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Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
A Nova Rota da Seda e o
dilema de Xinjiang
The New Silk Road and the Xinjiang dilemma
La Nueva Ruta de la Seda y el dilema de Xinjiang
Diego Pautasso1
Tiago Soares Nogara2
Ana Paula Bernardo de Sousa3
Gaio Doria4
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2021v9.n3.p25
Recebido em: 23 de setembro de 2020
Aprovado em: 30 de novembro de 2020
R
Para além da já reconhecida relevância da Nova Rota da Seda, ou Iniciativa do
Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative - BRI), para a estratégia de inserção
internacional da China, sua plena implementação também dialoga incisivamen-
te com a continuidade do processo de unicação e reorganização nacional do
país. Analisando as questões pertinentes à região de Xinjiang, o presente artigo
sustenta a noção de que a Nova Rota da Seda interage diretamente com o im-
perativo e os esforços securitários nacionais de estabilização das fronteiras e de
diluição das ameaças separatistas, ao promover a continentalização do desenvol-
vimento chinês. Além do mais, é possível argumentar que essa região representa
um enlace territorial do processo de integração eurasiática liderado pela China.
O artigo se divide em três partes: primeiro, apresentamos os principais vetores
da ascensão e implementação da Nova Rota da Seda; em seguida, abordamos
o histórico das tensões entre o processo de reconstrução nacional chinesa e os
movimentos separatistas de Xinjiang; por m, analisamos como a Nova Rota da
Seda interage com as estratégias de contenção aos movimentos separatistas e
terroristas da região.
Palavras-chave: Nova Rota da Seda - Iniciativa do Cinturão e Rota - China -
Xinjiang - ETIM.
A
In addition to the already recognized relevance of the New Silk Road, or Belt
and Road Initiative (BRI), for China’s international insertion strategy, its full
implementation also speaks incisively with the continuity of the country’s natio-
nal unication and reorganization process. Analyzing the issues relevant to the
Xinjiang region, this article supports the notion that the New Silk Road interacts
directly with the national security imperative and eorts to stabilize borders and
dilute separatist threats, promoting the continentalization of Chinese develop-
ment. In addition, it is possible to argue that this region represents a territorial
1. Doutor e mestre em Ciência Política
pela Universidade Federal do Rio Gran-
de do Sul (UFRGS). E-mail: dgpautasso@
gmail.com
2. Doutorando em Ciência Política
na Universidade de São Paulo (USP).
Mestre em Relações Internacionais pela
Universidade de Brasília (UnB). E-mail:
tiagosnogara@gmail.com
3. Especialista em Estratégia e Relações
Internacionais Contemporâneas pela
Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS). E-mail: anapaulabs@
feevale.br
4. Doutor em Direito pela Renmin
University of China. E-mail: gaiodoria@
gmail.com
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link in the Eurasian integration process led by China. The article is divided
into three parts: in the rst, we present the main vectors of the emergence and
implementation of the New Silk Road; then, we examine the history of tensions
between the Chinese national reconstruction process and the separatist move-
ments in Xinjiang; nally, we analyze how the New Silk Road interacts with the
containment strategies of separatist and terrorist movements in the region.
Keywords: New Silk Road - Belt and Road Initiative - China - Xinjiang - ETIM.
R
Además de la relevancia ya reconocida de la Nueva Ruta de la Seda, o Iniciativa
de la Franja y la Ruta (BRI), para la estrategia de inserción internacional de Chi-
na, su implementación plena también habla de manera incisiva con la continui-
dad del proceso de unicación y reorganización nacional del país. Al analizar los
temas relevantes para la región de Xinjiang, este artículo apoya la noción de que
la Nueva Ruta de la Seda interactúa directamente con el imperativo de seguri-
dad nacional y los esfuerzos para estabilizar las fronteras y diluir las amenazas
separatistas, promoviendo la continentalización del desarrollo chino. Además,
es posible argumentar que esta región representa un vínculo territorial en el
proceso de integración euroasiático liderado por China. El artículo se divide en
tres partes: en la primera, presentamos los principales vectores del surgimiento
e implementación de la Nueva Ruta de la Seda; luego, examinamos la historia de
las tensiones entre el proceso de reconstrucción nacional chino y los movimien-
tos separatistas en Xinjiang; nalmente, analizamos cómo la Nueva Ruta de la
Seda interactúa con las estrategias de contención de los movimientos separatis-
tas y terroristas en la región.
Palabras clave: Nueva Ruta de la Seda - Iniciativa de la Franja y la Ruta - China -
Xinjiang - ETIM.
Introdução
Xi Jinping, líder da chamada quinta geração de lideranças chine-
sas, lançou, em 2013, o programa Silk Road Economic Belt And The Ma-
ritime Belt, também conhecido como Nova Rota da Seda ou Iniciativa
do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative - BRI). Tal iniciativa nasceu
para impulsionar projetos de construção de infraestrutura - transporte,
comunicação e energia -, voltada inicialmente para promover a inte-
gração da Eurásia e regiões adjacentes. Uma alusão às antigas rotas co-
merciais que ligavam a China ao restante da Ásia, à África à e Europa.
O objetivo anunciado era promover a conectividade dos três continen-
tes mencionados e seus mares adjacentes, contemplando o desenvolvi-
mento diversicado, independente, equilibrado e sustentável dos países
participantes (CHINA, 2015). Desde então, a iniciativa ganhou dimen-
sões cada vez mais globais e o discurso chinês tem enfatizado relações
win-win e o modelo de desenvolvimento harmonioso, caracterizado
como uma retórica alternativa ao processo de globalização neoliberal
(YIWEL, 2016).
