el Occidente geopolítico y alimen-
tan el desarrollo de una guerra mundial híbrida desde 2014
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Gabriel Esteban Merino Novo momento geopolíco mundial: a pandemia e a aceleração das tendências da transição histórico-espacial contemporânea
(especialmente a partir del conicto en Crimea y Ucrania y
el avance del BRI). En plena crisis de hegemonía, se reconoce
de facto una situación de conicto generalizado, que da lugar
a la multiplicación de enfrentamientos bélicos que, de una u
otra forma, directa o indirectamente, involucran a los princi-
pales poderes mundiales. El mundo se encuentra inmerso en
una contienda fragmentada e híbrida de nueva generación,
donde se combinan elementos bélicos convencionales (entre
Estados con ejércitos regulares) con “irregulares” o “no con-
vencionales” y se juega en múltiples frentes –pensemos en los
conictos de Siria, Ucrania, Libia, Yemen, Irak, Afganistán,
etc, pero también, bajo formas más difusas, en Cuba, Vene-
zuela, Bolivia, Nicaragua y el conjunto de América Latina.
Los enfrentamientos se multiplican y se despliegan hacia
todos los ámbitos: guerra comercial, ciberguerra, guerra de
monedas, guerras nancieras, guerra judicial (o lawfare), etc.
4. 2016-2017. Con el triunfo político que obtienen las fuerzas
antiglobalistas en Estados Unidos y Reino Unido (triunfo de
Donald Trump y Brexit) se inicia un nuevo momento. Estas
fuerzas las conforman los grupos de poder y fracciones de
capital que se sienten perdedores en la globalización o entien-
den que ya no es funcional a sus intereses, las cuales practi-
can el unilateralismo en lugar del multilateralismo unipolar
globalista y se oponen en buena medida a las instituciones in-
ternacionales construidas bajo la hegemonía anglo-estadou-
nidense, así como también los grandes acuerdos comerciales
multilaterales impulsados desde el Norte Global (MERINO,
2018). Esto cambia la geoestrategia del polo principal del po-
der mundial. Comienza la guerra comercial y la guerra eco-
nómica-nanciera se profundiza y generaliza a través de blo-
queos y sanciones unilaterales por parte de Estados Unidos, a
lo que se suman distintos frentes y territorios en disputa para
dar inicio una especie guerra mundial híbrida. El orden mun-
dial construido por Washington y sus aliados se derrumba,
mientras el enfrentamiento entre potencias es formalizado
por Estados Unidos en el cambio de la estrategia militar pre-
sentada en diciembre de 2017, donde vuelve a ser central la
pugna con estados rivales que amenazan la “prosperidad” y
los “valores” de Estados Unidos en el mundo, especialmente
China y Rusia. En sintonía con esta modicación, en marzo
de 2019 la Unión Europea denió por primera vez a China
como un “rival sistémico”, aunque también tenga importan-
tes diferencias con Estados Unidos. A esto siguió en diciem-
bre la Declaración de Londres de la Organización del Trata-
do del Atlántico Norte (OTAN) mediante la cual, también
por primera vez, se subraya “la creciente inuencia interna-
cional china”. La OTAN extendió más allá de Rusia su foco
de atención y focalizó a Beijing como un reto signicativo
(TOKATLIAN, 2020).
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 106-130
5. 2020-2021. El golpe de la pandemia en el escenario del poder
mundial implicó el inicio de un nuevo momento geopolítico.
La inuencia internacional de Beijing ha crecido, mientras el
polo de poder que hasta la pandemia era el dominante (aunque
ya no hegemónico) muestra más signos de declive relativo. Chi-
na se ha convertido denitivamente en un actor global y parece
estar dispuesta a asumir ese papel, produciéndose un salto cua-
litativo en las tendencias estructurales que mencionamos.
Poder infraestructural
El nuevo escenario mundial se observa en distintos indicadores
económicos, sociales, tecnológicos y militares, pero también debemos
analizar un elemento central que se pasa por alto o que no tiene sucien-
te atención. Por lejos, los países de Asia-Pacíco mostraron una capacidad
socio-estatal muy superior frente a la Pandemia del Covid-19. Su capaci-
dad para controlar la enfermedad, tener un bajísimo número de fallecidos
y a su vez mantener funcionando la economía los deja en una posición
muy superior frente a otras regiones del mundo y, especialmente, en rela-
ción a la situación de Estados Unidos y Occidente, donde se combina una
estrepitosa caída en la economía junto con un desastre sanitario.
3. Personas fallecidas por Covid-19 cada 100 mil habitantes por país
Fuente: elaboración propia en base a datos de John Hopkins University (29/03/2021)
Si miramos el cuadro con la cifra de fallecidos por país cada 100 mil
habitantes se observa que los países de Asia Pacíco como China, Japón,
Corea del Sur, Vietnam y Taiwán se destacan por bajísimo nivel en este
indicador, en contraste con Occidente y con América Latina. Son países
que además cuentan con una altísima densidad de población y en el caso
de China se trata del país más poblado del mundo, además de ser un país
de “ingresos medios”, similar a Brasil, por lo que no hay una correlación
directa entre riqueza por persona y respuesta a la Pandemia.
Debe tenerse en cuenta que estos números son provisorios y re-
copilan las informaciones ociales de cada país. Sin embargo, se pueden
relacionar dichos resultados parciales no sólo con las decisiones guberna-
mentales y cuestiones culturales – que sin duda son fundamentales –, sino
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Gabriel Esteban Merino Novo momento geopolíco mundial: a pandemia e a aceleração das tendências da transição histórico-espacial contemporânea
también con capacidades socio-estatales de los distintos territorios para
hacer frente a situaciones críticas. Dichas capacidades están vinculadas a
lo que algunos autores como Mann (2007) denominaron el poder infraes-
tructural del estado, que desde nuestra perspectiva denimos como la ca-
pacidad del estado, en tanto sociedad civil más sociedad política (el Estado
en sentido amplio), para poner en ejecución logísticamente las decisiones
y acumular/desplegar capacidades tácticas y estratégicas. Eso implica una
fortaleza estructural que se dene por la suma de activos físicos, activos
humanos, organizacionales, institucionales y una legitimidad fundada en
una cosmovisión compartida que hace posible el poder infraestructural.
En este sentido, China ha demostrado con la pandemia un enor-
me poder infraestructural, que se observa tanto en su interior como
en la política exterior. Esto se aprecia en la imágenes que mostraban la
construcción de un hospital en diez días y la combinación de fortalezas
organizaciones colectivas con los últimos avances en la tecnología, pero
también en el hecho de que en el mes de marzo, cuando la pandemia azo-
taba todavía su territorio, China exportó 3.860 millones de máscaras, 37,5
millones de trajes de protección, 16.000 ventiladores y 2,84 millones de
kits de detección de Covid-19 (La Vanguardia, 4/5/2020). Es decir, no sólo
abasteció en pleno golpe a su inmensa población con las armas necesarias
para hacer frente al Covid-19, sino que al mismo tiempo fue el gran abas-
tecedor global de los productos sanitarios básicos. Este poder infraestruc-
tural se tradujo en un inmenso “soft-power” debido a la capacidad para
liderar la cooperación internacional.
Provocativamente el general retirado chino Qiao Liang armó en
una entrevista (DANGDAI, 2020), que “Lo importante no es saber cuán
terrible es la epidemia sino darse cuenta de que tanto los Estados Unidos
como Occidente han tenido su hora de gloria y que ahora se han enfren-
tado a esta epidemia mientras se encuentran en declive.”El propio Zbig-
niew Brzezinski (2013), uno de los referentes del pensamiento estratégico
estadounidense, analiza luego de la crisis de 2008 que las importantes
debilidades estructurales de su país evidenciaban un importante declive
relativo y la consecuente pérdida del “liderazgo”. Allí enumera seis aspec-
tos críticos:
Una deuda insostenible y los décits presupuestarios estruc-
turales (que desde entonces no hicieron más que profundi-
zarse).
Un sistema nanciero defectuoso, que constituye una bom-
ba de tiempo sistémica debido a su comportamiento riesgoso
y de auto-engrandecimiento. Además, ha producido un cre-
ciente riesgo moral que causa indignación en el pueblo esta-
dounidense.
La creciente desigualdad de ingresos, que unido al estanca-
miento de la movilidad social es peligroso a largo plazo para
el consenso social y la estabilidad democrática, dos condicio-
nes necesarias para el sostenimiento de una política exterior
ecaz.
La decadencia de la infraestructura nacional. La Sociedad
Americana de Ingenieros Civiles, en su reporte sobre la in-
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fraestructura de los Estados Unidos, calicó la situación en
la abismal nota D. D en aviación, C- en vías férreas, D- en
carreteras y D + en energía. El estado de la infraestructura
de Estados Unidos es ahora más representativo de un poder
o potencia deteriorada. En un mundo donde la rivalidad sis-
témica entre los Estados Unidos y China es probable que se
intensique, la decadente infraestructura es un símbolo y un
ntoma del declive de los Estados Unidos.
Un público que es muy ignorante sobre lo que sucede en el
mundo y, por ello, muy manipulable.
Un sistema político crecientemente congestionado y alta-
mente partidista (o polarizado, en una traducción menos lite-
ral pero más correcta).
Las respuestas económicas implementadas desde Washington
agrandaron la “deuda insostenible” e hicieron crecer exponencialmen-
te el décit presupuestario estructural, sin modicar la regresividad del
sistema. Por otro lado, el “sistema nanciero defectuoso, que constituye
una “bomba de tiempo sistémica” también se vio apalancado, llegando
a nuevos récords la gran burbuja que se transita desde 2008. Además,
vimos estallar profundos conictos sociales cuyo trasfondo central son
las desigualdades estructurales y crecientes que atraviesan el territorio
estadounidense y que exacerban los conictos de clase y el racismo. El
sistema sanitario colapsado o la brecha tecnológica y los serios problemas
de conectividad para poder estudiar en estados como en el de California,
en donde se encuentra el corazón tecnológico del Norte Global, son otra
muestra de la desigual realidad social. La ignorancia sobre lo que sucede
en el mundo por parte del gran público fue alimentada por la impresio-
nante propagación de noticias falsas y la guerra informativa. Incluso el
propio presidente Donald Trump aprovechó la característica paranoica
de importantes sectores del público estadounidense acusando a China de
expandir el coronavirus “intencionadamente” con el objetivo de desesta-
bilizar la economía.10
Por último, la puja política y las contradicciones sociales al inte-
rior de los Estados Unidos se han profundizado, polarizando aún más el
sistema político y agravando la crisis institucional. Basta observar los es-
tallidos en contra de la violencia policial racista, el creciente descontento
social o la propia toma del capitolio por parte de seguidores de Trump.
Las pujas entre el globalismo y el americanismo en la denición de la po-
lítica externa e interna han dado un nuevo salto, y el propio trumpismo
signicó el crecimiento de una fuerza nacionalista conservadora y reac-
cionaria, que profundizó el nativismo anti-globalista y anti-multicultural,
ahondando las grietas que surcan la sociedad estadounidense.
