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Diego Pautasso, Tiago Soares Nogara, Ana Paula Bernardo de Sousa, Gaio Doria A Nova Rota da Seda e o dilema de Xinjiang
cada vez mais violentos; em 1999, num esconderijo encontraram 5.000
granadas caseiras do grupo terrorista Kuresh, em 2006, 15.000 armas
contrabandeadas do exterior foram apreendidas9. Diversos foram os aten-
tados terroristas praticados por grupos ans às perspectivas separatistas
entre 1990 a 2020, matando um grande número de pessoas inocentes e
centenas de policiais. Além destes eventos ocorridos na capital de Xin-
jiang, Urumqi, em 2009, também ocorreram na Praça da Paz Celestial,
em 2013, e na estação de trem de Kunming, em 2014. Os documentários
Fighting terrorism in Xinjiang10, e A mão negra - ETIM e terrorismo em
Xinjiang11, produzidos pela CGTN, abordam com excelência tais ques-
tões. Aliás, milhares destes terroristas se vincularam ao Estado Islâmico
durante a guerra na Síria.
Segundo Fuller e Starr (2003, p. 46), os Estados Unidos têm preo-
cupações sobre a natureza do futuro papel da China no cenário inter-
nacional e por isso Washington exerce pressão sobre Pequim através
do através da Uyghur card e seu potencial desestabilizador. Trata-se de
uma política voltada ao desmembramento da China, excluindo, além de
Xinjiang, Mongólia Interior e Manchúria e Tibete - no último caso mo-
bilizando uma suposta bandeira da não-violência como elemento para
o Grande Jogo estadunidense na região (LOSURDO, 2012, p. 245-254).
Além do mais, como destacaram Reed e Raschke (2010), os Estados Uni-
dos assumem uma postura moderada perante o ETIM, na medida em
que inserem o agrupamento nas listas-negras do terrorismo vinculadas
ao nanciamento e imigração, mas o mantém fora da lista de grupos ter-
roristas estrangeiros reconhecidos pelo Departamento de Estado.
A questão intermitente de Xinjiang voltou à tona em 2020, quando
as grandes agências de notícias internacionais, como a Reuters12, arma-
ram que a ONU tem relatos sobre um contingente de cerca de 1 milhão
de muçulmanos uigures em “campos de reeducação” na China. Contu-
do, não há nenhum documento do Alto Comissariado das Nações Unidas
para os Direitos Humanos (Oce of the High Commissioner for Human
Rights - OHCHR)13 sobre o assunto, mas sim relatos do grupo de ativistas
Rede de Defensores dos Direitos Humanos da China (Chinese Human
Rights Defenders - CHRD), sediado em Washington e patrocinado, entre
outros, pela NED14. Apesar do frenesi na mídia ocidental, cerca de 54 paí-
ses, dentre os quais muitos de maioria populacional muçulmana, defen-
deram ocialmente em uma conferência da ONU as medidas chinesas de
combate ao extremismo terrorista na região15.
Nesse contexto o governo chinês tem estendido as políticas para
as minorias étnicas. Com o documento Autonomia Regional para Mi-
norias Étnicas na China (2005), do Gabinete de Informação do Conselho
de Estado da República Popular da China, a China estabeleceu, em 2003,
155 áreas autônomas étnicas, somando ainda 30 prefeituras autônomas
e 120 municípios autônomos. Quer dizer: além de usufruir dos mesmos
direitos de outros órgãos estatais, possuem direito de formular regula-
mentos de autogoverno de modo a atender às condições especícas do
grupo étnico, incluindo uso e desenvolvimento de seus idiomas, liberda-
de de crença religiosa e costumes, autonomia da formulação de políticas
educacionais e culturais, etc16.
9. Ver documentário, disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=B-
jgSOYRZqIo
10. Ver documentário, disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=B-
jgSOYRZqIo
11. Ver documentário, disponível em:
https://news.cgtn.com/news/2019-12-
07/The-black-hand-ETIM-and-terrorism-
-in-Xinjiang-MepKpOPAKA/index.html
12. Ver notícia original, disponível em:
https://www.reuters.com/article/us-chi-
na-rights-un/u-n-says-it-has-credible-re-
ports-that-china-holds-million-uighurs-
-in-secret-camps-idUSKBN1KV1SU
13. Ver relatório da ONU, disponível
em: https://www.ohchr.org/EN/NewsE-
vents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsI-
D=23452&LangID=E
14. Ver notícia sobre financiamento do
grupo ativista, disponível em: https://
thegrayzone.com/2018/08/23/un-did-
-not-report-china-internment-camps-ui-
ghur-muslims/
15. Ver reportagem do Global Times, dis-
ponível em: https://www.globaltimes.
cn/content/1168522.shtml
16. Disponível em: http://www.gov.
cn/english/official/2005-07/28/con-
tent_18127.htm