Uma das dimensões cruciais da Nova Rota da Seda diz respeito às
queses securirias de ordem potico-territorial, principalmente aque-
las vinculadas às províncias autônomas da China. A hipótese do presente
artigo é, portanto, de que a Nova Rota da Seda é chave para a estabili-
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zação das fronteiras e de diluição ameaças separatistas (sobretudo Xin-
jiang, Tibete e Mongólia Interior), insuadas por forças estrangeiras, ao
promover a continentalização do desenvolvimento chinês e a integração
eurasiática. Mais do que isto, como diz Berlie (2020, p. 52), “Xinjiang é um
pivô da nova história da Ásia Central e, por meio dela, a Nova Rota da
Seda pode chegar a países distantes”.
Nesse sentido, analisamos o papel da Região Autônoma de Xinjiang
como um enlace territorial do processo de integração regional liderado
pela China. Essa região turcófona islamita apresenta intentos separatis-
tas, ilustrando a um só tempo um desao e uma oportunidade para a
integração territorial da China e de seu entorno centro-asiático. Na pri-
meira parte, apresentamos os principais vetores da ascensão e implemen-
tação da Nova Rota da Seda; em seguida, abordamos o histórico das ten-
sões entre o processo de reconstrução nacional chinesa e os movimentos
separatistas de Xinjiang; por m, analisamos como a Nova Rota da Seda
interage com as estratégias de contenção aos movimentos separatistas e
terroristas da região.
Uma visão panorâmica sobre a Nova Rota da Seda
O contato entre o Ocidente e Oriente é algo que perpassa os sécu-
los, e, por quase dois mil anos, árabes, chineses, persas, turcos e euro-
peus, dentre outros povos, puderam realizar trocas culturais e comer-
ciais através de uma enorme rede de estradas e interconexões. Desde o
século XVIII, as Rotas da Seda ligavam diferentes regiões da Eurásia e
África à China Imperial, com intenso uxo de comerciantes, mercená-
rios e peregrinos; de culturas, etnias, religiões e conhecimentos; de ani-
mais e plantas para a produção rural, etc. Segundo Samir Amin (1996),
a Ásia foi considerada o centro dimico do mundo por milênios, e só
perdeu este posto quando os europeus, que até então viviam na peri-
feria deste sistema geopolítico, tiveram acesso a estes territórios por
meio das Grandes Navegações. Em diversos textos de grandes nomes
do pensamento europeu do século XIX sobre história, losoa, direito,
política, cultura; a Ásia foi apresentada como o centro de todas as na-
ções do mundo e o ponto de partida da história mundial. Conforme as
palavras do lósofo alemão Hegel (1999, p.93): “a história universal vai
do leste ao oeste, pois a Europa é o m da história universal, e a Ásia é
o seu começo..
Aliás, foi justamente a expansão européia sobre esse centro geopo-
lítico do Oriente que concretizou essa mudança de paradigma e levou ao
século de humilhações na China, da Primeira Guerra do Ópio, em 1839,
até a Revolução Chinesa, em 1949. À Revolução coube a ampla tarefa de
reconstrução nacional: integrar o país e recuperar territórios perdidos;
reorganizar o Estado e suas instituições; e retomar o desenvolvimento
nacional. Coube à política de Reformas de Abertura desencadeada nos
anos 1970 sob a liderança de Deng Xiaoping desencadear um novo ciclo
de desenvolvimento e integração territorial da China.
A aproximação sino-estadunidense na virada dos anos 1960-70,
conformou aquilo que Pinto (2011) de um eixo combinando a globaliza-
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ção nanceira estimulada por Washington com o embrionário milagre
econômico chinês. Esse novo eixo sino-estadunidense de acumulação
se desenvolveu por meio de sinérgicas complementaridades comerciais
(ampliação da corrente de comércio), produtivas (articulação entre as
empresas estadunidenses e chinesas na cadeia global de produção) e -
nanceiras (reservas estrangeiras da China e títulos do Tesouro dos Es-
tados Unidos). Assim, a China não apenas se aproveitou da dimica de
acumulação da Ásia Oriental, como se converteu na ‘terceira onda’ de
desenvolvimento dessa região (PAUTASSO, 2009) - com particularidades
em relação à primeira, com epicentro no Japão, e à segunda, protagoni-
zada pela ascensão dos Tigres Asiáticos.
O acelerado processo de desenvolvimento, ampliado desde as re-
formas, deu maior complexidade à inserção internacional da China, o
que consequentemente demandou maior assertividade do país na arena
global. Mas, sem sombra de dúvidas, o projeto mais ambicioso foi a Nova
Rota da Seda, ou Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative
- BRI), lançada em 2013 pelo governo chinês. O mecanismo propulsor da
BRI é a construção de uma complexa rede de infraestrutura de transpor-
te, comunicação e energia em toda região, em grande medida replicando
o modelo gestado nas relações sino-africanas, de intercâmbio de obras
por acesso recursos naturais - contribuindo para a segurança energética
e alimentar da China.
Pode-se dizer que a Nova Rota da Seda encerra objetivos de curto,
médio e longo alcance para Pequim: primeiramente, trata-se de um pri-
vilegiado mecanismo de exportação de serviços de engenharia, dando
vasão à supercapacidade ociosa da economia chinesa, internacionalizan-
do empresas, fomentando o comércio regional e, consequentemente, a
demanda externa; em segundo lugar, impulsiona, dentre outras dimen-
sões, a integração eurasiática, impulsionando a recriação do sistema si-
nocêntrico; por m, rearma a ascensão da liderança chinesa, a partir
de um modelo de desenvolvimento e integração que representa o em-
brião de um projeto chinês de globalização - alternativo, por sua vez, à
globalização neoliberal irradiada desde Washington (PAUTASSO; UN-
GARETTI, 2017). Além do mais, promove a continentalização do de-
senvolvimento chinês, integrando e estabilizando regiões de minorias,
sobretudo Xinjiang, Tibete e Mongólia Interior.