Los límites del poder estadounidense
La situación de declive relativo de Estados Unidos y el polo de po-
der anglo-estadounidense, también se expresa en el plano militar, que
junto al poder nanciero-monetario, parecían ser dimensiones indesaa-
bles por cualquier rival hace menos de dos décadas. En el ocaso de la
10. Entrevista con Wall Street Journal,
18 de junio de 2020. Disponible en:
https://www.wsj.com/articles/transcrip-
t-of-president-trumps-interview-with-
-the-wall-street-journal-11592501000
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Gabriel Esteban Merino Novo momento geopolíco mundial: a pandemia e a aceleração das tendências da transição histórico-espacial contemporânea
Guerra Fría, el gasto militar chino representaba apenas el 1% mundial
según cálculos del Instituto Internacional de Estocolmo para la Investiga-
ción de la Paz (SIPRI). Ahora el gasto militar chino ya equivale al menos
a 14% del global, aproximadamente un poco más de un tercio del gasto
estadounidense (38%), brecha que se acorta en términos reales. Y este
sigue creciendo en tiempos de pandemia: Li Keqiang, el primer minis-
tro, anunció un aumento del gasto en defensa para 2021 de 6,6% (SIPRI,
2020). A lo largo de 2019, los gastos militares alcanzaron 1,9 billones de
dólares en el mundo, con un incremento de 3,6 por ciento en un año,
alcanzando su mayor nivel desde el nal de la Guerra Fría –todo un dato
del clima de época.
Según un informe de este año del Servicio de Investigación del
Congreso de los Estados Unidos, la primacía naval estadounidense está
en crisis en el Pacíco occidental (Congressional Research Service, 2020),
en cuyo centro, el Mar de China Meridional, circula el 30% del comercio
mundial y, como vimos, se encuentra la región más dimica de la eco-
nomía global. A este dato se le agrega que la nueva capacidad misilística
de Beijing en la región es difícil de equilibrar para Washington.11 En esta
línea, en junio de 2020 se dio a conocer que China iba a establecer una
Zona de Identicación de Defensa Aérea (ADIZ, en inglés) en el mar de
China Meridional, donde existen territorios en disputa con otros países
de la región. Esto se suma al ADIZ establecido en 2013 en el Mar de China
Oriental donde mantiene una disputa territorial con Japón sobre las islas
Diaoyu o Senkaku. Beijing también consolida su posición en Hong Kong,
mediante una nueva ley de seguridad nacional, territorio que se considera
un punto de avanzada fundamental de occidente –colonia británica hasta
1997 cuando vuelve a manos de Beijing, pero donde el poder anglo-esta-
dounidense sigue teniendo gran inuencia y se hacen visibles las diferen-
tes “chinas” que están en juego. Por otro lado, a mediados de abril de 2020
los medios chinos publicaban la decisión del gobierno de crear dos nuevos
distritos como parte de la ciudad de Sansha, en la sureña isla de Hainan y
parte de la avanzada geoestratégica en el Mar de China Meridional.
Frente a esta situación, en julio de 2020 Estados Unidosdesplegó
allí dos portaaviones y trató de reforzar la presencia en la región, aun-
que resultan cada vez más evidentes los límites de su poder. Hasta aho-
ra, Washington armaba mantener la neutralidad en las disputas terri-
toriales. Pero a partir del 13 de julio se alineó con Vietnam y Filipinas,
mediante declaraciones públicas del Secretario de Estado, Mike Pompeo
(miembro del ultraconservador Tea Party y quien ahora protagoniza una
feroz escalada discursiva contra China, proponiendo una nueva Guerra
Fría):Las reclamaciones de Beijing sobre recursos en aguas no costeras a
lo largo de la mayor parte del mar del Sur de China son completamente
ilegales, como lo es su campaña de coerciones para controlarlos”. Y agre-
: “El mundo no permitirá que Beijing trate el mar del Sur de China
como su imperio marítimo” (VIDAL LIY, 2020). Este alineamiento tam-
bién implica el quiebre en el papel de árbitro de los Estados Unidos en la
región, un indicador más del quiebre de la hegemonía.
Lo central a analizar es que en el diseño geopolítico de la hegemo-
nía estadounidense desde el n de la Segunda Guerra Mundial ha existido
11. “En la conmemoración del 70º
aniversario de la fundación de la
República Popular, China sacó pecho
con las últimas joyas de su industria
armamentística. En Tiananmen se
exhibieron por primera vez el DF-41 —
capaz de alcanzar cualquier país desde
su territorio y lanzar hasta 12 cabezas
nucleares—, la última versión de los
bombarderos estratégicos H-6N —con
un rango de combate de más de 5.000
kilómetros— y el JL-2 —un misil ba-
lístico intercontinental de lanzamiento
submarino—. Beijing mostró al mundo
su tríada nuclear, su arsenal atómico
listo para ser utilizado desde tierra, mar
y aire.” Torralba (2020)
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una línea roja en Asia Pacíco que marca el límite estratégico que una
coalición liderada por Estados Unidos y Japón debe mantener para evitar
que China (o una coalición antihegemónica) se convierta en una global,
lo que implicaría la pérdida de la primacía mundial de Washington (BR-
ZEZINSKI, 1997). En la actualidad, ese límite ya ha sido traspasado, con
lo cual el solapamiento estratégico está en curso, lo cual se refuerza tanto
en el plano económico como también en un conjunto de instituciones e
iniciativas multilaterales del nuevo mundo multipolar que tienen como
protagonista a Beijing. Esto se puede apreciar en las adhesiones de los
países de Asia Pacíco a la iniciativa Asociación Económica Integral Re-
gional (RCEP, por sus siglas en inglés), la inuencia del Banco Asiático de
Inversiones e Infraestructura (AIIB) o la integración a la Iniciativa de la
Franja y la Ruta (BRI por sus siglas en inglés), entre otras. Proyectos que
se aceleraron ante la retirada de Estados Unidos del Tratado Trans-Pací-
co durante el gobierno de Donald Trump y la pandemia.
Por otro lado, Beijing apresura las iniciativas en países como Pakis-
n, Birmania y Sri Lanka, aumentando su inuencia en el océano Índico.
A lo cual se su, en plena pandemia, un histórico acuerdo por 25 años
con Irán, que establece un compromiso a largo plazo deinversiones chinas
en infraestructurapara modernizar la industria del país persa y abarca a
los hidrocarburos, cuyas exportaciones se encuentran bloqueadas por Es-
tados Unidos. El acuerdo desafía y, en parte, desarticula ese instrumento
de guerra económica que despliega Washington sobre Teherán. También
incluye compromisos en materia militar y para el desarrollo de carreteras,
telecomunicaciones y puertos –entre los que se encuentran el estratégico
punto de Chabahar, del cual se había hecho cargo la India a nes de 2018 y
ahora quedó desplazada ante la imposibilidad de llevarlo adelante por las
presiones de Washington. Esto ubica a Irán como un punto nodal de BRI.
En el caso de la infraestructura ferroviaria el acuerdo pone el foco en la
línea Teherán-Mashhad que conectará con Afganistán y el puerto seco de
Khorgos, en Kazajistán, completando el recorrido del “Tren de la Ruta de
la Seda” (VADELL Y ZACCARA, 2020) y consolidando la primacía en Asia
central de China, junto a Rusia, sumando cada día inuencia en el tablero
Euroasiático, el centro de la geopolítica mundial. A ello se suma una situa-
ción en Estados Unidos de profunda fractura entre globalistas, americanis-
tas y nacionalistas que polariza el sistema político, y se agudiza a medida
de que se incrementa las contradicciones al interior de sus clases dominan-
tes e impide alcanzar consensos acerca de las estrategias y tácticas a seguir,
como se observa claramente en el caso de In (MERINO, 2020a)
El poder de Estados Unidos también se ven crecientemente desa-
ados por otras potencias, como quedó de maniesto en diversos acon-
tecimientos en plena pandemia. Como señalan Sanger, Schmitt y Wong
(2020), los rivales de Estados Unidos están poniendo a prueba los límites de
su poder en una situación de debilidad relativa. Uno de los ejemplos que
se mencionan para analizar ese límite es el vuelo de aviones de combate
rusos muy próximos a aviones de la marina estadounidense sobre el mar
Mediterneo, mientras las fuerzas espaciales realizaban una prueba de
misiles anti satélite. También se observó que aviones de combate rusos
interceptaron dos bombarderos Air Force B-1B que realizaban una misión
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Gabriel Esteban Merino Novo momento geopolíco mundial: a pandemia e a aceleração das tendências da transição histórico-espacial contemporânea
de entrenamiento de gran distancia sobre el mar Negro y que al menos en
tres ocasiones durante los meses de abril y mayo, aviones de combate rusos
han interceptado aeronaves de vigilancia P-8 sobre el Mediterráneo. Esto
se suma a la importante y exitosa intervención rusa en Siria para que no
caiga el gobierno de Bashar al-Assad como pretendían las fuerzas occiden-
tales y sus aliados en Oriente Medio. Por otro lado, se ve una mayor inter-
vención de Rusia en Libia en detrimento de los intereses estadounidenses.
Tampoco es casualidad que ex repúblicas soviéticas, que forman parte de
la zona de inuencia cercana de Moscú, se encuentren con fuertes ten-
siones político-estratégicas (Bielorrusia, Armenia-Azerbaiyán, Kirguistán),
como retorno al accionar de Moscú. Allí, más allá de problemas internos,
también se juegan estas pujas entre potencias en el marco de una guerra
mundial híbrida y fragmentada, en la cual la alianza entre Rusia y China
cambia completamente el escenario estratégico de la posguerra Fría.
Otro ejemplo de los desafíos y los límites del poder estadounidense
que se observó durante la pandemia fue el envío de barcos con combus-
tible de Irán a Venezuela, en un abierto desafío al bloqueo decidido por
Trump al país de suramericano, cuyas costas dan al mare nostrum de
EEUU. En América Latina, también son señales de esos límites y de la
imposibilidad de recuperar la hegemonía regional, el triunfo del Movi-
miento al Socialismo (MAS) en Bolivia, lo cual signicó una derrota al
golpe de estado al viejo estilo legitimado por Washington y la OEA; los
levantamientos en Chile contra la constitución del régimen neoliberal de
herencia pinochetista; la derrota electoral de Mauricio Macri en Argenti-
na a pesar del enorme apoyo otorgado a través del FMI; o la imposibilidad
de llevar adelante los objetivos de cambio de régimen en Venezuela. Un
dato clave es la presencia creciente de China en la región, que es el mayor
socio comercial de Suramérica y se está convirtiendo en uno de los mayo-
res inversores (MERINO, 2019). Como observa Regueiro (2019), América
Latina y el Caribe es una región en la cual se agudiza la disputa por la
inuencia entre Estados Unidos (que no quiere retroceder) y China, que
sin intervenir en el juego geoestratégico directo, su avance económico
modica necesariamente el balance de poder.
Al calor de este nuevo momento geopolítico mundial y de los cre-
cientes límites del poder imperial, se volvió a hablar de “Nueva Guerra
Fría”. Este concepto ya se había utilizado desde Occidente a partir de la
agudización de las tensiones con Moscú que se produjeron con los enfren-
tamientos de 2013-2014 en Crimea, Ucrania y Siria, entre otros puntos
calientes, y ahora retorna con insistencia a partir de diferentes acciones de
Washington contra China. En realidad, resulta más bien la llamada nueva
Guerra Fría es una estrategia de Estados Unidos y aliados para enfrentar-
se a Beijing, frente a una situación de declive relativo, que una categoría
para analizar la situación político-estratégica actual, muy distinta a la de
1945-1991. Esta estrategia tiene cinco aspectos:
a. La cruzada ideológica “anticomunista” que tiene como ene-
migo central al Partido Comunista de China y se articula con
una guerra de información (entre otras cuestiones, señalando
al COVID-19 como un virus Chino que podría haber sido uti-
lizado como una arma biológica por Beijing).
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 106-130
b. La guerra comercial, que tiene como trasfondo fundamental
la guerra económica y tecnológica.
c. La búsqueda por “desacoplar” las economías estadounidense
y china en los eslabones de alta tecnología, y aislar a China
en Asia.
d. La pretensión de construir una OTAN del Indo-Pacíco con-
tra China, con Japón, India y Australia como pilares, y pro-
fundizar las políticas conjuntas con los aliados extra-OTAN:
Australia, Corea del Sur, Filipinas, Japón, Nueva Zelanda y
Tailandia (s Taiwán que recibió ese status del poder legis-
lativo estadounidense).
e. La utilización de la llamada “nueva guerra fría” como dispo-
sitivo amigo-enemigo, con el n de presionar a distintos paí-
ses para que se alineen con Estados Unidos, ya sean aliados
y vasallos tradicionales o enemigos. Eso incluye presiones
políticas, operaciones de inteligencia, amenazas militares,
sanciones económicas y nancieras, etc.
f. La intensicación de la carrera armamentística que incluye
el desarrollo de una sexta rama de las Fuerzas Armadas de
Estados Unidos, las Fuerzas Espaciales.
Sin embargo, dicha estrategia imperial desplegada por la adminis-
tración Trump no ha tenido demasiados resultados. Si tomamos la cues-
tión de la guerra comercial podemos ver que si bien Estados Unidos logró
reducir su décit comercial con China un 18% en 2019 y situarlo a niveles
similares a los de 2016, pero el impacto de los aranceles ha golpeado con
dureza a las empresas y consumidores del propio país. Según un infor-
me de la Reserva Federal de Nueva York, las compañías estadounidenses
han soportado prácticamente todos los costes” de los nuevos aranceles,
lo que ha reducido los benecios y la inversión. Además, el décit comer-
cial en Estados Unidos trepó 17,7% en 2020 y alcanzó su nivel más alto
desde 2008 debido a la caída de las exportaciones en medio de la pande-
mia de coronavirus, según el Departamento de Comercio; y de acuerdo a
los datos brindados por Beijing, el superávit comercial de 2020 con Esta-
dos Unidos aumentó 7,1% hasta alcanzar los 316.900 millones de dólares.12
Tampoco la guerra comercial fue efectiva para frenar el desarrollo tecno-
gico de China, más allá de la caída de algunos contratos de Huawei, que
a pesar de ello creció 13,1% en el primer semestre de 2020 y encabeza la
solicitud mundial de patentes.
Si analizamos la cuestión de los alineamientos hay un dato que re-
sulta central. Mientras el Estados Unidos de Trump se alejó de la Unión
Europea en varias cuestiones fundamentales –cambio climático, acuerdo
nuclear iraní, Brexit, etc.— europeos y chinos rmaron a nes de 2020 un
primer acuerdo para establecer tratado de protección y liberalización de
inversiones, a pesar de que la propia UE haya denido a Beijing como rival
sistémico. Hay un dato clave en esta contradictoria relación: en 2020 Chi-
na se ha convertido por primera vez en el socio comercial más grande de la
UE: mientras las exportaciones de Europa a China aumentaron 2,2% y las
importaciones un 5,6%, con respecto a 2019 las importaciones y exporta-
ciones a Estados Unidos cayeron 13,2% y 8,2% en 2020, respectivamente.13
12. France 24, 5 de febrero de 2021.
https://www.france24.com/es/minu-
to-a-minuto/20210205-el-d%C3%A9fi-
cit-comercial-en-eeuu-crece-17-7-en-
-2020-bajo-el-efecto-de-la-pandemia
13. France24, 16 de febrero de
2021. https://www.france24.com/
es/programas/econom%C3%ADa/
20210216-china-desplaz%C3%B3-a-es-
tados-unidos-como-el-principal-socio-
-comercial-de-la-uni%C3%B3n-europea
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Gabriel Esteban Merino Novo momento geopolíco mundial: a pandemia e a aceleração das tendências da transição histórico-espacial contemporânea
Por otro lado, para los países de ASEAN (Asociación de Naciones
del Sudeste Asiático), la presencia de Estados Unidos les permite generar
ciertos equilibrios estratégicos frente a China (salvo Laos y Camboya más
cercanos a Beijing), pero en términos económicos giran cada vez más en
torno a China, que a pasos acelerados se encuentra restableciendo desde
su fortaleza material el milenario sistema sino-céntrico en dicha región.
La caída del TPP decidida por Donald Trump profundizó esa tendencia.
Progresivamente, en dichos países los lazos securitarios y militares con
Washington actúan más como contrapeso que como un total alineamien-
to político-estratégico. También podemos observar la prudencia de Japón
en sus declaraciones sobre el “Quads” y sus vínculos económicos orgáni-
cos con China; el difícil dilema australiano para constituirse en un pilar
clave de la una alianza contra Beijing a donde envía el 34,7% de sus ex-
portaciones; o el juego particular que hace la India acercándose a Estados
Unidos pero también con vínculos importantes con Rusia o su membre-
sía a la Organización para la Cooperación de Shanghái.
La cuestión central es que los intentos por imponer una nueva
guerra fría como dispositivo geoestratégico no tienen tanto éxito en el
mundo actual, ni en el formato nacionalista-americanista ni en el formato
globalista. Es un mundo en el que, a pesar de se frenó el proceso de globa-
lización desde la crisis de 2008, está profundamente interconectado por la
propia transnacionalización nanciera y productiva protagonizada por el
gran capital angloamericano y del Norte global, dentro del cual China se
convirtió en el gran taller manufacturero de la nueva división del trabajo
en el mundo posfordista. A ello se le agrega que China está deviniendo
en un núcleo central de la economía mundial en términos productivos,
tecnológicos, comerciales y nancieros; con sus conglomerados estatales,
mixtos y privados articulando a un gran número de empresas y conquis-
tando el mercado mundial, en lo que signica otra mundialización que se
solapa, compite y coopera, con la globalización del Norte. No son los 70
y China claramente no representa el mismo desafío que la Unión Sovié-
tica. Se trata de un desafío mucho mayor, dentro del proceso de transfor-
mación-crisis del sistema mundo moderno. Por ello, al no haber bloques
separados y al no haber exterioridad en el sistema, lo que se desarrolla es,
como ya se mencionó, una guerra mundial híbrida.
Conclusiones
La transición histórica-espacial actual del sistema mundial se ma-
niesta, entre otros modos, como una crisis estructural del capitalismo y
una transición geoeconómica y, por otro lado, como una crisis estructu-
ral del orden mundial y una transición geopolítica. La crisis estructural
del capitalismo se expresa como un estancamiento que con la pandemia
se transforma en depresión en el Norte Global y en América Latina –peri-
feria fundante del centro occidental— junto a otras regiones del mundo,
que contrasta con el crecimiento de China y Asia Pacíco. La dualidad
que transitamos. El estancamiento y la depresión económica inevitable-
mente agudizan la lucha entre capitales, las luchas económicas mediadas
por los estados (por recursos naturales, mercados, monopolios tecnológi-
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 106-130
cos y nancieros, etc.), las luchas de clases articuladas con luchas racia-
les y de género, y los enfrentamientos geopolíticos. En este escenario se
exacerba el proceso de nanciarización como respuesta a la crisis en el
Norte Global pero que al mismo tiempo potencia contradicciones inhe-
rentes a la misma y las polarizaciones sistémicas, al tiempo que China se
encuentra en plena expansión material y acortando aceleradamente las
distancias relativas.
La dimica económica diferencial está estrechamente relacionada
al desarrollo en la formación social china de un proceso de combinación
de modos de producción, dando lugar a lo que se denomina socialismo
de mercado, que estaría constituyendo un nuevo modo de producción,
no sin profundas contradicciones, que dan lugar a importantes choques
de tendencias políticas y horizontes complejos, entre los que se destacan
las implicancias de la profundización de la desigualdad, el problema me-
dioambiental o el avance de las tendencias capitalistas que podrían im-
ponerse desequilibrando la combinación que sostiene al socialismo de
mercado. Las tensiones entre Beijing y la burguesía china del sector tec-
nológico expresa esta contradicción clave, así como las demandas de las
clases populares para mejorar sus condiciones de vida. Por otro lado, esta
dimica y transición geoeconómica encuentra su explicación si se arti-
cula con la dimica política y geopolítica, donde existe una correspon-
dencia entre dichos avances estructurales y los momentos geopolíticos de
emergencia de China y el desarrollo de un mundo de multipolaridad rela-
tiva que señalamos a partir de nes de siglo XX y principios de siglo XXI.
El golpe de la pandemia en el escenario del poder mundial implicó
el inicio de un nuevo momento geopolítico y la aceleración de las ten-
dencias estructurales de la transición histórico-espacial contemporánea.
Mientras el polo de poder que hasta la pandemia era el dominante (aun-
que ya no hegemónico) muestra más signos de declive relativo, China se
ha convertido denitivamente en un actor global y parece estar dispuesta
a asumir ese papel. La situación deviene de la crisis de hegemonía hacia
la etapa de desorden mundial o “caos sistémico, alimentando la guerra
mundial híbrida. No se trata de que emerge una nueva hegemonía, en este
caso China. En realidad, el proceso es el contrario: nos esperan muchos
años, quizás por lo menos tres décadas, de convulsiones, antagonismos
sistémicos dentro de una profunda interdependencia y transformaciones
estructurales. Es decir, años de revoluciones y contrarrevoluciones.
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Rúbia Marcussi Pontes Barack Obama e Donald Trump: a China na grande estratégia dos Estados Unidos (2009-2020)
Barack Obama e Donald Trump:
a China na grande estratégia dos
Estados Unidos (2009-2020)
Barack Obama and Donald Trump: China in US grand
strategy (2009-2020)
Barack Obama y Donald Trump: China en la grande
estrategia estadounidense (2009-2020)
Rúbia Marcussi Pontes1
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2021v9.n3.p131
Recebido em: 04 de agosto de 2020
Aprovado em: 04 de outubro de 2021
R
O artigo analisa a política dos Estados Unidos (EUA) para a República Popu-
lar da China (RPC), nos governos de Barack Obama (2009-2016) e de Donald
Trump (2017-2020). Para tanto, baseia-se na discussão teórica sobre grande
estratégia, entendida como as coordenadas gerais de atuação de um Estado no
sistema internacional, e sobre a operacionalização de seu estudo, pelo marco das
políticas setoriais, cuja compreensão, sugere-se, deve ser realizada em relação
à política global, ou seja, em relação à grande estratégia. É nesse sentido que a
política dos EUA para a China é compreendida. Busca-se discutir seus principais
elementos históricos e, a partir da análise documental e de fontes secundárias,
defende-se a tese de que há, tanto no governo Obama quanto Trump, o forta-
lecimento da visão e do apoio bipartidário às medidas mais duras para com a
China, com mudança de meios, mas não de ns, sob Trump.