Dessa forma, a BRI busca uma integração regional em moldes dis-
tintos. Ao invés de blocos econômicos com complexas amarras institu-
cionais ou arranjos multilaterais, a iniciativa chinesa busca a linha de
menor resistência. Ou seja, mobiliza sua capacidade em engenharia e
nanciamento, enquanto contribui para solucionar problemas infraes-
truturais de países periféricos. Como lembra Fallon (2015), a China re-
cupera uma tradição, a da realização de projetos com megaestruturas,
exemplicados pela Grande Muralha e o Grande Canal, ao passo que
recupera sua condição de Império do Meio na região com a recriação de
um novo sistema sinocêntrico.
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Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
Figura 1 - A Nova Rota da Seda
Fonte: Mercator Institute for China Studies (2018).
Em seu 13º Plano Quinquenal5, de 2016, o governo chinês detalhou
os objetivos a serem atingidos pela BRI. Incluía aumentar o comércio e o in-
vestimento regional; melhorar os mecanismos de cooperação multilateral;
aprimorar a conectividade de infraestrutura; ampliar os uxos de pessoas
e capitais; impulsionar os mecanismos de cooperação nanceira para o de-
senvolvimento, como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura
e o Novo Banco de Desenvolvimento e o Fundo da Rota da Seda; trabalhar
para elevar Xinjiang à condição de região central do Cinturão Econômico
da Rota da Seda, e Fujian ao principal ponto de contato da Rota Marítima
da Seda; e promover cooperação nas áreas de educação, ciência, tecnologia,
cultura, esportes, turismo, proteção ambiental e assistência médica.
E para dar consequência e articulação política da Nova Rota da
Seda, o governo chinês estabeleceu um fórum bianual, inaugurado em
2017 e replicando bianualmente em 2019. Através do vetor infraestrutural,
a china busca impulsionar o comércio e os investimento com os outros
65 países, responsáveis por mais de 30% do PIB global, 62% da população
e 75% das reservas de energia conhecidas. Os dados ociais dão conta de
que o volume total de comércio entre a China e os países e regiões envol-
vidos na BRI excedeu US$ 6 trilhões de dólares entre 2013 e 20186.
A partir da ênfase da diplomacia chinesa no desenvolvimento com-
partilhado pela via do dlogo, a China assinou, até novembro de 2019,
5. Ver íntegra do documento, dis-
ponível em: https://en.ndrc.gov.
cn/policyrelease_8233/201612/
P020191101482242850325.pdf
6. Ver reportagem, disponível
em: https://www.beltandroad.
news/2019/04/20/belt-road-coun-
tries-trade-exceeds-6-trillion-from-
-2013-to-2018/
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197 acordos de cooperação, com 137 países e 30 organizações internacio-
nais, incluindo mais de dez agências da Organização das Nações Unidas
(ONU) e a Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sus-
tentável. Nesse contexto, o governo chinês emitiu o Plano de Ação para
a Conectividade Padrão do Cinturão e Rota e assinou mais de 80 docu-
mentos-quadro de cooperação para padronização com cerca de 50 países
e regiões7. Também emitiu os Princípios Orientadores sobre o Financia-
mento do Desenvolvimento do Cinturão e Rota e a Sustentabilidade da
Dívida - uma das críticas recorrentes à iniciativa de Pequim.
Em suma, a Nova Rota da Seda precisa ser compreendida como
parte da reconstrução nacional chinesa e de sua projeção global de po-
der. Uma reconstrução que, depois de superados os percalços iniciais da
revolução e encaminhado o projeto de desenvolvimento nacional, recu-
pera tradições milenares. Internamente, deve-se observar a recuperação
do confucionismo, da relação simbiótica entre mercado e planejamento
e da capacidade de planejamento do aparelho estatal, característico do
mandarinato. Internacionalmente, a China busca reconstituir o sistema
sinocêntrico (PAUTASSO, 2011), recriando sua liderança sobre a Ásia. Se
a Nova Rota da Seda representa o algama dessas duas dimensões, Xin-
jiang é seu enlace territorial.
A reconstrução nacional chinesa e ascensão do separatismo em
Xinjiang
O ponto de partida é reconhecer que a China é um estado multiét-
nico desde a conformação de seu primeiro império, quando o nascente
Império Qin (221-206 a.C.) pôs m ao período dos Reinos Combatentes.
Historicamente, as autoridades centrais das dinastias adotavam uma po-
lítica de “governo por costume” para contemplar as minorias étnicas, ga-
rantindo a preservação de seus próprios sistemas sociais e culturais. Ape-
sar das sucessões disticas, crises e alterações das fronteiras imperiais, o
Império do Meio sempre exerceu esse efeito gravitacional sobre diversas
formações sociais e culturais. Como destaca Visentini (2011, p. 23), cava-
leiros mongóis, ociais manchus, sacerdotes tibetanos e comerciantes ui-
gures zeram parte das dinastias chinesas e, eventualmente, à frente do
Império. Als, de 1279 a 1378, a China foi governada por dinastia mongol
e de 1644 a 1911 por dinastia manchu - o que representaria, considerando
do declínio da Idade Média até as vésperas da I Guerra Mundial, 58% do
período (LOSURDO, 2012, p. 247). Ao invés de expansionismo han, o
que houve foram sucessões dinásticas, historicamente conturbadas, com
profundas alterações fronteiriças, cujo período do século de humilhações
levou a amputações territoriais provocados por invasões e agressões es-
trangeiras, incluindo Tibete, Xinjiang, Manchúria (inclusive com estado
fantoche japonês), além de perdas da Mongólia Exterior, Taiwan, Hong
Kong e Macau.
Como pode-se perceber, Xinjiang possui parte da população com
uma matriz étnica turca, proveniente da Ásia Central no século VII e isla-
mizada por volta do século X. A região experimentou um período de relati-
va independência e isolamento a partir da Guerra do Ópio (1839), se tornan-
7. Ver agência reportagem da Xinhua
“China signs 197 B&R cooperation
documents with 137 countries, 30
international organizations”, disponível
em: http://www.xinhuanet.com/english/
2019-11/15/c_138558369.htm
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Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
do província apenas em 1884 ao xar sua fronteira ocidental com a Rússia.