Palavras-chave: Grande Estratégia. Estados Unidos. Barack Obama. Donald
Trump. China.
A
The article analyses the United States’ policy to the People’s Republic of China
during Barack Obama (2009-2016) and Donald Trump (2017-2020) adminis-
trations. In order to do so, the article is based on the theoretical debate about
grand strategy, which is understood as a state’s general guidelines in the interna-
tional system, and its sectorial policies, which should be understood, as sugges-
ted, in relation to the global policy expressed in the grand strategy. It is in this
sense that US China policy should be understood in this study. The article also
discusses the historical elements of this policy and, through document analysis
and secondary sources, it argues that there is, in Obama and Trump administra-
tions, the hardening of China policy with a growing bipartisanship consensus,
with a change of tactics, but not of objectives, under Trump.
Keywords: Grand Strategy. United States. Barack Obama. Donald Trump. China.
1. Doutoranda e mestra em Ciência
Política pela Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP), professora de
Relações Internacionais das Faculdades
de Campinas (FACAMP), pesquisadora
do INCT-INEU. Campinas, Brasil. ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-0230-0600.
Email: rubiamarcussi@gmail.com
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 131-149
R
El artículo hace un análisis de la política de los Estados Unidas (EEUU) para la
República Popular de China (RPC), en los gobiernos de Barack Obama (2009-
2016) y de Donald Trump (2017-2020). Para eso, el artículo está basado en
la discusión teórica acerca la gran estrategia, comprendida como una de las
coordenadas generales de actuación de un Estado en el sistema internacional,
y acerca la operacionalización de su estudio, a través de las políticas sectoriales,
cuya comprensión, en que se sugiere, debe a ser realizada en relación con la
política global; o sea, en relación a la gran estrategia. Es en ese sentido que la
política de EEUU para China es entendida. Se busca discutir sus principales ele-
mentos históricos y, a partir del análisis documental y de las fuentes secundarias,
se deende la tesis de que haya, tanto en el gobierno Obama cuanto Trump,
el fortalecimiento de la visión y del apoyo bipartidista a las medidas más duras
para con China, con cambios de medios, pero no de nes, bajo Trump.
Palabras clave: Gran Estrategia. Estados Unidos. Barack Obama. Donald
Trump. China.
Introdução
O presente artigo busca realizar uma alise da política dos Esta-
dos Unidos (EUA) para a República Popular da China (RPC) nos governos
de Barack Obama (2009-2016) e Donald Trump (2017-2020). Parte-se da
discussão sobre grande estratégia, entendida como as coordenadas ge-
rais que pautam a atuação de um Estado no sistema internacional, e sua
composição por políticas setoriais, cuja compreensão, sugere-se, deve ser
realizada em relação à política global. É nesse sentido que a política dos
EUA para a China é compreendida aqui. Busca-se discutir quais foram os
principais elementos históricos dessa política e defende-se a tese de que
há, tanto no governo Obama quanto Trump, o fortalecimento da visão
e do apoio bipartidário às medidas mais duras para com a China, com
mudança de meios, mas não de ns, sob Trump.
Para tanto, o primeiro tópico do artigo resgata o debate sobre gran-
de estratégia e a operacionalização de seu estudo. As origens históricas do
conceito e seu desenvolvimento posterior são brevemente elencados para
se discutir como analisar uma grande estratégia. Argumenta-se que esta
pode ser entendida como as coordenadas gerais que pautam a conduta de
um Estado e que, portanto, é composta por políticas setoriais, ou particu-
lares, que a sustentam e que, juntas, imprimem legitimidade e coerência
à grande estratégia, no longo prazo.
Tal proposição é essencial para a compreensão do pano de fundo da
grande estratégia dos EUA e, de forma especíca, sua política para a Chi-
na. Esse é o objetivo do segundo tópico, que resgata os principais marcos
da grande estratégia estadunidense e como a China esteve inscrita nela,
com destaque para as políticas de contenção e de engajamento daquele
Estado pelos EUA. Entende-se que o estudo de tais dinâmicas é essencial
para uma melhor compreensão do período proposto para alise, no sen-
tido que tais dinâmicas marcam a política dos EUA para China, de forma
denitiva, e continuam presentes no debate contemponeo.
Por m, o terceiro e quarto tópicos do artigo buscam analisar a
política propriamente dita dos EUA para a China, nos governos de Ba-
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Rúbia Marcussi Pontes Barack Obama e Donald Trump: a China na grande estratégia dos Estados Unidos (2009-2020)
rack Obama e de Donald Trump, respectivamente. Utiliza-se de análise
documental e, principalmente, revisão da literatura sobre os principais
elementos da política nesse período, de forma a explicar a continuidade
em termos de iniciativas e posicionamentos para constranger a China,
com um crescente consenso bipartidário doméstico nesse sentido, apesar
da mudança de meios sob Trump. Tal encaminhamento busca fortalecer
a alise de como as decisões atuais da política para a China, entendidas
como mais assertivas, não são a mera expressão das ambições de um lí-
der, mas, sim, esforços na busca pela manutenção do poderio estaduni-
dense no sistema internacional.
O debate sobre grande estratégia e seus componentes
Antes de adentrar na alise da política dos Estados Unidos (EUA)
para a China propriamente dita, é necessário discutir o conceito de grande
estratégia e a operacionalização de seu estudo através de políticas setoriais.
Assim, esse tópico tem como objetivo a discussão da temática da grande
estratégia. Busca-se resgatar as origens do conceito para, em seguida, ob-
servar as denições que se desenvolveram de forma mais contemporânea
e as relações entre grande estratégia e política externa. Discute-se tam-
bém a operacionalização do estudo de uma grande estratégia, delineando
uma abordagem alternativa, que olha para a política global de um Estado,
a partir de políticas particulares, que sustentam uma grande estratégia.
O conceito de estratégia está originalmente relacionado ao léxico
militar, como o conjunto de operações de guerra, em que a ação de uma
parte levará à reação da outra, que, por sua vez, poderá modicar seu
comportamento posteriormente e, assim por diante, em uma ação com-
plexa entre sujeitos com objetivos distintos, chamada de ação estratégica.
Como aponta Cruz (2012, p. 5-6), tal ação é incompatível com planos rí-
gidos, dada a relação entre partes com vontades contrapostas, que cons-
tantemente precisam reavaliar os resultados alcançados e seus objetivos
diante da ação do outro.
Diretamente relacionado ao conceito de estratégia, o conceito de
grande estratégia, por sua vez, foi originalmente conceituado por Liddell
Hart (1967), militar e teórico inglês, como uma estratégia em nível supe-
rior, cuja grande característica seria a coordenação e o direcionamento
de recursos para a conquista do objeto político da guerra. Segundo Hart
(1967, p. 321, tradução nossa), “como a tática é uma aplicação da estra-
tégia em um plano inferior, a estratégia é, portanto, uma aplicação em
um plano inferior de uma grande estratégia2. Nesse sentido, uma grande
estratégia deveria tanto calcular quanto desenvolver os recursos econô-
micos necessários para atender aos objetivos propostos e às suas forças
combatentes, bem como ir além e empregar outros instrumentos, como
o poder nanceiro e a pressão diplomática e comercial, para atender aos
objetivos propostos.
Tal conceitualização é fruto das experiências das Primeira e Se-
gunda Guerras Mundiais, com a coordenação, sem precedentes, de bem-
-sucedidas iniciativas militares, diplomáticas, políticas e econômicas dos
Aliados, o que garantiu as vitórias nas guerras e marcou a popularização
2. Do original: “As tactics is an appli-
cation of strategy on a lower plane, so
strategy is an application on a lower
plane of grand strategy” (HART, 1967,
p. 321).
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do termo grande estratégia para um amplo público. Nesse contexto, o
debate mais contemporâneo sobre grande estratégia passa por perspec-
tivas que ainda primam pelo seu aspecto militar, embora de forma mais
reduzida, enquanto outras a analisam como a maior expressão de política
externa de um Estado.
Art (2009, p. 1) é um expoente da primeira vertente e entende a
grande estratégia como “(...) as formas com as quais um Estado, no caso
os EUA, emprega seu poderio militar para apoiar seus interesses nacio-
nais”. É interessante notar que, nessa perspectiva, a grande estratégia é di-
ferente de política externa: esta elencaria quais são os interesses nacionais
que o Estado deve perseguir, bem como os instrumentos (econômicos,
políticos, militares, diplomáticos, etc.), para garantir que o Estado busque
e proteja esses interesses. A grande estratégia já teria um foco especíco:
ela se concentra em como o instrumental militar pode ser mais bem utili-
zado, para apoiar os objetivos de política externa de um Estado.
Outros analistas, por sua vez, já entendem a grande estratégia como
o maior nível, ou como a “arquitetura intelectual, da política externa.
Van Apeldoorn e De Graa (2016, p. 7) operam nesse sentido, com a gran-
de estratégia denindo objetivos de longo prazo e os meios para alcançá-
-los, o que implica a utilização de diversos instrumentos de curto prazo,
para priorizar e alcançar tais grandes objetivos. A grande estratégia não é
entendida como um mero apanhado de interesses nacionais e vai além do
interesse militar, incluindo questões geopolíticas e geoeconômicas.
Nesse sentido, a coerência no planejamento e na implementação da
grande estratégia é essencial: ela não é um mero cômputo de interesses
de grupos de pressão que inuenciam os tomadores de decisão; mas, ao
mesmo tempo, os tomadores de decisão não estão isolados e precisam li-
dar com os esforços feitos pelas administrações anteriores e com eventos
contingenciais. Dessa forma, a variação nos instrumentos utilizados para
a implementação da grande estratégia no curto prazo assume caráter de
destaque, mas a grande estratégia permanece, com propósito e coerência.
Posto isso, é importante ressaltar que o entendimento de grande
estratégia como o maior nível de política externa, nos moldes propostos
por Apeldoorn e De Graa (2016), está alinhado ao entendimento do ar-
tigo. E é justamente com isso em mente que, agora, será discutida a ope-
racionalização do estudo de uma grande estratégia. Busca-se combinar
os elementos de abordagens cssicas, mas também delinear uma aborda-
gem alternativa, que olha para a política global de um Estado, a partir de
políticas setoriais.
Uma das perspectivas possíveis para o estudo da grande estraté-
gia, diante da crescente complexidade que pauta as sociedades, seria a
da tradição realista em Relações Internacionais. Tal perspectiva está fun-
damentada na ideia de que os Estados são as unidades máximas de po-
der e únicos atores no sistema internacional, além de serem movidos por
interesses racionais; os Estados seriam, assim, atores homogêneos, que
concentram o interesse nacional em decisões coerentes, na busca pela so-
brevivência (HILL, 2003, p. 7-9).
Outra perspectiva seria a do modelo de política burocrática, que
analisa as decisões estatais como resultantes de barganhas entre grupos
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Rúbia Marcussi Pontes Barack Obama e Donald Trump: a China na grande estratégia dos Estados Unidos (2009-2020)
de interesses. Esse modelo de análise não enxerga um ator unitário, mas,
sim, vários atores que atuam não apenas com um único objetivo estraté-
gico em mente, mas, diversos – os quais poderiam variar entre distintas
concepções de objetivos nacionais, organizacionais e pessoais (ALLISON,
1969, p. 707). Nessa perspectiva, líderes políticos ocupam o topo hierár-
quico de comando e atuam com outros líderes, que ocupam posições cru-
ciais em organizações burocráticas estatais, com o compartilhamento de
poder, de acordo com essa estrutura (ALLISSON, 1969, p. 707-708).
Outra perspectiva, por m, seria a do processo organizacional,
segundo o qual as decisões são frutos das rotinas das organizações que
compõem o Estado, que não é, portanto, um ator unitário. Nessa linha de
raciocínio, as organizações são encaradas como verdadeiras unidades de
ação estratégica, em que “as estratégias não resultam da ação deliberada
de grupos ou indivíduos, mas “emergem” como padrões cristalizados de
comportamento” (CRUZ, 2012, p. 13-14). Cada organização é responsável
por um conjunto de problemas, agindo de forma quase independente em
sua resolução, com baixo nível de interferência de líderes governamentais
na performance de rotinas ou padrões de coordenação, que vão se crista-
lizando (ALLISSON, 1969, p. 698).
Embora tais perspectivas possuam aspectos de relevância, ao se
analisar política e grande estratégia, é necessário expandir o escopo. A-
nal, não se trata de assumir que o Estado é unitário, na busca por um obje-
tivo geral, ou excessivamente fragmentado em seus processos de tomada
de decisão, cujos resultados seriam frutos de barganhas políticas internas.
Além disso, tratar uma estratégia como padrão de comportamento é, a
priori, uma redundância. Ainda, segundo a perspectiva organizacional, a
estratégia não é um atributo do sistema estatal, mas das organizações que
o compõem – o que não ajuda no entendimento de políticas de caráter
generalizante.
Entretanto, um aspecto do paradigma organizacional é interessan-
te para a construção de uma abordagem alternativa do estudo da grande
estratégia, a saber: a ênfase nos procedimentos padrões e nos programas,
como fonte de coordenação para a ação de milhares de indivíduos que li-
dam, com certa independência, com “situações-problema” de forma roti-
neira. A grande estratégia pode ser analisada, a partir de tal aspecto, pois
abarca a coordenação de atividades de inúmeros agentes em um processo
no qual “o Estado observa e avalia suas operações e comunica-se perma-
nentemente a respeito delas com seus funcionários e com o conjunto da
sociedade” (CRUZ, 2012, p. 16), em uma verdadeira interação estratégica,
numa cadeia de ações e reações.
Nesse sentido, a grande estratégia pode ser entendida, ainda segun-
do Cruz (2012, p. 18), “como as orientações gerais que pautam a conduta
de um Estado, em sua relação com o mundo”. Aqui, é importante marcar
que estas são coordenadas mais ou menos gerais, dado o elemento da
intencionalidade como parte integrante da ação estratégica, mas que não
são compreendidas como resultantes de planos milimetricamente calcu-
lados. Além disso, essas coordenadas são, sempre, o fruto de uma assime-
tria de poder entre os atores, com alguns sendo privilegiados, enquanto
outros são marginalizados em determinados momentos.
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Tais orientações gerais são realizadas a partir de políticas particu-
lares, cuja alise deve ser sempre realizada em relação ao marco geral,
no sentido de buscar a compatibilização e integração de políticas que são
funcional e espacialmente diferenciadas, mas também partes cruciais de
uma grande estratégia. Os elementos da intencionalidade e do entrecho-
que de ideias e de interesses do processo político não são abandonados
nessa perspectiva: na realidade, tais categorias permitem o olhar focali-
zado para o processo de formulação e de implementação de uma política
particular, sem perder do horizonte as coordenadas gerais que pautam a
conduta de um Estado no sistema internacional, bem como suas transfor-
mações, ao longo do tempo.
A noção de referencial normativo de Muller (1985) é interessante
nesse quadro analítico, compreendido como a representação de um setor
(ou área de problema) e de sua relação com a sociedade. O referencial
normativo é composto pelos referenciais global e setorial, que são cate-
gorias para análise, e pelos elementos de integração do setorial no global.
O referencial global não é um projeto perfeitamente integrado, mas sim
a imagem em torno da qual as representações setoriais se organizam. Ele
demarca um campo de disputas, estabelecendo relações hierárquicas en-
tre suas normas internas. O referencial setorial, por sua vez, é caracteriza-
do pela percepção que se tem de um dado setor dos grupos dominantes,
que expressam sua liderança (MULLER, 1985, p. 170).
Os conitos não são ausentes nessa perspectiva, pelo contrio:
ressalta-se a complexidade da realidade e o entrechoque de ideias e in-
teresses entre os atores. Porém, ainda segundo Muller (1985), isso não
elimina suas relações e os elementos de integração do setorial no global,
pois é a representação entre esses dois mediadores que estrutura uma
política, hierarquizando seus objetivos e determinando o seu alcance so-
cial e geográco.
É nessa dinâmica entre particular e geral, entre setorial e global,
que as políticas são delineadas e implementadas por um Estado, em um
processo em que as forças sociais e políticas se reposicionam constante-
mente. Em momentos de crise, a não correspondência na dimica entre
o setorial e o global é mais evidente, com as diferenças de interesses mais
reveladas na arena de embate político. Mas, em situações mais rotineiras,
a coerência predomina na dinâmica.
Tal quadro de alise é essencial para o estudo da grande estraté-
gia, no sentido de que ela não é um plano formulado e seguido à risca pe-
los dirigentes de um Estado: ela é melhor compreendida como se fossem
coordenadas gerais que pautam as relações estatais, a partir de políticas
particulares. O trato da conjuntura é essencial em qualquer governo, mas
os acontecimentos conjunturais também estão inseridos em uma cadeia
de acontecimentos na qual os atores se posicionam e se reposicionam de
forma constante, em uma lógica de ação estratégica. É com tais elemen-
tos em mente que o próximo tópico discute os grandes marcos da grande
estratégia dos EUA e, mais especicamente, como a China se insere nela
como uma política setorial, sendo reproduzida com o passar do tempo, e
sofrendo mudanças, de acordo com os interesses e objetivos impressos à
grande estratégia dos EUA.
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Rúbia Marcussi Pontes Barack Obama e Donald Trump: a China na grande estratégia dos Estados Unidos (2009-2020)
A China na grande estratégia dos EUA: perspectiva histórica
Este tópico tem como objetivo a análise das origens da grande es-
tratégia dos Estados Unidos (EUA) e sua consolidação ao longo do tempo,
embora sempre de maneira relacional ao marco da política setorial para
a China. Resgata-se a estratégia de contenção do socialismo e de isola-
mento da China, nos anos 1950, e o subsequente desgaste de tal política e
sua substituição pelo engajamento da China ao sistema internacional, nos
anos 1970 e 1980. Tal caminho busca ressaltar determinados momentos
que afetaram a grande estratégia dos EUA como um todo e, mais especi-
camente, a política setorial para a China, até a percepção mais contempo-
nea desse Estado como uma ameaça aos objetivos e interesses dos EUA.
As origens da grande estratégia estadunidense datam da conclu-
são da Guerra Civil e da reconstituição do pacto entre as elites regio-
nais, em um projeto de nação unicada, pelo qual os EUA poderiam
efetivar sua pretensão de projeção de seu poder, tanto no continente
mais imediato, quanto em outras partes do mundo. É com esse panora-
ma que Williams (2009, p. 15) arma que, desde o século XIX, os EUA
seguiram uma política chamada, por ele, de imperialismo das portas
abertas (imperialism of the open door). Sua premissa era de que o bem-
-estar doméstico da nação dependeria, cada vez mais, da constante ex-
pansão econômica para além-mar.
Como ressaltado por Pecequilo (2013, p. 3), a política das portas
abertas marcou a busca estadunidense por novos mercados através do
estabelecimento de relações comerciais livres e iguais entre as nações,
sendo compreendida como o centro da grande estratégia estadunidense.
Essa expansão ocorreu, principalmente, para a América Latina, mas tam-
bém para o chamado “extremo oriente”, com destaque para a presença
estadunidense na China, com laços comerciais garantidos pelos tratados
de Wanghia, de 1844, e de Tianjin, de 1858.
LaFeber (1994, p. 103) arma que tais tratados marcaram as rela-
ções entre os dois países por quase um século. Eles atendiam ao duplo
objetivo da política dos EUA para a China de conquistar os mercados co-
mercial e religioso, o que foi transposto na política de portas abertas. Os
EUA alcançaram a marca de US$ 15 milhões, entre 1895 e 1900, com as
exportações para a China, destacando-se a imporncia do comércio en-
tre tais nações para a indústria de algodão manufatureira estadunidense
(LAFEBER, 1994, p. 218; VAN APELDOORN; DE GRAAFF, 2016, p. 41).
O período das Guerras Mundiais foi essencial para que os EUA
determinassem, no século XX, as principais linhas de orientação de sua
grande estratégia e de suas relações exteriores. Nesse sentido, foi no Pós-
-Segunda Guerra Mundial em que os EUA emergiram como o principal
poder na arena internacional e passassem a articular sua visão da política
de portas abertas, em um nível verdadeiramente global, tornando-a, de-
nitivamente, a base de sua grande estratégia (VAN APELDOORN; DE
GRAAFF, 2016, p. 47). A organização do sistema internacional do Pós-
-Guerra, assim, foi um momento em que a diplomacia norte-americana
se empenhou para garantir que seus interesses políticos e econômicos
fossem cristalizados em organizações e regimes internacionais.
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Nesse contexto, as divergências entre os EUA e União Soviética
(URSS) ganhavam proeminentes contornos até o anúncio, pelos EUA, da
Doutrina Truman, em julho de 1947. Os EUA passaram a atuar visando à
contenção da URSS e do socialismo, buscando manter a preponderância
do modelo capitalista no contexto da Guerra Fria. Nesse panorama, os
riscos de o socialismo ganhar o Estado chinês eram cada vez maiores,
levando em consideração a disputa pelo poder que ocorria na guerra civil
chinesa, travada entre o Kuomintang (KMT), liderado por Chiang Kai-
-shek, e o Partido Comunista Chinês (PCCh), liderado por Mao Zedong.
Enm, os nacionalistas do KMT se refugiaram em Taiwan, com a chega-
da do PCCh ao poder e com a fundação da República Popular da China
(RPC), em 1949.