Com o colapso da Dinastia Qing e a pulverização de autoridades políticas
no território chinês, Xinjiang passou a ser dirigido por lideranças militares
autônomas, que transitaram entre alianças com a União Soviética, primei-
ramente, e com o Kuomintang, num segundo momento, até serem derro-
tadas pelos comunistas em setembro de 1949, na esteira dos acontecimentos
da revolução dirigida pelo Partido Comunista da China (PCCh).
Como a revolução teve caráter antifeudal e anti-imperialista, o im-
perativo imediato foi o da reconstrução nacional, incluindo a centraliza-
ção política e o controle da unidade territorial. Num primeiro momen-
to, a República Popular da China se autodenominou como um Estado
multinacional. À beira da fragmentação do território, o governo emitiu,
ainda em 1952, uma medida para concertação política, o Esboço para a
Implementação da Autonomia Regional das Minorias Étnicas. Em 1954,
o Congresso Nacional do Povo aprovou o sistema de autonomia regional
para as minorias étnicas na Constituição da República Popular da China.
Nesse contexto, foram estabelecidas as regiões autônomas, sendo a pri-
meira a da Mongólia Interior, ainda em 1947, seguida pela Região Autôno-
ma Uigur de Xinjiang (Xinjiang Uighur Autonomous Region - XUAR), em
1955, as de Guangxi e Ningxia, em 1958, e do Tibete, em 1965.
Apesar dessas medidas institucionais, a política do governo central
foi de perseguição aos eventuais focos de poder paralelo, incluindo de mi-
norias étnicas e religiosas, com a posterior Revolução Cultural agudizan-
do esta tendência (MILLWARD, 2007). Ademais, ruptura Sino-Soviética
fortaleceu o controle do governo chinês sobre a região, pois o isolamento
internacional recrudesceu as preocupações com as questões securitárias
nacionais, dados os laços consanguíneos entre os povos localizados na
fronteira e que atravessa a Ásia Central até a Turquia. Com o colapso da
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), os grupos fundamen-
talistas islâmicos apoiados pelos Estados Unidos e o Paquistão para conter
os soviéticos no Afeganistão se expandiram pela Ásia Central.
A partir da década de 1990 foi criada uma série de organizações
políticas e não-governamentais alinhada às reivindicações separatistas
em Xinjiang. Dentre elas, destaca-se o East Turkistan Islamic Movement
(ETIM), formado em 1990 sob o patrocínio da CIA, e desde 2002 é classi-
cado ocialmente pela ONU como uma organização terrorista vincula-
da à Al Qaeda. Nesse sentido, o Ministério da Segurança da China tam-
bém classicou o East Turkistan Liberation Organization (ETLO), o East
Turkistan Information Center (ETIC) e o World Uygur Youth Congress
(WUYC) como terroristas. Junto da International Uyghur Human Rights
and Democracy Foundation e do World Uyghur Congress, o WUYC rece-
beu consideráveis patrocínios da US National Endowment of Democracy
(NED) – organização internacional originariamente nanciada pelo Con-
gresso dos Estados Unidos, e vinculada à Soros Foundation na promoção
de operações de desestabilização política desde a década de 1990, quando
atuaram conjuntamente nos eventos concernentes ao desmembramento
da Iugoslávia (BANDEIRA, 2014).
Aliás, o que ainda pauta boa parte das alises é um relatório inti-
tulado ‘O Projeto Xinjiang’ escrito pelo ex-ocial sênior da CIA Graham
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E. Fuller em 1998 para a Rand Corporation e revisado em 2003 sob o títu-
lo The Xinjiang problem8. Noutro livro, intitulado Fire on the Water: Chi-
na, America, and the Future of the Pacic, tipicamente do establishment
político-militar, resta claro que guerras irregulares, não convencionais,
operações midiáticas, ações encobertas voltadas a gerar desordens, jogar
uma nacionalidade contra a outra, dividir e cooptar parte do aparelho
estatal, para “provocar instabilidade por exemplo no Tibete e Xinjiang”
(HADDICK apud LOSURDO, 2018, p. 358).
A China não tardou em buscar respostas para tais dilemas. Assim,
ainda em 2000 foi lançada pelo presidente Jiang Zemin a campanha do
Desenvolvimento do Grande Oeste, visando estabelecer corredor comer-
cial e energético conectando a China aos vizinhos da Ásia Central (CLAR-
KE, 2016). Nesse mesmo sentido, a China foi impulsionou a criação em
2001 da Organização da Cooperação de Xangai (OCX) - junto à Rússia,
Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tadjiquistão -, tendo como um
de seus principais eixos o combate multilateral à proliferação de grupos
extremistas na Ásia Central. A organização nasceu com a prioridade de
combater os três males (separatismo, terrorismo e fundamentalismo), no
contexto da Guerra Global ao Terror (GGT) desencadeada por Washin-
gton - um tanto problemática dado que esta não poderia avançar sem
debelar o apoio de dois aliados do movimento jihadista, Arábia Saudita e
Paquistão (COCKBURN, 2015).
No entanto, questões geoestratégicas mais amplas impediram que
os Estados Unidos mantivessem uma postura de apoio ostensivo às mo-
vimentações separatistas de Xinjiang. Na esteira dos acontecimentos do
11 de setembro de 2001 e do apoio chinês à GGT, os Estados Unidos pas-
saram a ensejar esforços em prol da inclusão do ETIM na lista de grupos
terroristas reconhecidos pela ONU. As intervenções estadunidenses de-
correntes da GGT modicaram o panorama de atuação do ETIM, que
passou a enfrentar tropas paquistanesas e dos Estados Unidos, além das
chinesas, no conjunto de países da Ásia Central. O grupo - que entre 1990
e 2001 havia cometido mais de 200 atos de terrorismo, especialmente con-
tra civis e órgãos de Estado chineses - teve diversos integrantes captura-
dos e levados à Guantánamo, além de ter seu líder, Abu-Muhammad al
Turkestani, morto em 2003 (BANDEIRA, 2014).