A política de isolamento da RPC foi expressa em 1951, quando os
EUA utilizaram seu poder de veto para barrar a entrada da China conti-
nental nas Nações Unidas e continuaram a reconhecer Taiwan na organi-
zação. Além disso, os EUA rmaram, em dezembro de 1954, o Tratado de
Defesa Mútua com Taiwan e, desde então, assumiram a responsabilidade
pela defesa da ilha, em caso de ataques (LAFEBER, 1994, p. 553).
A tradição de não reconhecimento e de contenção do Estado chinês
foi continuada pelos governos posteriores e vista como necessária, diante
do teste de bomba atômica pela China, em 1964, no contexto da Guerra
Fria. Entretanto, indícios de que mudanças eram conjecturadas cresciam:
em 1966, o Comitê de Relações Exteriores do Senado realizou audiências,
debatendo a necessidade de uma nova política dos EUA para a China,
em um contexto de crescente desgaste entre a URSS e a China (MANN,
2000, p. 18; SHAMBAUGH, 1996, p. 182).
Assim, em 1968, quando a política externa da China ganha traços
mais denidos e uma atuação mais exível nas relações exteriores é deci-
dida pelo PCCh, os EUA, que vinham recebendo críticas à política de con-
tenção, especialmente no contexto da Guerra do Vietnã, estavam prontos
para reavaliar a estratégia que vinha sendo empregada desde o início da
Guerra Fria. Nesse sentido, a aproximação com a China se tornou uma
prioridade política para os EUA, especialmente a partir da cisão sino-so-
viética, em 1969 (LEITE, 2005, p. 54).
Foi através de um canal não-ocial de comunicação, por meio do
presidente do Paquistão, Yahya Khan, que a China expressou seu inte-
resse em discussões de alto nível com representantes dos EUA. Assim,
após meses de preparação, Henry Kissinger, Conselheiro de Segurança
Nacional, viajou à China em julho de 1971 para acertar a então futura
viagem de Richard Nixon, presidente dos EUA. Tinha início a era de en-
gajamento e de normalização das relações com a viagem ocial de Nixon
para a China e seu encontro com Zhou Enlai, em 1972. Após uma semana
de negociações entre os representantes, foi divulgado o Comunicado de
Shangai, que elencava 16 pontos da visão chinesa e estadunidense sobre
política internacional e demonstrava o desejo de maior cooperação cultu-
ral e econômica, bem como o estreitamento dos laços políticos entre os
países. Tal encontro também é compreendido como uma mensagem aos
soviéticos, mais do que nunca afastados da RPC (LAFEBER, 1994, p. 649;
LEITE, 2005, p. 62).
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Rúbia Marcussi Pontes Barack Obama e Donald Trump: a China na grande estratégia dos Estados Unidos (2009-2020)
Contudo, a situação doméstica nos EUA não foi favorável para
o andamento das relações. Os escândalos de Watergate e uma série de
acontecimentos em política externa enfraqueceram a autoridade de Ni-
xon, até a sua renúncia em agosto de 1974, e dicultaram o processo de
normalização das relações, ainda mais em um contexto em que a cúpula
do poder na China estava dividida, em relação às opções de estratégias de
desenvolvimento a serem seguidas pelo país, anos após o falecimento de
Mao Zedong (LEITE, 2005, p. 64).
Assim, foi somente na administração do presidente Jimmy Car-
ter que as relações diplomáticas com a China foram, enm, retomadas.
Isso ocorreu no contexto de abertura da China ao exterior, a partir de
1978, por meio de reformas econômicas e políticas encabeçadas por Deng
Xiaoping. As negociações para o reestabelecimento ocial das relações
entre os EUA e China foram retomadas e concluídas com o Comunica-
do Conjunto sobre o Estabelecimento de Relações Diplomáticas entre os
EUA e a China, de 15 de dezembro de 1978, com a previsão de troca de
embaixadas para o ano seguinte.
Os anos 1980 são considerados como a “era de ouro” das relações
sino-americanas, com encontros de alto nível, avanços econômicos, re-
novação anual do status de nação mais favorecida para a China e transfe-
rência de armas e tecnologias dos EUA para a RPC. Porém, tal quadro foi
abalado com o episódio da Praça da Paz Celestial, quando, em 3 de junho
de 1989, o Exército de Libertação Popular avançou por Pequim até alcan-
çar a praça em que manifestantes pró-democracia estavam concentrados,
valendo-se de uma brutalidade que levou a inúmeras mortes e à repressão
do movimento pró-democracia na China (MANN, 2000, p. 183-186).
A partir de então, o Congresso e a opinião pública nos EUA impedi-
riam, de todas as maneiras, uma relação amistosa com a China. A admi-
nistração de George H. Bush suspendeu a venda de armas para Pequim
no imediato pós-crise e passou a articular maneiras de congelar a ajuda
nanceira fornecida à RPC por organizações internacionais, como o Ban-
co Mundial. Foi somente em 1991 que o presidente Bush aceitou encon-
trar-se com representantes chineses, em um contexto em que o tema de
direitos humanos passou a ocupar mais espaço na agenda de negociações
bilateral (LEITE, 2005, p. 82).
A década de 1990 foi marcada pelo aprofundamento das relações co-
merciais e, pela primeira vez desde a retomada das relações com os EUA,
a China era percebida como um poder econômico global no Pós-Guerra
Fria. Observa-se o início de uma conjuntura que passaria a preocupar os
dirigentes estadunidenses sob a administração de William (Bill) Clinton:
integrar a China no sistema internacional era essencial para que ela “jo-
gasse as regras do jogo. É nesse contexto em que se dão as negociações
para a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC),
nos anos 1990, e a concessão do status de relações comerciais normais
permanentes entre EUA e China, em setembro de 2000, até sua entrada
formal na OMC, em 2001.
A administração de George W. Bush tinha como principal obje-
tivo, no âmbito da política externa, uma nova estratégia global coe-
rente com o poderio da considerada única superpotência, no caso, os
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EUA. Um dos pilares dessa nova estratégia era a chamada nova políti-
ca para a Ásia, baseada nas percepções de que aquela era uma região
de prováveis conflitos nos próximos anos e de que era necessário li-
dar com a China, o novo desafio econômico e estratégico dos EUA
(LEITE, 2005, p. 92). Assim, a administração Bush passou a perseguir
uma estrutura de segurança regional na Ásia, cuja ideia principal era
conter a China, de forma a impedir que ela se tornasse uma potência
regional dominante.
A relação bilateral foi marcada, nos primeiros meses da adminis-
tração Bush, por desgastes3 e foi somente no pós-11 de setembro de 2001
que uma maior cooperação entre os EUA e a RPC se deu. No contexto
de profundo envolvimento com guerras da Doutrina Bush e da Guerra
Global Contra o Terror, rivalizar com a China não era uma opção para
os EUA. O presidente Bush tomou a decisão de alinhar-se com os mem-
bros de sua administração que eram favoráveis ao engajamento com
a China, “(...) embora o Secretário de Defesa Donald Rumsfeld tenha
bloqueado a restauração das relações militares diretas por alguns anos”
(BADER, 2012, p. 20).
Nesse contexto, é possível observar a substituição do termo “com-
petidor estratégico” por “parceiro estratégico” na Estratégia de Seguran-
ça Nacional (NSS) de 2002, documento no qual a administração Bush
armava o interesse em constituir agendas para ação cooperativas com
outros centros principais de poder global, com destaque para a China
e a Rússia (UNITED STATES OF AMERICA, 2002). Os anos vindouros
foram marcados por esforços voltados para a promoção da cooperação bi-
lateral e por mais de 19 encontros, entre 2002 e 2006, entre os presidentes
chinês Hu Jintao e Bush.
Um esforço de institucionalização das relações nesse período
foi o China-U.S. Strategic Economic Dialogue (SED), estabelecido em
2006, visando aumentar o dlogo entre os presidentes em questões
econômicas e comerciais, principalmente, em um panorama em que
o Congresso estadunidense passava a discutir mais enfaticamente
questões relacionadas ao desequilíbrio comercial bilateral e a ques-
tionar a política cambial chinesa (JIN, 2010, p. 71-72). Vale notar que
o último ano em que os EUA tiveram um superávit em bens com a
China foi em 1982 (como indicado na figura abaixo) e, de 1983 a 2006,
o déficit passou de US$ 68 milhões para US$ 232.5 bilhões, chegando
a US$ 419.2 bilhões em 2018. Tais preocupações cresceram nos anos
seguintes, com a China se tornando a maior detentora de reservas
estrangeiras do mundo e a maior financiadora externa do Tesouro
norte-americano.
3. Como, por exemplo, quando do
impasse sobre a responsabilidade da
colisão entre uma aeronave da Marinha
dos EUA, um modelo EP-3 que realizava
uma missão de reconhecimento sob
o Mar do Sul da China, com um jato
F-8 da Força Aérea chinesa, que fazia
o patrulhamento da região junto com
outro jato do mesmo modelo.
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Rúbia Marcussi Pontes Barack Obama e Donald Trump: a China na grande estratégia dos Estados Unidos (2009-2020)
Figura 1 – Comércio de bens EUA-China (US$ milhões) – 1985/2020*
Fonte: elaboração própria com base em dados de United States Center Bureau (2020)
*dados de 2020 referentes a janeiro-julho
Assim, como lidar com a China era, cada vez mais, a pergunta cen-
tral nos círculos dirigentes estadunidenses. Uma “simples” estratégia de
contenção, como no início da Guerra Fria, seria contraproducente e irreal
naquele contexto, mas como continuar com a política de engajamento
para contenção, por exemplo, levando em consideração o espaço conquis-
tado pela China? É com tais elementos em mente que os próximos tópicos
focam nas administrações de Obama e Trump, respectivamente, obser-
vando como a política para a China foi um grande componente da grande
estratégia estadunidense entre 2009 e 2020, ressaltando os impasses dessa
política e o crescente consenso bipartidário por medidas mais duras em
relação à China.
A grande estratégia sob Obama: o pivô para a Ásia
No presente tópico, discute-se as prioridades da grande estratégia
estadunidense sob a administração Obama (2009-2016) e, principalmente,
a política para a China nesse contexto. Destaca-se o aprofundamento da
estratégia de constrangimento da República Popular da China (RPC) às
regras e normas criadas pelos Estados Unidos (EUA), o que foi expresso
com a maior presença estadunidense na Ásia, no pivô para a Ásia, e com
iniciativas como a Parceria Transpacíco. Para além, o tópico busca de-
monstrar o crescimento das demandas internas por medidas mais duras
em relação à China, elemento essencial para o olhar posterior para a ad-
ministração de Donald Trump.
Como apontado por Martel (2015, p. 325), a primeira prioridade da
grande estratégia dos EUA sob Barack Obama seria a reconstrão dos
fundamentos domésticos do poder estadunidense. Mas isso precisava ser
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realizado em um panorama de diversos pontos críticos, com a sobreposi-
ção de prioridades, especialmente no que estava relacionado à política ex-
terna. Foi nesse contexto que a equipe de Obama avaliou que a percepção
na Ásia, em 2009, era que os EUA haviam se distraído com em sua Guerra
ao Terror e que estavam economicamente enfraquecidos (BADER, 2012,
p. 2). A ausência de altos representantes estadunidenses, em fóruns regio-
nais nos anos antecessores, e a insistência de debates sobre terrorismo,
em fóruns econômicos, eram apontados como evidências da falta de prio-
ridade dos EUA para a região.
A partir desse assessoramento, a administração Obama começou
a traçar uma política de resgate da presença estadunidense na Ásia em
geral. Ainda nos primeiros meses, Obama assinou o Tratado de Amizade
e de Cooperação da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN),
bem como estimulou uma maior circulação de representantes estadu-
nidenses nas diversas organizações regionais asiáticas (BADER, 2012, p.
3-4). Mas, ainda nesse contexto, o maior desao geoestratégico em rela-
ção à Ásia era, sem dúvidas, como lidar com a China.
Nesse sentido, a estratégia de contenção não era uma opção: a RPC
estava efetivamente integrada à economia global, um movimento apoiado
pelos EUA, desde a administração Nixon; e uma política de acomodação
face a uma China mais assertiva também não seria prudente, especialmen-
te para os aliados estadunidenses na região. Uma política multifacetada,
portanto, era necessária (BADER, 2012, p. 7). James Steinberg, subsecre-
rio de Estado, tornou-se um nome proeminente nesse período, introdu-
zindo o conceito de rearmação estratégica (strategic reassurance) para ca-
racterizar a relação bilateral. Em discurso proferido em setembro de 2009,
Steinberg armou que um acordo básico deveria pautar a relação entre os
EUA e a China, de forma a saudar a chegada da China, que se desenvolve-
ria e se integraria, no sistema internacional, de forma pacíca.
Obama e Hu Jintao se encontraram pela primeira vez, em abril de
2009, durante a reunião do Grupo dos Vinte (G-20), em Londres, na estei-
ra da crise de 2008. Nesse encontro, os presidentes acertaram um progra-
ma de fomento ao crédito e de recuperação econômica que ultrapassou
o montante de US$ 1,1 trilhão. Esse momento é entendido, por diversos
analistas, como um ponto de virada nas relações entre EUA e China: para
Hart et al. (2017, p. 46), a interação entre esses dois Estados, no que con-
cernia à governança global nas últimas décadas, consistia basicamente no
apoio estadunidense à entrada da China em organizações internacionais;
mas, com a crise, a China foi chamada por Hank Paulson, então secretá-
rio do Tesouro, para apoiar o G-20, como um grupo de coordenação para
a formulação de respostas à crise.
Ainda às margens do G-20, EUA e China aprofundaram os meca-
nismos de concertação em alto nível, com o estabelecimento do U.S.-Chi-
na Strategic and Economic Dialogue (S&ED). Os encontros anuais per-
mitiriam que diversos altos representantes de ambas as nações pudessem
discutir temas principalmente securitários e econômicos, expandindo o
escopo estabelecido pelo SED, em 2006 (BADER, 2012, p. 22).
Obama visitou o continente asiático em novembro de 2009, mo-
mento em que ganhou destaque sua viagem para a China e os contornos
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Rúbia Marcussi Pontes Barack Obama e Donald Trump: a China na grande estratégia dos Estados Unidos (2009-2020)
da política dos EUA para tal Estado, em especíco. Em visita de quatro
dias, o presidente dos EUA encontrou-se com o presidente chinês e ambos
expediram um comunicado conjunto que celebrava os quase 30 anos de
retomada das relações diplomáticas entre seus países e que expressava os
desejos mútuos de avanço na cooperação bilateral (THE WHITE HOU-
SE, 2009). Nessa mesma oportunidade, Obama negou que os EUA buscas-
sem conter tal país ou restringir seu crescimento.
Em meio aos esforços de criação de conança mútua, “(...) as vozes
da oposição, nos EUA, que sempre estiveram em disputa, no que diz res-
peito ao relacionamento sino-americano, uma vez mais passaram a con-
tribuir para o questionamento da postura do governo e tentar ‘empurrar’
para uma conduta mais linha-dura” (MAGNOTTA, 2019, p. 85). O décit
comercial com a China crescia e, nesse contexto, certos segmentos nacio-
nais estadunidenses, com destaque para a agricultura e para a indústria,
passaram a vocalizar mais as suas demandas, na busca por proteção de
seus segmentos.
É nesse contexto que uma nova estratégia é delineada pela admi-
nistração Obama, que tentou equacionar as diferentes perspectivas sobre
como lidar com a China, ao longo de 2010, com o chamado pivô para a
Ásia (pivot to Asia). O pivô é resumido em seis linhas de ação: 1) forta-
lecimento das alianças de segurança bilaterais; 2) aprofundamento das
relações de trabalho com as potências emergentes, incluindo a China;
3) engajamento em instituições regionais multilaterais; 4) expansão do
comércio e do investimento; 5) ampla presença militar; 6) promão da
democracia e dos direitos humanos (CLINTON, 2011).
Havia um esforço de redirecionamento da grande estratégia esta-
dunidense, pois o terrorismo não era a única ameaça ao Estado. O pivô
seria, assim, a transição geopolítica das estratégias dos EUA pós-11 de se-
tembro para um futuro pacíco, com um
enfoque ambíguo entre cooperação e contenção, cumprimentos e punhais,
orientado, por um lado, pela formação de uma ‘malha de contenção’ entre
diferentes nações asiáticos em bloco, pelo envio de tropas estadunidenses para a
região e pelo trabalho, a partir de fóruns multilaterais, para a resolução de coni-
tos territoriais e de soberania, para também forçar políticas comerciais favoráveis
aos Estados Unidos e a seus parceiros e aliados (GORNITZ, 2020, p. 220).
Assim, tal projeto de reestabelecimento dos EUA, na Ásia, tinha
como objetivo, para Pecequilo (2013, p. 120), a contenção direta da China
em um quadro de tensionamento na região da Ásia-Pacíco, principal-
mente no Mar do Sul da China (MSCh), uma região importante para as
rotas comerciais marítimas e objeto de disputas entre Estados do entorno
asiático4. Van Apeldoorn e De Graa (2016, p. 224) armam que, no se-
gundo mandato de Obama, cou ainda mais claro o quanto o pivô para a
Ásia antagonizava a China, em uma estratégia que poderia até mesmo ter
acentuado o tipo de comportamento que ameaçava os interesses da políti-
ca de portas abertas, ameaça que os EUA tanto se empenhavam em evitar.
Ainda no contexto do pivô, os EUA articularam a Parceria Transpací-
co (TPP), buscando reforçar seus laços comerciais na Ásia por meio de um
mecanismo multilateral. Tal iniciativa demonstrava o comprometimento
com a faceta econômica da histórica política de portas abertas, essencial na
4. Em 2010, a então secretária de
Estado Hillary Clinton declarou que a
questão do MSCh era parte do interesse
nacional dos EUA, em um panorama de
crescente internacionalização do tema.
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grande estratégia estadunidense. Mais especicamente, o TPP buscou “(...)
acelerar as propostas de integração econômica regional para recuperar as
cotas de mercado perdidas pela rápida e sustentada emergência econômica
da China” (GOERNITZ, 2020, p. 225), que não foi incluída nas negociações
iniciais e só poderia se juntar caso passasse a aderir a princípios que esta-
vam muito distantes de sua prática, em matéria de investimento e comér-
cio (VAN APELDOORN; DE GRAAFF, 2016, p. 217-218, p. 224).
Mudanças profundas ocorreram nos anos seguintes. Obama per-
deu grande parte do apoio do Congresso e, além do crescente desgaste
interno, passou a enfrentar uma série de questões internacionais urgen-
tes, em seu segundo mandato, como a guerra civil na Síria. Mas a região
da Ásia-Pacíco continuava no centro da agenda, com ênfase em questões
envolvendo a China na NSS de 2015. Destaca-se a importância dada ao
TPP e ao MSCh, onde a presença militar estadunidense era percebida
como essencial, para garantir os interesses dos EUA e de seus aliados,
expressos na liberdade de navegação e de sobrevoo, face a um maior pro-
tagonismo chinês (UNITED STATES OF AMERICA, 2015).
Entretanto, medidas foram tomadas para que os impasses e as dis-
putas territoriais não escalassem para uma situação de confronto aberto,
com Susan Rice, conselheira de Segurança Nacional, requerendo que o-
ciais militares estadunidenses diminuíssem a retórica agressiva, em rela-
ção à China. A criação de um mecanismo de dlogo conjunto para tratar
de questões relativas a crimes cibernéticos é apontada como um sinal de
progresso, após constantes acusações de apoio chinês às atividades de es-
pionagem e roubo de dados nos EUA. Além disso, o presidente chinês Xi
Jinping visitou os EUA, em setembro de 2015 e
ambos os países conrmaram sua parceria, em questões como Afeganistão, mu-
dança climática e operações de paz da ONU, além do fortalecimento da coopera-
ção em segurança cibernética, concordando em não conduzir ou apoiar roubo de
propriedade intelectual por meios cibernéticos (LOFFLMANN, 2016, p. 103).
Tais elementos são importantes para se compreender como a China
foi, nesse período, essencial na grande estratégia dos EUA. Obama bus-
cou recuperar o ritmo de crescimento econômico e reconstruir os funda-
mentos domésticos do poder estadunidense, em um panorama em que
os EUA não diminuíram a sua atuação no sistema internacional. Pelo
contrio, a administração Obama é marcada por um evidente esforço
de resgate da presença estadunidense na Ásia, de forma geral, mas prin-
cipalmente como forma de conter a presença chinesa e de assegurar a
segurança dos aliados estadunidenses na região (BADER, 2012; GOER-
NITZ, 2020).
Nesse sentido, Obama buscou a continuidade da política de enga-
jamento com a China para a contenção desse Estado, embora com uma
política multifacetada, que foi cristalizada no pivô para a Ásia e, principal-
mente, no TPP, iniciativas pensadas no sentido de constranger a China às
regras criadas pelos EUA. O nal do mandato de Obama, entretanto, foi
marcado por uma profunda discussão sobre rumos dos EUA e, especial-
mente, sobre a melhor estratégia para lidar com a China.
Nesse contexto, o presidente eleito Donald Trump assumiu a presi-
dência, em janeiro de 2017, com um discurso de preservação da proemi-
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Rúbia Marcussi Pontes Barack Obama e Donald Trump: a China na grande estratégia dos Estados Unidos (2009-2020)
nência estadunidense e de implementação de uma política mais dura em
relação à China, acusada, entre outros, de manipulação cambial, roubo
de propriedade intelectual e comércio desleal com os EUA (NGUYEN,
2017, p. 36). Desde então, Trump buscou evidenciar que o pivô para a Ásia
havia sido uma característica da administração Obama e que sua gestão
formularia sua própria agenda para lidar com a China, tema do último
tópico do artigo.