Ainda assim, Anwar Yusuf Turani autoproclamou-se, em 2004,
chefe do governo do Turquestão Oriental - sediado em Washington, ain-
da que sem reconhecimento pelo governo estadunidense -, evidenciando
uma possível inexão no cenário dos enfrentamentos (BANDEIRA, 2014).
Essa inexão tomaria forma perante os avanços da estratégia de Pequim
de criar o Corredor Econômico China-Paquistão, integrando o porto de
Gwadar, no Paquistão, à região de Xinjiang. Este projeto representava,
para além de um arranjo de cooperação regional, um importante passo
para o sucesso da estratégia chinesa de superação de possíveis obstruções
de sua segurança energética.
Em 2009, um levante seria protagonizado em Urumqi, capital de
Xinjiang, deixando 197 mortes e mais de 1.700 feridos e evidenciando uma
nova etapa de internacionalização do conito. Segundo o Departamento
de Segurança Pública de Xinjiang, os métodos terroristas se tornaram
8. Ver detalhes acerca da formação do
ETIM, disponível em: https://21stcen-
turywire.com/2018/12/14/the-truth-
-behind-chinas-uyghur-problem/
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Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
cada vez mais violentos; em 1999, num esconderijo encontraram 5.000
granadas caseiras do grupo terrorista Kuresh, em 2006, 15.000 armas
contrabandeadas do exterior foram apreendidas9. Diversos foram os aten-
tados terroristas praticados por grupos ans às perspectivas separatistas
entre 1990 a 2020, matando um grande número de pessoas inocentes e
centenas de policiais. Além destes eventos ocorridos na capital de Xin-
jiang, Urumqi, em 2009, também ocorreram na Praça da Paz Celestial,
em 2013, e na estação de trem de Kunming, em 2014. Os documentários
Fighting terrorism in Xinjiang10, e A mão negra - ETIM e terrorismo em
Xinjiang11, produzidos pela CGTN, abordam com excelência tais ques-
tões. Als, milhares destes terroristas se vincularam ao Estado Islâmico
durante a guerra na Síria.
Segundo Fuller e Starr (2003, p. 46), os Estados Unidos têm preo-
cupações sobre a natureza do futuro papel da China no cenário inter-
nacional e por isso Washington exerce pressão sobre Pequim através
do através da Uyghur card e seu potencial desestabilizador. Trata-se de
uma política voltada ao desmembramento da China, excluindo, além de
Xinjiang, Mongólia Interior e Manchúria e Tibete - no último caso mo-
bilizando uma suposta bandeira da não-violência como elemento para
o Grande Jogo estadunidense na região (LOSURDO, 2012, p. 245-254).
Além do mais, como destacaram Reed e Raschke (2010), os Estados Uni-
dos assumem uma postura moderada perante o ETIM, na medida em
que inserem o agrupamento nas listas-negras do terrorismo vinculadas
ao nanciamento e imigração, mas o mantém fora da lista de grupos ter-
roristas estrangeiros reconhecidos pelo Departamento de Estado.
A questão intermitente de Xinjiang voltou à tona em 2020, quando
as grandes agências de notícias internacionais, como a Reuters12, arma-
ram que a ONU tem relatos sobre um contingente de cerca de 1 milhão
de muçulmanos uigures em “campos de reeducação” na China. Contu-
do, não há nenhum documento do Alto Comissariado das Nações Unidas
para os Direitos Humanos (Oce of the High Commissioner for Human
Rights - OHCHR)13 sobre o assunto, mas sim relatos do grupo de ativistas
Rede de Defensores dos Direitos Humanos da China (Chinese Human
Rights Defenders - CHRD), sediado em Washington e patrocinado, entre
outros, pela NED14. Apesar do frenesi na mídia ocidental, cerca de 54 paí-
ses, dentre os quais muitos de maioria populacional muçulmana, defen-
deram ocialmente em uma conferência da ONU as medidas chinesas de
combate ao extremismo terrorista na região15.
Nesse contexto o governo chinês tem estendido as políticas para
as minorias étnicas. Com o documento Autonomia Regional para Mi-
norias Étnicas na China (2005), do Gabinete de Informação do Conselho
de Estado da República Popular da China, a China estabeleceu, em 2003,
155 áreas autônomas étnicas, somando ainda 30 prefeituras autônomas
e 120 municípios autônomos. Quer dizer: além de usufruir dos mesmos
direitos de outros órgãos estatais, possuem direito de formular regula-
mentos de autogoverno de modo a atender às condições especícas do
grupo étnico, incluindo uso e desenvolvimento de seus idiomas, liberda-
de de crença religiosa e costumes, autonomia da formulação de políticas
educacionais e culturais, etc16.
9. Ver documentário, disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=B-
jgSOYRZqIo
10. Ver documentário, disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=B-
jgSOYRZqIo
11. Ver documentário, disponível em:
https://news.cgtn.com/news/2019-12-
07/The-black-hand-ETIM-and-terrorism-
-in-Xinjiang-MepKpOPAKA/index.html
12. Ver notícia original, disponível em:
https://www.reuters.com/article/us-chi-
na-rights-un/u-n-says-it-has-credible-re-
ports-that-china-holds-million-uighurs-
-in-secret-camps-idUSKBN1KV1SU
13. Ver relatório da ONU, disponível
em: https://www.ohchr.org/EN/NewsE-
vents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsI-
D=23452&LangID=E
14. Ver notícia sobre financiamento do
grupo ativista, disponível em: https://
thegrayzone.com/2018/08/23/un-did-
-not-report-china-internment-camps-ui-
ghur-muslims/
15. Ver reportagem do Global Times, dis-
ponível em: https://www.globaltimes.
cn/content/1168522.shtml
16. Disponível em: http://www.gov.
cn/english/official/2005-07/28/con-
tent_18127.htm
34
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 25-42
Embora a China contabilize 56 etnias, 91,64% são chineses étni-
cos (han), 1,27% de zhuangs, e todas as demais abaixo de 1%, conforme
o China Ethnic Statistical Yearbook 2016. Pode-se dizer que há uma re-
gião core habitada pela população han e circundada por outras regiões,
incluindo Xinjiang, Tibete, Mongólia Interior, Manchúria e outras pro-
víncias menores. A região de Xinjiang é habitada por pouco mais de 20
milhões de habitantes, cerca de 1,4% da população da China, distribuídos
em 47 grupos étnicos, com aproximadamente 45% de uigures (turcófo-
nos islâmicos), 41% de chineses han, 7% de cazaques, 7% de huis (chine-
ses muçulmanos), além de outras minorias menos expressivas (mongóis,
quirguizes, etc.). São 1,66 milhões de km, representando 1/6 do território
chinês e com cerca de 5,5 mil km de fronteira com outros países: com a
Mongólia, ao nordeste; com a Rússia, o Cazaquistão, o Quirguistão e o
Tajiquistão ao oeste; e com o Afeganistão, o Paquistão e a Índia ao su-
doesteEssas unidades administrativas gozam de especicidades, de acor-
do com a Lei de Autonomia Étnica Regional17.
Figura 2 - Localização de Xinjiang
Fonte: Fevrier (2017).
No contexto da escalada das narrativas anti-chinesa, Pequim tem
trabalhado para dirimir os intentos separatistas com maior ênfase no con-
sentimento do que na coerção, distintamente dos primeiros momentos
após a revolução. É nesse quadro, pois, que se enquadra o documento inti-
tulado A luta contra o terrorismo e o extremismo e a proteção dos direitos
humanos em Xinjiang18, combinando o combate implacável da inuência
de separatistas, extremistas religiosos e terroristas à busca de promoção
de ainda mais direitos aos povos uigures. Além disso, o governo chinês
17. Ver detalhes no site oficial do gover-
no chinês, disponível em: http://www.
china.org.cn/english/features/43608.htm
18. Ver documento completo
em: http://news.cn/english/
2019-03/18/c_137904166.htm
35
Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
tem buscado promover, por um lado, políticas de reconhecimento, como
através da construção de mais de 35.000 mesquitas - muito mais que as
2.300 na França, 2.106 nos Estados Unidos ou 1.600 na Grã-Bretanha, que
mesmo numa base per capita daria cerca de três vezes mais mesquitas no
país oriental. E, por outro, políticas distributivas via desenvolvimento.
Para se ter uma ideia, o Escritório de Informação do Conselho de Estado
(SCIO) divulgou um relatório apresentando o desenvolvimento econômi-
co e social nos últimos 70 anos na Região Autônoma Uigur de Xinjiang,
destacando 1) o aumento do PIB de 791 milhões de yuans em 1952 para
1,22 trilhão de yuans em 2018, um crescimento médio anual de 8,3%; 2)
mais de 2,31 milhões de pessoas foram retiradas da pobreza entre 2014 a
2018; 3) e o PIB per capita aumentou 37,7 vezes com base no ajuste da ina-
ção para 49.475 yuans19. Além do mais, a Associação Mundial de Medicina
Natural declarou Xinjiang como uma das quatro regiões do mundo com
maior média de longevidade, tendo o maior número de pessoas centená-
rias por milhão de pessoas da China (LIANGQI, 2012).
Apesar do desenvolvimento econômico, o desao para a estabilida-
de local segue sendo as tensões inter-étnicas. Por vezes, ações armativas
como educação bilíngüe aumenta convívio e tensões; os funcionários han
responsáveis pela execução de obras eventualmente não tem familiarida-
de com a situação local; e a própria securitização da região, com controles
mais rígidos, gera conitos (ZHANG; MCGHEE, 2014). Ademais, as de-
sigualdades sociais provocam ressentimento em uigures, enquanto mui-
tos se sentem privados de reconhecimento em termos políticos, culturais
e religiosos. Para tanto, Pequim tem buscado combinar a promoção do
desenvolvimento com a repressão aos focos de desestabilização (HAO;
LIU, 2012). Isto é, em meio ao mais notável processo de modernização e
mobilização social, o governo chinês tem de lidar com o imperativo de
superar clivagens sociais, regionais e étnico-religiosas entrelaçadas, fre-
quentemente fomentada por atores estrangeiros.
A Nova Rota da Seda e a estratégia de contenção do separatismo
Em razão de sua posição estratégica, Xinjiang é uma das regiões
que mais tem recebido investimentos oriundos da Nova Rota da Seda.
o obstante, em março de 2015, a Comissão Nacional de Desenvolvi-
mento e Reforma emitiu um documento intitulado Visão e Ações para
Promover a Construção Conjunta da Faixa Económica da Rota da Seda
e da Rota Marítima da Seda do Século XXI onde estabelece o quadro po-
lítico para o desenvolvimento da iniciativa. No tocante aos papéis regio-
nais dentro da BRI, o documento arma que deve-se “tirar proveito da
vantagem geogca particular e do papel da Região Autónoma Uigur de
Xinjiang como uma janela importante para se abrir ao Oeste, aprofundar
o intercâmbio e a cooperação com os países da Ásia Central, Ásia Meri-
dional e Ásia Ocidental, formar um importante ponto de conexão para os
transportes e comunicações, um centro de comércio, logística, cultura,
ciência e educação, criar uma zona econômica central na Faixa Econômi-
ca da Rota da Seda.” (CHINA, 2015, p. 1). A XUAR representa o território
que entrelaça i) o comércio fronteiriço com os países da Ásia Central, ii) o
19. Ver reportagem da CGTN, disponível
em: https://news.cgtn.com/news/2019-
07-30/How-Xinjiang-s-economy-and-so-
ciety-developed-in-the-last-70-years-IK-
cPHfKLGU/index.html
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 25-42
acesso direto aos recursos energéticos e matérias primas e iii) os desaos
securitários daquela região.