A grande estratégia sob Trump e a política para a China
O tópico discute a grande estratégia estadunidense sob a adminis-
tração Trump (2017-2020) e, mais especicamente, os principais elemen-
tos da política para a China. Entende-se que houve uma mudança estra-
tégica em relação ao período Obama com o m do pivô para a Ásia, a
saída da Parceria Transpacíco (TPP) e a aplicação de tarifas na política
bilateral; mas isso é entendido como uma mudança de meios e não de
ns, uma vez que os Estados Unidos (EUA) continuaram a buscar pela
primazia de seu poderio no sistema internacional com novas iniciativas,
sob a perspectiva do “America First.
Ainda durante sua campanha, o candidato republicano Donald
Trump ressaltava como os EUA precisavam recuperar o poderio dos EUA
e, principalmente, aumentar o uso de seu poder para inuenciar a China,
com negociações mais duras, principalmente nos assuntos econômicos
(SUTTER, 2017, p. 31). Assim, ele foi eleito com expectativas de distancia-
mento de acordos multilaterais que aproximassem os dois países e, sobre-
tudo, de maior pressão por parte dos EUA, no que concernia ao desenvol-
vimento de tecnologia de ponta pela China.
A saída dos EUA do TPP aconteceu nesse panorama, ainda em
2017, em um contexto em que a política econômica para a região da
Ásia-Pacíco estaria “(...) imbricada em uma ‘gica dura’ de represálias
aplicadas unilateralmente sobre alguns comportamentos danosos aos in-
teresses nacionais estadunidenses” (GORNITZ, 2020, p. 232). Assim, ain-
da segundo Gornitz (2020), a malha de contenção criada sob o governo
Obama foi desarticulada sob Trump, para dar lugar à renegociação dos
laços bilaterais dos EUA com as nações asiáticas e isso não foi diferente
no trato com a China.
Apesar do discurso de Trump em relação à China ter sido suaviza-
do no período inicial de sua administração, as principais expectativas de
recrudescimento das relações foram se concretizando. Ainda em meados
de 2017, o presidente Trump reforçou sua insatisfação com a China, e o
encontro do U.S.-China Comprehensive Economic Dialogue, que substi-
tuiu o S&ED, não levou à formação de um acordo sobre medidas para di-
minuir o décit comercial entre os dois países (SUTTER, 2019, p. 3). Nes-
se contexto, a administração Trump passou a considerar a China como
um competidor estratégico na NSS de dezembro de 2017, o que parecia
evidenciar o início de uma política mais agressiva para tal país.
Tal documento classicou a China como um Estado revisionista,
que estaria competindo contra os EUA e seus aliados e parceiros, bem
como a Rússia, o Irã e a Coreia do Norte. A NSS constatava, ainda, que a
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China realizava manobras para pressionar sua agenda securitária e polí-
tica a outros países, como, por exemplo, com investimentos maciços em
obras de infraestrutura e esforços para construção de postos militares no
Mar do Sul da China (UNITED STATES OF AMERICA, 2017, p. 46).
O ano de 2018 foi o ano com trabalhos legislativos mais assertivos
em relação à China, desde o episódio da Praça Celestial, em 1989. O Con-
gresso realizou diversas audiências sobre os riscos que a China trazia aos
EUA, nos mais diversos âmbitos, e passou a exigir, por meio de cartas de
seus líderes bipartidários ao Executivo, respostas mais duras em relação à
China (SUTTER, 2019, p. 4). Nesse contexto, o Executivo passou a atuar
principalmente através de Wilbur Ross, secretário de Comércio, e Robert
Lighthzier, representante comercial dos EUA, na chamada guerra comer-
cial com a China.
A aplicação de tarifas comerciais se tornou a regra, alcançando os
maiores números desde a Lei Tariria Smoot-Hawley na Grande De-
pressão (ZUMBRUN; DAVIS, 2020). A primeira rodada de tarifas ocor-
reu em março de 2018: 10% em importações de alumínio e 25% de ferro
chinês, com a China retaliando no mês seguinte, com tarifas de aproxi-
madamente 25% em diversos produtos dos EUA. A imposição de mais
tarifas foi divulgada, em julho e em agosto de 2018, com base na Seção
301 da Lei de Comércio de 1974, e, em setembro, um terceiro pacote de
tarifas foi aplicado, com impacto adicional de mais de US$ 200 bilhões
nas importações chinesas. O ano de 2019 foi marcado por tentativas de
negociação frustradas, com ameaças de aumento das tarifas por parte
dos EUA e com a classicação da China como um manipulador cambial.
Foi somente em outubro de 2019 que o presidente Trump anunciou a
intenção de maiores esforços conjuntos para um acordo comercial com a
China e a retirada do país da classicação de manipulador cambial (SUT-
TER, 2019; GORNITZ, 2020).
A assinatura da primeira fase do acordo comercial, rmado entre
os EUA e a China, se deu somente em 15 de janeiro de 2020. Intitulado
“Economic and Trade Agreement between the Government of the Uni-
ted States of America and the Government of the People’s Republic of
China”, o documento, dividido em oito capítulos, trata de temas como
propriedade intelectual, transferência de tecnologia e comércio de pro-
dutos agrícolas, dentre outros, com destaque para o compromisso chinês
de aumentar, em pelo menos US$ 200 bilhões, a importação de bens agrí-
colas e manufaturados dos EUA, até 31 de dezembro de 2021 (UNITED
STATES TRADE REPRESENTATIVE, 2020).
Tal documento pode ser entendido como uma vitória do estilo de
negociação trumpista, mas os efeitos das tarifas e do próprio acordo não
parecem ter alcançado, com sucesso, as promessas de campanha de Do-
nald Trump. As tarifas podem ter impactado na diminuição do décit
comercial dos EUA com a China em 2019, como se observa na gura já
mencionada, mas seu efeito foi de curto prazo; além disso, tal estratégia
não contribuiu para o fortalecimento dos empregos no setor industrial
nos EUA (ZUMBRUN; DAVIS, 2020).
Questões estruturais, portanto, permanecem: “a redução do ‘em-
prego industrial’ não decorre da imigração ou do comércio internacio-
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Rúbia Marcussi Pontes Barack Obama e Donald Trump: a China na grande estratégia dos Estados Unidos (2009-2020)
nal, mas, sobretudo, da automação e de um processo de transnacionali-
zação da produção colocado em marcha na década de 1970” (MARIUT-
TI, 2019, p. 7). Assim, o principal desao contemporâneo de Washing-
ton seria o de preservar a relação entre a busca da superioridade militar
e a sua liderança no setor de alta tecnologia, o que depende, em grande
medida, da supremacia do dólar como principal moeda de transação
internacional.
Nesse sentido, Mearsheimer (2019, p. 46-47) arma que pouco pode
ser feito para resgatar a ordem internacional liberal que pautou as últimas
décadas e que os EUA estariam travando uma verdadeira guerra hegemô-
nica enquanto ainda estão em condição de competir com a China. Logo,
as duras medidas econômicas da administração Trump, em relação à
China, são apenas o começo do que promete ser uma intensa e longa
competição entre as ordens lideradas pelos EUA e pela China” (MEAR-
SHEIMER, 2019, p. 47).
O documento de maio de 2020, que delineia a estratégia dos EUA
para lidar com a China, reforça tal entendimento. Intitulado “United Sta-
tes Strategic Approach to the People’s Republic of China”, a peça ressalta
o caráter competitivo da relação bilateral e retoma as orientações da NSS
de 2017: a estratégia competitiva dos EUA estaria baseada, segundo o do-
cumento, no fortalecimento das instituições domésticas e das parcerias e
alianças para lidar com o desao chinês e na busca pela mudança de prá-
ticas de Pequim, consideradas nocivas e desleais em relação aos interesses
estadunidenses (UNITED STATES OF AMERICA, 2020).
Nesse sentido, o relatório destaca os esforços domésticos de inves-
tigação e de combate, principalmente por parte do Escritório do Repre-
sentante de Comércio dos EUA (USTR), a ações como transferência de
tecnologia de empresas dos EUA para contrapartes chinesas, desrespeito
à propriedade intelectual e baixa reciprocidade nas relações bilaterais. O
fortalecimento do Committee on Foreign Investment in the United Sta-
tes (CFIUS), grupo interagência, também é ressaltado, principalmente a
partir do aumento do seu poder regulatório com o Foreign Investment
Risk Review Modernization Act (FIRRMA), de 2018, em um contexto
de revisão de acordos e de aumento dos mecanismos de controle de ex-
portações para a China (UNITED STATES OF AMERICA, 2020). Por
m, vale mencionar como a Iniciativa do Cinturão e Rota aparece, no
documento, como um termo guarda-chuva para incluir uma diversida-
de de iniciativas chinesas, as quais privilegiam o uso e a expansão de
padrões industriais chineses em setores chaves, principalmente tecnoló-
gicos, contra os quais os EUA não deixarão de combater no futuro mais
imediato e de longo prazo.
Como discutido, Washington buscou endurecer sua política para
a China e atuar a partir de uma posição de força, como apresentado em
diversos documentos da administração Trump, mas os resultados das
decisões são sempre dependentes de relações de poder, tanto na esfera
doméstica, quanto na internacional. E é nesse sentido que as alises pre-
cisam levar em consideração não somente a conjuntura, mas também
um olhar sob uma perspectiva histórica e a dimica e correspondências
entre o setorial e o global.
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Considerões finais
O presente artigo buscou discutir e analisar a grande estratégia es-
tadunidense, entendida como as coordenadas gerais que pautam a condu-
ta desse Estado no sistema internacional, e a política setorial dos Estados
Unidos (EUA) para a China, a qual assume um caráter de destaque na
grande estratégia dos EUA. Buscou-se demonstrar a tendência de conti-
nuidade nos governos de Barack Obama e de Donald Trump, entre 2009
e 2020, no sentido de fortalecimento de iniciativas na busca pela manu-
tenção do poderio estadunidense no sistema internacional, face ao maior
protagonismo e desenvolvimento econômico chinês.
Para tanto, o primeiro tópico dedicou-se à temática da grande es-
tratégia e à operacionalização de seu estudo a partir de políticas setoriais,
que sustentam e imprimem legitimidade à grande estratégia, ao longo do
tempo. O segundo tópico do artigo buscou justamente analisar a grande
estratégia dos Estados Unidos a partir de um olhar histórico, resgatando
seus grandes marcos, e como a China esteve presente nela. Foram desta-
cadas as políticas de contenção e de engajamento daquele Estado pelos
EUA, de forma a proporcionar as bases para uma alise dos governos
Obama e Trump a partir de uma perspectiva de longo prazo.
Assim, o terceiro e quarto tópicos do artigo analisaram a política
propriamente dita dos EUA para a China, nas administrações dos presi-
dentes democrata e republicano, respectivamente. Evidenciou-se a ten-
dência de iniciativas mais duras no sentido de constrangimento da China,
principalmente com um crescente consenso bipartidário doméstico a ini-
ciativas como o pivô para a Ásia e a Parceria Transpacíco (TPP) sob Oba-
ma. Evidentemente, o presidente Trump optou pela retirada dos EUA do
TPP, em um contexto de questionamento de diversos fundamentos da
grande estratégia estadunidense, mas sua administração não deixou de
lado a Ásia e, mais especicamente, a China, em um cenário de recrudes-
cimento das relações bilaterais e de crescente disputa hegemônica entre
esses Estados.
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