Através dos investimentos em infraestrutura, a Nova Rota da Seda
tem gerado empregos e desenvolvimento no oeste chinês (HAYES, 2015).
Para 2017, por exemplo, o orçamento foi estipulado em 170 bilhões de
yuans destinados a construção de rodovias, 8,1 bilhões para as ferrovias e
4,8 bilhões para a aviação civil, com os dois últimos tiveram aumentando
50% do orçamento em relação ao de 2016 (WEIHUA; JIA, 2017) – um
montante total de $27,2 bilhões de dólares. Nos últimos anos, a escala da
rede de infraestrutura de transporte de Xinjiang aumentou consideravel-
mente. Até o momento, Xinjiang conta com uma malha ferroviária de
mais de 6.200 quilômetros, com 21 aeroportos de transporte civil e com
vias expressas que ultrapassam 5.200 quilômetros.
Com efeito, as autoridades da província autônoma já estabelece-
ram como prioridade a função logística de Xinjiang dentro da Nova Rota
da Seda, dada sua posição de enlace territorial entre o leste da China e
a Ásia Central. Atendendo à estratégia de desenvolvimento coordenado
regional, o Planejamento da Rede de Transporte Abrangente da Região
Autônoma de Xinjiang Uygur (2021-2050) vem sendo elaborado em con-
junto com o governo central. Segundo Wang Xinlin (2020), apesar dos
gargalos em termos de infraestrutura, mas é nítido o objetivo de conver-
ter Xinjiang na região de interconexão territorial com o exterior em área
central da BRI.
A ideia de Xinjiang como central para a Nova Rota da Seda tem
se tornado mais evidente (YAN, 2016). Trata-se de um enlace territorial,
da conectividade através da Ásia Central até a Europa, implicando em
redução de tempo e custo no acesso aos mercados estrangeiros. Até en-
tão, a forma mais prática de fazê-lo era através do Estreito de Malaca, no
Mar da China, levando aproximadamente de 20 a 40 dias para chegar a
seu destino (Europa, por exemplo). A rota via Xinjiang permite que os
produtos chineses alcancem o mesmo destino em apenas 16 dias, atra-
vés da construção de uma ferrovia de alta velocidade (11.179 quimetros
de extensão) que corta a Ásia Central, passando por Ürümqi, capital da
XUAR, depois pela Ásia Central, Rússia por grande extensão da Europa,
até chegar à Alemanha.
37
Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
Figura 3 - Ferrovia entre Chongqing e Duisburg
Fonte: Chen e Mardeusz (2015)
Para além das vias de acesso aos mercados euroasiáticos, investe-
-se também na construção de gasodutos e oleodutos na XUAR. Ao lon-
go do século XXI, a preocupação com a segurança energética tornou-se
central em qualquer planejamento, pois os riscos de paralisia da eco-
nomia ou de violações da soberania dependem do acesso aos recursos
energéticos. Nesse sentido, a China tem buscado diversicar seu abas-
tecimento, escapando a qualquer forma de dependência, sobretudo de
regiões instáveis como o Oriente Médio. Da mesma forma, o governo
chinês busca diminuir a dependência do Estreito de Malaca como rota
de abastecimento, região por onde passa cerca de 80% do suprimen-
to do país (YIWEI, 2016). Com a Nova Rota da Seda e a facilitação do
acesso à Ásia Central, a China tende a diversicar os fornecedores de
energia, recursos minerais e alimentos. Isto permitirá que o país acesse
os suprimentos energéticos vindos tanto do Oriente Médio quanto da
Ásia Central, garantindo vitalidade aos seus índices de crescimento eco-
nômico (BRUGIER, 2014; FALLON, 2015).
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 25-42
Figura 4 – Principais recursos naturais de Xinjiang e da Ásia Central
Fonte: Central Asia (2017).
Deve-se ressaltar que Xinjiang é extremamente importante para a
Nova Rota da Seda, não somente pelos recursos energéticos, como petró-
leo e gás, presentes no seu próprio território, mas também pela condição
de espaço de conexão de todo tipo de infraestrutura. A XUAR tem sido
objeto de uma grande expansão do comércio transfronteiriço entre diver-
sos Estados asiáticos e a China (ELMER, 2011). Mas a questão de fundo
ultrapassa a dimensão econômica, pois o oeste chinês é parte da recons-
trução nacional, da integração regional e da projeção global da China.
Em outras palavras, há um Novo Grande Jogo (RASHID, 2003) que passa
por Xinjiang, na medida que desta região dependem a integração territo-
rial chinesa e sua liderança sobre a integração regional impulsionada via
OCX e Nova Rota da Seda. Não se deve esquecer que em um potencial
cenário de ruptura do tfego no Estreito de Malaca, os estrategistas chi-
neses desenvolveram dois planos de contingência: o primeiro é a ligação
do Paquistão (porto de Gwadar) até Xinjiang e o segundo a ligação de
Mianmar (porto de Sittwe) até Yunnan. São, pois tanto vias de segurança
energética, quanto de transporte de de bens (CARRIÇO, 2007, p.14).
39
Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
Figura 5 - Xinjiang e a integração da infraestrutura regional
Fonte: Ma (2019).
Dada a complexidade do projeto, estas dimensões acabam se interco-
nectando. No caso da ligação com o porto paquistanês, cabe indicar que a
cidade de Gwadar está situada em zona paquistanesa também afetada pela
atuação de movimentos separatistas, na província do Baluchistão, onde atua
o Exército de Libertação do Baluchistão. Até 2007 o Paquistão possuía ape-
nas dois portos comerciais, situados em Karachi e Bin Qasin. Ciente da vul-
nerabilidade de ambos frente aos possíveis ataques da Índia - que em 1971
alvejou o complexo portuário de Karachi com mísseis -, há décadas o Paquis-
tão almejava a construção de um terceiro complexo, com profundidade ter-
ritorial capaz de protegê-lo de eventuais movimentações indianas. Als, esta
estratégia de estabelecer um “colar de pérolas” que se estenda desde a ilha
de Hainan, que passa pelo arquipélago das Spratly, pelo Camboja, Taindia,
por Mianmar (ilhas Coco, ilha de Hainggyi, ilha Zadetkyi Kyun, portos de
Sittwe, Kyaukpyu, Bassein, e Mergui), Sri Lanka e Bangladesh até à entrada
do Golfo Pérsico (porto de Gwadar) tem vindo a suscitar preocupações aos
estrategistas estadunidenses, indianos e iranianos (CARRO, 2007).
Para lidar com esse cenário de instabilidade da região e da possi-
bilidade de internacionalização do conito, o governo chinês formatou
diversas estratégias. A promoção da migração de população han para o
oeste chinês constitui, nesse sentido, importante pilar de diluição da ca-
pacidade dos grupos extremistas islâmicos ampliarem seus laços com a
população (DILLON, 2011), ainda que a imposição da população han nos
negócios regionais - principalmente na gestão das atividades agrícolas e
no acesso aos cargos públicos - tenha ampliado, de certa forma, o descon-
tentamento com o governo chinês por substancial parcela da população
origiria da região (HAYES, 2015; TEDESCHI, 2015).
Por outro lado, o impulsionamento da interiorização do projeto
de desenvolvimento chinês, preocupação enfatizada desde a elaboração
40
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 9, n. 4, (dez. 2021), p. 25-42
do projeto Grande Desenvolvimento do Oeste, tem visado a diminuição
das desigualdades regionais e a maior integração da economia nacional.
Ademais, o contexto de cooperação da China com o Paquistão poten-
cializou a importância de Xinjiang no conjunto do projeto de desenvol-
vimento chinês. O Corredor Econômico China-Paquistão é demarcado
por uma vasta rede de infraestrutura, de cerca de 3.000 km de extensão,
indo desde o porto de águas profundas no Mar da Arábia, em Gwadar,
no Paquistão, até a cidade de Kashgar, na província de Xinjiang. Além de
contribuir para dirimir as instabilidades securitárias do país vizinho, sua
implementação corrobora os esforços chineses para evitar eventual check
point estratégico no Estreito de Malaca. Por m, o robustecimento da
OCX - tendo como prioridade securitária o combate aos três males (terro-
rismo, separatismo e fundamentalismo) - permite a multilateralização do
combate aos grupos extremistas locais.
Em suma, pode-se dizer que as questões securitárias de Xinjiang
apresentam uma dimensão multifacetada dos desaos do governo chinês
em âmbitos nacional, regional e até global. E, como destacou Mackerras
(2015), ainda que as potências ocidentais sigam manobrando o discurso
em prol da defesa dos direitos humanos na região, questionando as me-
didas de contenção ao terrorismo do PCCh, dicilmente o priorizarão
diante das oportunidades econômicas que progressivamente surgem em
Xinjiang, como fruto da execução dos vigorosos projetos de infraestrutu-
ra em curso. Dessa forma, cabe avaliar como a Nova Rota da Seda, como
grande estratégia de inserção internacional da China, interage com a ca-
pacidade do país lidar com o desenvolvimento, a integração e a estabiliza-
ção securitária da porção oeste de seu território, ao passo que impulsiona
a ligação com a Ásia Central e demais regiões cruciais para o êxito das
pretensões do gigante asiático.
Considerações finais
Xinjiang é uma região estratégica, e o governo chinês reconhece
o imperativo de superar muitas clivagens sociais, regionais e étnico-reli-
giosas ali existentes, inclusive a eliminação da pobreza extrema. Trata-se
de um território crucial para a unidade nacional de um país multiétnico,
bem como para continentalização do desenvolvimento chinês. É o espa-
ço de enlace territorial do comércio e da integração regional com vários
países vizinhos, sem o qual a OCX caria comprometida. Essa província
é também rota infraestrutural essencial para a segurança do suprimento
de recursos naturais, alimentos e energia para a economia chinesa.
Por toda sua imporncia, Xinjiang está no epicentro de dilemas se-
curitários chineses. O transbordamento dos grupos terroristas e a aposta
de Washington e seus aliados na desestabilização e desmembramento da
China, torna a questão central para as autoridades chinesas. A guerra de
informações promovida pelos Estados Unidos, pois, é parte de uma es-
tratégia mais ampla de imposição de constrangimentos à projeção global
da China. Tal estratégia de contenção inclui não apenas o fomento ao
separatismo em Xinjiang, mas também no Tibete, em Taiwan e em Hong
Kong, bem como o estímulo aos conitos no Mar do Sul da China e a
41
Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
potencialização de posturas ideológicas anti-chinesas pelo mundo. Tudo
isso ao passo em que os estadunidenses reforçam sua presença militar
no Pacíco (Guam, Filipinas, Coreia do Sul, etc.), buscam sabotar a esta-
bilidade política do sistema de governo chinês e recrudescem a Guerra
Comercial. Isto é, a narrativa anti-chinesa sobre Xinjiang diz mais sobre
os objetivos de Washington do que sobre as contradições étnicas-sociais-
-religiosas da China.
Parece, pois, que o futuro da região é decisivo para o desenrolar do
processo da reconstrução nacional da China, iniciado em 1949, para a re-
conguração do sistema sinocêntrico e para a conrmação da Nova Rota
da Seda - esta última uma espécie de projeto chinês de globalização. E,
indubitavelmente, o êxito da iniciativa chinesa tende a ser variável chave
na encruzilhada sistêmica, em que colidem dimica globais distintas,
lideradas por Washington e Pequim.
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